O RETORNO DA EXTREMA DIREITA NA ALEMANHA

A Bauhaus: entre a memória, o revisionismo e a AfD

Vanguarda, holocausto e memória na disputa político-civilizatória

Em 6 de setembro, a Saxônia-Anhalt foi às urnas para eleger um novo Landtag (parlamento estadual, equivalente às Assembléias Legislativas estaduais no modelo federativo brasileiro). As pesquisas de opinião publicadas nos dias que antecederam a votação apontavam o partido Alternative für Deutschland (Alternativa para a Alemanha, AfD) na casa dos 40% das intenções de voto, mais do que o dobro da força da União Democrata-Cristã (CDU), até então a legenda dominante na região. Entre as bandeiras da campanha da AfD no Land que abriga Dessau, cidade que sediou a escola Bauhaus entre 1925 e 1932, está uma investida explícita contra o legado dessa escola de arquitetura, design e artes. 

Crédito: A.Savin/Wikimedia Commons

O episódio, aparentemente circunscrito a uma disputa regional alemã, sintetiza um fenômeno mais amplo: o retorno de discursos que, quase um século depois, reproduzem o vocabulário e a lógica com que o nazismo perseguiu a Bauhaus e, pouco depois, promoveu o extermínio de milhões de pessoas. 

A AfD venceu as eleições estaduais na Saxônia-Anhalt com a conquista de 43,8% dos votos, patamar que, contudo, não lhe garante o governo da região, uma vez que para indicar o governante deveria ter eleito 42 parlamentares, de um total de 83 cadeiras, quando elegeu 39 representantes; ainda assim uma marca muito superior aos números dos partidos adversários. 

Portanto, a assunção do governo dependerá da composição com outros partidos políticos. A maioria das legendas se recusam a compor qualquer coalizão com a AfD para o governo, no que é denominado, na Alemanha, como cordão sanitário, ou seja, um consenso político-partidário que impede a colaboração com partidos de extrema-direita, especialmente em consideração à experiência histórica do nacional-socialismo.  

Entretanto, a nanica legenda populista de esquerda Aliança por Justiça Social e Racionalidade Econômica (BSW) que elegeu cinco deputados, por meio de sua fundadora, Sahra Wagenknecht, já afirmou que poderá, por meio de abstenção nas votações, permitir a formação de um gabinete comandado pela AfD, que chegaria à marca de 42 parlamentares na base de apoio, número necessário para garantir maioria. 

Se não houver consenso para formação de um gabinete, novas eleições poderão ser convocadas e provavelmente uma coalizão seria estabelecida para viabilizar o governo pela AfD, principalmente se considerarmos que, pelos patamares de votos que o partido vem obtendo na região, seria muito difícil um governo sem sua participação, o que geraria muita instabilidade política. 

No plano nacional a AfD vem ocupando a posição de opção preferida por cerca de 28% do eleitorado, seguida pelas demais legendas, com fracionamento da preferência do eleitorado, entre elas.  

O crescimento político de uma agremiação partidária considerada como “organização extremista de direita” pelas autoridades de inteligência, na região, especialmente diante de sua vitória nas eleições estaduais de 2026 para o Landtag a partir de uma campanha radical e agressiva que propõe expulsão de imigrantes; segregação de crianças filhas de refugiados e crianças PCDs nas escolas fundamentais; minimização do Holocausto e revisão do conceito de memória coletiva e dos próprios memoriais existentes na Alemanha, dentre outras, traduz a propagação de velhas ideias, sob novas roupagens e com novos atores. 

 

As artes e a arquitetura são também alvos da AfD 

Uma das propostas da vencedora AfD para a região da Saxônia-Anhalt é a vedação a toda e qualquer verba destinada a projetos considerados, segundo seu entendimento, como não alemães ou antialemães. Um dos principais alvos desse revisionismo cultural é a escola Bauhaus, com sede histórica na cidade de Dessau, na Saxônia-Anhalt, de onde foi expulsa pelo nazismo em 1933 e onde hoje permanece após seu retorno, desde a derrota daquele regime. 

