A autenticidade, uma virtude política?
A história associou política e polidez de forma tão estreita – ao menos na aparência – que a grosseria agora ocupa um lugar de transgressão. Surgiu um novo estilo de governante, feito de ameaças, insultos e motosserras. Seus adeptos se veem como “autênticos” diante do establishment. No entanto, sua resposta ao descrédito da política institucional contribui para aprofundá-lo ainda mais
Enquanto participava do reality show O aprendiz, no qual contratava e demitia aspirantes a empreendedores, Donald Trump se gabou de ter sido chamado de o “melhor ator da televisão”. Contudo, acrescentou o bilionário, “não estou atuando. Sou apenas eu mesmo”. A observação trai as ambivalências de um gênero que mistura drama roteirizado e registro de reações autênticas. De certo modo, o comportamento de Trump se mostrava ao mesmo tempo em consonância e em descompasso com os códigos do programa. Em consonância, porque o futuro presidente levava à televisão um conjunto de atributos já associados à sua imagem pública: a de um homem de negócios que oscilava entre a sedução e a intimidação psicológica. Em descompasso, porém, porque seu temperamento indócil o levava a desviar com frequência do roteiro construído pelos produtores em torno de seu personagem – até tomar o controle da narrativa. O sucesso de O aprendiz projetou a…