Fundada por Walter Gropius na bela cidade de Weimar, em 1919, a Bauhaus nasceu da tentativa de reconciliar arte, indústria e artesanato numa Alemanha devastada pela Primeira Guerra Mundial. A escola recusava a separação entre belas-artes e ofício, propondo que estudantes e mestres trabalhassem lado a lado em ateliês, e desenvolveu uma linguagem estética fundada em formas geométricas simples, na redução do ornamento e na exploração de materiais industriais como o vidro, o aço e o concreto. Por seus quadros passaram nomes como Ludwig Mies van der Rohe, Marcel Breuer, Paul Klee e Wassily Kandinsky, o que consolidou a Bauhaus como um dos movimentos mais influentes da cultura moderna. 

Desde o início, porém, a trajetória da escola foi marcada por tensão política. Já em 1924, a vitória da direita nas eleições da Turíngia (coalizão de partidos de centro-direita e direita denominada Thüringer Ordnungsbund ou Liga de Ordem da Turíngia) levou à retirada do financiamento público e à mudança da Bauhaus para Dessau, em 1925. Ali a escola viveu seu período de maior produção e reconhecimento internacional, sob a direção sucessiva de Gropius, Hannes Meyer e, por fim, Mies van der Rohe. 

 

Avanço eleitoral do nazismo transformou a Bauhaus em alvo direto 

Em 1932, após ter conquistado a maioria no parlamento regional de Anhalt, o partido nazista cortou o financiamento da escola e forçou sua mudança para Berlim, onde funcionou como instituição privada, instalada numa antiga fábrica de telefones. A perseguição não cessou: para o regime, a Bauhaus representava o “bolchevismo”, a “decadência” e a “arte degenerada”, numa retórica que associava o cosmopolitismo do movimento a uma suposta ameaça à identidade nacional alemã.  

Em abril de 1933, poucos meses após a ascensão de Hitler ao poder, a Gestapo ocupou o prédio berlinense da escola em busca de provas de atividade comunista; diante da impossibilidade de continuar funcionando sob vigilância e pressão constantes, o corpo docente optou por dissolver formalmente a instituição em julho daquele ano. 

O fechamento da Bauhaus não encerrou sua influência – ao contrário, precipitou sua difusão mundial. A maioria de seus professores e ex-alunos emigrou, sobretudo para os Estados Unidos, onde figuras como Gropius e Mies van der Rohe passaram a lecionar em Harvard e no Illinois Institute of Technology, e para o Reino Unido e outros países europeus. Em 1937 foi fundada em Chicago a New Bauhaus, herdeira direta do currículo desenvolvido em Weimar e Dessau.  

A pesquisa histórica mais recente tem também recuperado uma face menos discutida dessa história: nem todos os integrantes da escola foram exilados ou perseguidos, pois parte permaneceu na Alemanha, aderiu ao regime ou foi silenciada, o que revela a complexidade e a heterogeneidade política de um movimento frequentemente idealizado de forma unívoca (Otto, 2024). 

A diáspora dos bauhausler(as) espalhou os princípios da escola por praticamente todos os continentes, moldando o chamado Movimento Moderno em arquitetura e o design industrial da segunda metade do século XX.  

No Brasil, a recepção da Bauhaus se deu de forma indireta e por vezes ofuscada pela influência mais visível de Le Corbusier, mas nem por isso menos real. Estudos sobre a modernidade arquitetônica brasileira apontam que a atuação de arquitetos e educadores de língua alemã, ligados à estética bauhausiana, contribuiu para consolidar princípios de funcionalidade e depuração formal já na primeira fase do modernismo nacional, ainda que essa contribuição tenha permanecido menos visível do que a matriz corbusiana adotada por Lúcio Costa e Oscar Niemeyer na construção de Brasília (Bauhaus Imaginista, 2019). 

Brasília, inaugurada em 1960 como materialização de um projeto de modernização nacional, dialoga com o ideário bauhausiano na medida em que também concebeu a cidade como um organismo planejado, no qual a forma arquitetônica deveria expressar e organizar a vida social – uma ambição que a própria Bauhaus havia formulado quatro décadas antes.  

Ainda assim, os estudiosos do tema notam que o modernismo brasileiro seguiu caminho próprio: ganhou curvas, sensualidade e leveza, distinto das linhas retas e geométricas mais próximas ao estilo germânico. Mas isso não apaga o parentesco entre os dois: no fundo, ambos nasceram da mesma vontade de repensar o mundo por meio da arquitetura e do design. 

Quase um século depois de seu fechamento, a Bauhaus voltou a ser alvo de hostilidade política organizada. Reportagem publicada pelo jornal italiano Il Foglio às vésperas da eleição de 2026 documenta que, nas eleições municipais de junho de 2024, a AfD obteve 25% dos votos em Dessau, e que, na sequência, o vice-presidente regional do partido apresentou no parlamento estadual uma moção classificando a arquitetura bauhausiana como Irrweg der Moderne (desvio da modernidade), acusando-a de ter “destruído a tradição” e de ter sido “próxima do comunismo” (Valentino, 2026). A moção foi rejeitada, mas inaugurou um debate que se estendeu por toda a campanha eleitoral subsequente. 

O programa da AfD para a Saxônia-Anhalt propõe uma “política cultural patriótica”, condicionando o financiamento público a artistas e instituições à assinatura de declarações de que não “desprezam a Alemanha e sua cultura”.  

A Bauhaus é descrita pelo partido como uma arquitetura “cosmopolita e sem pátria”, incapaz de expressar enraizamento nacional. Pesquisadores e a própria presidência da Fundação Bauhaus Dessau chamam a atenção para a coincidência entre essa retórica e expressões literalmente utilizadas pelo nazismo, a exemplo de “pensar alemão” (Deutsch denken), remissão direta a um discurso de Hitler de 1938 e da própria fórmula Irrweg der Moderne, cunhada pelo nazista ideólogo racial Paul Schultze-Naumburg nos anos 1920 (Valentino, 2026).  

Diante do risco de desfinanciamento e de ingerência política sobre a programação cultural, cerca de trinta instituições culturais do Estado firmaram, em abril de 2026, declaração conjunta alertando para a ameaça que um eventual governo da AfD representaria à liberdade artística. 

 

O caso da Saxônia-Anhalt não é isolado 

A ciência política contemporânea tem descrito, desde a primeira década deste século, uma nova onda de radicalismo de direita que combina populismo, nativismo e autoritarismo, e que já alcançou o poder ou posições de relevância eleitoral em países como Estados Unidos, Hungria, Itália, Argentina e Brasil (Mayer, 2023).  

Segundo essa literatura, tal onda se distingue das anteriores (a do imediato pós-guerra e a dos anos 1950 a 1980) por sua capacidade de se apresentar como alternativa legítima dentro do jogo democrático, ainda que sustente pautas antipluralistas e um discurso de confronto entre um “povo verdadeiro” e elites supostamente corruptas ou estrangeirizadas (Souza, 2024). 

Estudos sobre o tema também sublinham a dimensão simbólica e cultural dessas agendas: mais do que uma disputa por políticas públicas, trata-se de uma disputa pela narrativa nacional, pelo controle das instituições de memória e pela definição do que conta como “cultura legítima” (Olivieri; Castro, 2025). É nesse quadro teórico que a ofensiva da AfD contra a Bauhaus ganha inteligibilidade: atacar um símbolo do cosmopolitismo modernista é, simultaneamente, afirmar um projeto identitário excludente e testar, em escala regional, políticas que o partido cogita replicar em outros Estados alemães inclusive, segundo especialistas, a extinção de disciplinas universitárias sobre gênero, pós-colonialismo e a própria memória do Holocausto (Valentino, 2026). 

A expressão “nunca mais”, cunhada nos processos de transição democrática latino-americanos e amplamente empregada também no contexto do pós-Holocausto, sintetiza um princípio hoje consolidado no campo dos direitos humanos: o de que a elaboração pública do passado violento por meio de verdade, justiça, reparação e memória é condição para impedir sua repetição. A literatura sobre justiça transicional destaca que a construção de uma memória coletiva crítica, apoiada em arquivos, museus, datas cívicas e produção acadêmica, cumpre função preventiva: ela mantém viva a consciência social sobre os mecanismos que tornaram a barbárie possível, dificultando sua repetição sob nova roupagem (Pereira Filho, 2011; Repressão e Memória Política, s.d.). 

O ataque revisionista à Bauhaus deve ser lido justamente sob essa chave. Quando um partido político, em 2026, classifica uma escola de arquitetura perseguida pelo nazismo como “arte antialemã” e cogita restringir o próprio ensino universitário sobre o Holocausto, não se trata de mera controvérsia estética, mas de uma disputa sobre o direito à memória sobre quem tem autoridade para narrar o passado e sob quais termos.  

A pesquisa acadêmica sobre negacionismo histórico observa que a falsificação ou a relativização da memória das vítimas do nazismo tende a preceder, e não apenas acompanhar, o avanço de agendas autoritárias contemporâneas (Ruiz, 2009), até porque o antissemitismo encontra-se na origem do racismo manifestado em seus primeiros momentos históricos e que hoje volta a assombrar o mundo. 

Não sem razão, o sociólogo francês durkheimiano Maurice Hallbwachs criou e propôs a necessidade de conscientização das sociedades sobre a memória coletiva à luz de seus respectivos contextos históricos. Para Hallbwachs, mais do que um processo biológico e individual, a memória é uma construção coletiva, visão que ganha importância e é oportuna diante do risco real de um partido extremista que ameaça a escola Bauhaus em Dessau, que venceu as eleições na Saxônia-Anhalt e que ocupa as primeiras posições na preferência dos eleitores no plano federal (https://politpro.eu/en/germany). 

A perseguição à Bauhaus integrou um processo mais amplo de exclusão jurídica e, depois, física, que teve nas Leis de Nuremberg de 1935 um de seus marcos legais: a privação da cidadania alemã aos judeus, a proibição de casamentos mistos e a subsequente extensão dessas restrições a outros grupos, como as pessoas negras (as leis racistas de Nuremberg foram estendidas às pessoas negras e ciganas – Roma e Sinti – por um decreto complementar de 26 de novembro de 1935),1 que classificou esses grupos, junto aos judeus, como “inimigos do Estado baseado na raça”.  

Assim, Direito e legislação oficializaram o caminho, ao longo da década seguinte, para o extermínio sistemático de cerca de 6 milhões de judeus e de milhões de outras vítimas pertencentes às minorias consideradas indesejáveis sob a pseudociência nazista (pessoas negras, mestiças, ciganos, pessoas com deficiência, dissidentes políticos, homossexuais).  

Ao fim da Segunda Guerra Mundial, o Tribunal Militar Internacional de Nuremberg, instituído pelas potências vencedoras em 1945, julgou os principais dirigentes do regime nazista por crimes contra a paz, crimes de guerra e, pela primeira vez na história do direito internacional, por crimes contra a humanidade.  

A doutrina especializada em direito penal internacional reconhece nesse julgamento o marco fundador da responsabilização penal individual por violações maciças de direitos humanos, consagrando princípios hoje centrais ao direito internacional como a irrelevância do cargo oficial do agente, a inadmissibilidade da obediência hierárquica como excludente de culpa e a imprescritibilidade de determinados crimes que viriam a fundamentar, décadas depois, a criação dos tribunais penais internacionais para a ex-Iugoslávia, para Ruanda e, por fim, do Tribunal Penal Internacional (Simão, 2025; Alves et al.). 

Relembrar a tragédia do Holocausto, especialmente em tempos de ignorância sobre este período sombrio da história recente marcado pela ruptura civilizacional2 “é fundamental para que nenhuma tragédia semelhante volte a ocorrer” em um momento de crescimento do antissemitismo em escala global (Pereira, 2026). Referida advertência dialoga diretamente com o contexto ora analisado: o mesmo vocabulário que qualificou a Bauhaus como “degenerada” nos anos 1930 é hoje veiculado sob novas fórmulas, com adaptações lexicais, por forças políticas que também questionam a pertinência de manter viva, nas universidades e nas instituições culturais, a memória dos extermínios, da Shoah, como publicamente anunciam sem qualquer constrangimento. 

A revisão da memória coletiva e da verdade histórica relacionadas ao Holocausto e aos crimes do regime nazista são também objetivos da AfD: “menos Hitler e mais Bismarck”, afirmam os extremistas.  

Em agosto de 2026 a AfD propôs ao Parlamento Federal (Bundestag) moção com o objetivo de substituir o atual conceito federal de sítios memoriais por um novo “conceito federal para memoriais, monumentos e locais de memória de importância nacional”. Segundo um comunicado do Parlamento alemão, a AfD critica o fato de a atual cultura da memória se concentrar quase exclusivamente nos aspectos negativos da história alemã. 

Referida moção foi prontamente rechaçada pela Fundação Bávara de Memoriais (com sede em Munique) e que administra os Memoriais dos Campos de Concentração de Dachau e de Flossenbürg, por meio de seu diretor Karl Freller, que enfatizou a importância de não se permitir a minimização dos capítulos sombrios da história, especialmente diante dos atuais acontecimentos políticos no país e da ascensão de forças que questionam valores democráticos fundamentais; assim como, a relevância em se confrontar a experiência do passado recente relativa à ditadura, à exclusão e à perseguição de minorias e oposições políticas. 

A rejeição da culpa e exigência de ruptura com o passado nazista representa uma das fórmulas reiteradamente propostas por grupos extremistas e racistas, antissemitas e revisionistas.  

Em relevante mapa sobre o antissemitismo recentemente lançada no Brasil, referida estratégia é analisada: “[…] A rejeição da culpa e as demandas por um “corte limpo” com o passado nazista (Schlussstrichforderungen) constituem dois lugares-comuns complementares de elaboração defensiva diante do legado do nacional-socialismo no espaço público europeu, especialmente na Alemanha e na Áustria. Enquanto a rejeição da culpa busca absolvição individual ou coletiva por meio da negação, relativização ou externalização das responsabilidades históricas, as demandas por ruptura definitiva procuram encerrar o próprio processo de memória, responsabilização e confronto com o passado, convertendo a Holocausto em um capítulo supostamente concluído da história. Em ambos os casos, trata-se de estratégias que banalizam a magnitude do Holocausto, enfraquecem a centralidade de suas vítimas e operam como formas características de antissemitismo pós-Holocausto (troschke, 2024)” (Fróes et al, p.150 – https://combateaoantissemitismo.org.br/).  

A vitória da AfD em 6 de setembro projeta a possibilidade, pela primeira vez desde o fim da Segunda Guerra Mundial, de um governo em Anhalt por um partido político que é classificado pelo órgão regional de proteção à Constituição como extremista de direita comprovado e que se aproxima tanto do poder num Estado alemão: a apenas três cadeiras da maioria absoluta de 42 mandatos. A formação de governo depende agora de arranjos parlamentares inéditos, já que as demais legendas mantêm publicamente a recusa de coligação com a AfD, como dito anteriormente.  

O desfecho eleitoral reforça, mais do que desmente, o argumento central deste artigo. A vitória da AfD veio acompanhada da reafirmação de sua plataforma cultural para a região, inclusive da hostilidade ao legado da Bauhaus e soma-se à ofensiva do partido, também em curso desde agosto de 2026, para reformular, no plano federal, o conceito de memoriais e lugares de memória.  

Que uma legenda sob monitoramento por extremismo de direita tenha alcançado, justamente no Estado que primeiro acolheu e depois expulsou a Bauhaus, seu melhor resultado histórico é, portanto, menos uma anomalia regional do que a confirmação empírica da tese aqui sustentada: o revisionismo cultural e a disputa pela memória caminham lado a lado com o avanço eleitoral de forças que retomam, hoje, o vocabulário com que o nazismo perseguiu, ontem, essa mesma escola. 

A trajetória da Bauhaus – fundada como utopia de reconciliação entre arte e vida, perseguida como símbolo de degenerescência, dissolvida pelo nazismo e, paradoxalmente, universalizada pela diáspora de seus integrantes – funciona como uma espécie de sismógrafo da relação entre poder político e liberdade cultural. 

Sua reedição como alvo de campanha eleitoral na Saxônia-Anhalt não é coincidência histórica, mas sintoma de um fenômeno mais amplo de avanço do populismo extremista que, em diferentes países, tem convertido o passado em campo de batalha político.  

Sob tal contexto, o compromisso com a memória histórica, sobre os crimes do nazismo, do Holocausto e dos princípios consagrados em Nuremberg, oitenta anos após os históricos julgamentos, não constitui mero exercício acadêmico ou comemorativo, mas condição de vigilância democrática.  

Como escreveu Primo Levi, “quem nega Auschwitz está pronto para repeti-lo”. 

 

Flávio de Leão Bastos Pereira é doutor em Direito Político e Econômico (Mackenzie), advogado com atuação em direitos humanos e professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, com pós-doutorado na Calábria (Itália) e especialização em estudos sobre genocídio pelo Zoryan Institute/University of Toronto. Integra a lista de assistentes jurídicos a vítimas do Tribunal Penal Internacional (TPI). É vice-Presidente da Associação de Advogados/as, Juizes/as e Promotores/as em Direitos Humanos da América Latina e Caribe (AJUFIDH).  Head do Genocide Prevention & Peacebuilding Initiatives na Global Platform for the South (GPS). Associado ao Fregni Advogados Associados. 

 

Referências bibliográficas 

BAUHAUS IMAGINISTA. In the Footsteps of the Bauhaus: Its Reception and Impact on Brazilian Modernity. 2019. 

BUNDESZENTRALE FÜR POLITISCHE BILDUNG (bpb.de). Landtagswahl in Sachsen-Anhalt 2026. 1º set. 2026. https://www.bpb.de/kurz-knapp/hintergrund-aktuell/581006/landtagswahl-in-sachsen-anhalt-2026/  

https://www.bauhaus-imaginista.org/articles/4911/in-the-footsteps-of-the-bauhaus/ 

DW (Deutsche Welle Brasil). Ultradireita obtém votação esmagadora no leste alemão. 6 set. 2026a. 

https://www.dw.com/pt-br/ultradireita-obtem-votacao-esmagadora-no-leste-alemao/a-79067845 

DW (Deutsche Welle Brasil). Sigla de esquerda antiwoke pode levar AfD a conquistar governo estadual alemão. 7 set. 2026b. 

https://www.dw.com/pt-br/sigla-de-esquerda-antiwoke-pode-levar-afd-a-conquistar-governo-estadual-alemao/a-79144183 

Fróes, Anelise Decodificando o antissemitismo: uma adaptação ao contexto brasileiro: um atlas de tropos de ódio, do deicídio ao genocídio / Anelise Fróes, Bruno Cardoni Ruffier, Matheus Alexandre; [prefácio Maria Luiza Tucci Carneiro]. – 1. ed. – São Paulo: Perspectiva: CONIB, 2026. 

MAYER, Rodrigo. Direita populista radical na América Latina: os casos da Argentina, Brasil, Chile e El Salvador. Revista Sul-Americana de Ciência Política, v. 9, n. 2, 2023. 

https://periodicos.ufpel.edu.br/index.php/rsulacp/article/download/25915/19758 

OLIVIERI, A. G.; CASTRO, G. J. A ascensão da Extrema Direita: uma crise civilizatória? Revista Processus de Políticas Públicas e Desenvolvimento Social, v. 7, n. 14, 2025. 

https://periodicos.processus.com.br/index.php/ppds/article/view/1461 

OTTO, Elizabeth. Bauhaus Designers, Nazi Persecution, and the Missing Archive: Alice Glaser, Lotte Rothschild, and Richard Grune. Conferência, Bard Graduate Center, 2024. 

https://www.bgc.bard.edu/events/1531/13-nov-2024-bauhaus-designers 

PEREIRA, Flávio de Leão Bastos. Auschwitz, 81 anos: memória, antissemitismo e alerta. JOTA, 27 jan. 2026. 

https://www.jota.info/opiniao-e-analise/artigos/auschwitz-81-anos-memoria-antissemitismo-e-alerta 

REPRESSÃO E MEMÓRIA POLÍTICA NO CONTEXTO IBERO-BRASILEIRO. Justiça de Transição no Brasil: a dimensão da reparação. 

https://www.dhnet.org.br/verdade/resistencia/a_pdf/livro_repressao_contexto_al.pdf 

RUIZ, Castor Bartolomé apud (autoria coletiva). Memória, verdade, justiça e direitos humanos: um estudo sobre as relações entre o Direito e a memória da Ditadura Civil-Militar no Brasil. 2014. 

https://www.researchgate.net/publication/285543936 

SIMÃO, Jorge Rodrigues. O Julgamento de Nuremberga (1945-1946): Fundamentos, Impacto e Legado no Direito Penal Internacional. 2025. 

https://www.jorgerodriguessimao.com/153-perpectivas/1461-o-julgamento-de-nuremberga-1945-1946-fundamentos-impacto-e-legado-no-direito-penal-internacional.html 

SOUZA, Jéssica Matheus de. A ascensão da extrema direita: uma análise comparativa entre Brasil e Estados Unidos. Tese (Doutorado em Sociologia Política) – Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro, 2024. 

https://uenf.br/posgraduacao/sociologia-politica/wp-content/uploads/sites/9/2025/05/Tese-de-Doutorado-Jessica-Matheus-FINAL.pdf 

VALENTINO, Paolo. Il Bauhaus sotto assedio: così l’AfD strizza l’occhio ai neonazisti. Il Foglio, 29 ago. 2026. [Fonte jornalística especializada, utilizada em razão da atualidade dos fatos eleitorais relatados, ainda não sistematizados pela literatura acadêmica]. 

https://www.ilfoglio.it/gli-inserti-del-foglio-weekend/2026/08/29/news/il-bauhaus-sotto-assedio-cosi-lafd-strizza-locchio-ai-neonazisti–405880 

 

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