A carta de Joe Biden a Hannah Arendt - Le Monde Diplomatique

Eleições Norte-Americanas

A carta de Joe Biden a Hannah Arendt

por Guilherme Antonio de A. L. Fernandes
21 de outubro de 2020
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Biden pode não ser e muito provavelmente não será nenhum salvador da democracia no mundo, mas sua vitória pode representar um elemento fundamental para que líderes como Trump e todos que nele se inspiram comecem a ser vistos como reais e perigosas ameaças para a democracia nos lugares onde ela ainda existe

Em 28 de maio de 1975, o então senador e agora candidato à presidência dos Estados Unidos, Joe Biden, escreveu uma carta endereçada a Hannah Arendt. Biden estava interessado em receber uma cópia de um dos últimos ensaios que Arendt havia escrito, intitulado Home to Roost, que aqui, no Brasil, foi traduzido para Tiro pela culatra, reunido com demais ensaios na importante coletânea organizada por Jerome Kohn, Responsabilidade e julgamento.

Qual seria a importância desse fato histórico para os dias atuais? Biden naquele momento ocupava uma cadeira no Comitê de Relações Exteriores do Senado norte-americano. Os Estados Unidos viviam dias tensos com o custo e a derrota na Guerra do Vietnã e a sua humilhante retirada de Saigon. Arendt discursou no Boston Bicentennial Forum acerca de suas preocupações sobre a saúde da democracia norte-americana e dos perigos que ela vivia diante das mentiras fabricadas, contadas para que o país mantivesse a aura de maior potência do planeta. Isto é, das farsas e das fraudes que foram construídas pela Casa Branca para que a imagem de maior potência sobre a terra permanecesse intacta.

Joe Biden fala durante o evento de 50º aniversário da posse de John F. Kennedy. (Crédito: NASA/Bill Ingalls)

De acordo com Arendt, mentir como modo de vida não era nenhuma novidade na política. Durante o Vietnã as contagens falsas de corpos das missões, os relatórios adulterados dos danos causados pela força aérea, os relatórios de constante progresso enviados à Washington foram comuns, não para esconder segredos de amigos ou inimigos, mas sim para manipular o Congresso e persuadir o povo dos Estados Unidos. Assim, mentir como modo de vida não era realmente nenhuma novidade na política, pelo menos não no século XX. A mentira teve pleno sucesso em totalitarismos, como o que se instalou na Alemanha de Hitler e na União Soviética de Stalin. Todavia, nesses países, cuja dominação foi total, a mentira não era guiada pela construção de uma imagem, mas sim por uma ideologia. O sucesso da dominação total foi, é verdade, extraordinário para seus fins, mas centralmente dependente do terror e do assassinato. 

Diante do horror totalitário seria plausível indagar se a democracia admitiria a mentira como elemento a funcionar como uma espécie de doença autoimune. E nesse sentido, a mentira como formadora de uma imagem penetrou no âmago da democracia norte-americana desde a intrusão da criminalidade nos processos políticos por meio do escândalo do Watergate e do que explicitou o vazamento dos documentos do Pentágono. 

Para Arendt o escândalo do caso Watergate desnudou o fato de que um bando de vigaristas, mafiosos de pouco talento, tivesse conseguido se apropriar do governo da maior potência sobre a Terra. A nada imaculada carreira pública de Richard Nixon, com suas perseguições individuais e suas neuroses, assentava-se na tentativa de criar uma imagem de que todas as pessoas eram realmente iguais a ele e que suas falhas de caráter nada mais significavam do que parte da condição humana desprovida de hipocrisia e dos clichês convencionais. Ou seja, de que Nixon era um homem autêntico. Todavia, o maior erro de Nixon, além de não ter destruído as fitas que gravou a tempo com suas confissões, foi ter julgado muito mal a incorruptibilidade de tribunais e principalmente da imprensa livre. Isto é, Nixon não contava que haveria homens que estariam dispostos a desmontar a sua rede de mentiras e a imagem construída de que tudo andava bem nos trilhos da maior potência sobre a Terra, comandada por um “líder autêntico” e preocupado com os valores e a segurança de seu povo.

Assim, o que mais preocupava Arendt nesse ensaio era a democracia começar a viver das imagens construídas. Uma verdadeira doença autoimune que a distanciaria dos fatos e, a longo prazo, poderia fazê-la ruir. As imagens que produziam uma sensação de falso controle, falso progresso e, mais gravemente, portanto, falso saudável funcionamento das instituições democráticas.

O leitor que teve a paciência de chegar até aqui já percebeu o quanto foi possível dialogar com Arendt para pensar o que está acontecendo hoje no mundo democrático, tanto nos Estados Unidos como no Brasil. A construção de imagens na política ganhou contornos potencializados pela hipermodernidade tecnológica com termos e velocidade que Arendt desconhecia, como as fake news e a aceleração das redes sociais. Na construção de imagens de Donald Trump, sua administração fez novamente a “América Grande”; o mote Make America Great Again tornou-se uma realidade e sua condução do país frente à pior pandemia dos nossos tempos demonstrou a figura de um “líder sem medo”, que enfrentou um vírus “sem se esconder nas máscaras que ferem a liberdade dos norte-americanos”, que hoje “dormem aterrorizados com os grupos terroristas de esquerda” como o Black Lives Matter. A América de Trump precisa dele para que possa continuar e tornar-se mais ainda “grande e poderosa”. 

Trump, assim como Nixon, tem fatos indigestos à sua frente. Mas, a realidade não importa, afinal, o que vale é a construção de uma imagem baseada em teorias da conspiração e mentiras repetidas como um resiliente e inquebrável mantra. Imagens que são construídas também pelo exercício de uma persona, que tenta com sua agressividade e truculência desviar a atenção dos fatos e manter-se no centro das notícias. Trump tem um estilo parecido com o de Hitler: sua truculência e seus gestos são tão fortes e intensos que o espectador nem presta atenção no que se fala, apenas na figura de quem fala. Os Estados Unidos vivem hoje um cataclisma diante da pandemia? Não importa. Trump contraiu o vírus para que os médicos pudessem usá-lo como “um instrumento de Deus para descobrir o remédio certo para a cura”. Trump foi um “instrumento divino” e assim tenta convencer a grande massa de evangélicos conservadores, que nele enxergam um representante temente a Deus. Os Estados Unidos vivem um momento grave de tensão social por causa do racismo e da violência contra negros? Não importa. Trump sabe que os movimentos como Black Lives Matter querem a “desordem e ameaçam a vida dos norte-americanos que desejam a paz e a ordem”. Trump é um homem que quer “unir os norte-americanos”.

Assim, toda a imagem distante dos fatos se consolida e permite que diante de tantos erros Trump ainda seja alguém competitivo e não uma derrota certeira nas eleições norte-americanas. Em condições normais, nas quais os fatos falassem mais alto, ele já estaria derrotado.

Assim, retomando a pergunta que foi feita lá no início dessa reflexão, a importância dessa carta de Joe Biden a Hannah Arendt é que ela pode vir a demonstrar a preocupação de um político norte-americano com o destino da democracia de seu país. Diferentemente de Trump, que muito provavelmente não conhece Arendt, ou se conhece a cunharia como uma pensadora radical de esquerda, como todos o são quando lhe criticam e o que importa é a imagem que se constrói, Biden demonstrou não só maior qualidade intelectual, como também uma preocupação com as imagens que Nixon havia criado e que agora seu rival no pleito eleitoral também cria. Biden pode não ser e muito provavelmente não será nenhum salvador da democracia no mundo, mas sua vitória pode representar um elemento fundamental para que líderes como Trump e todos que nele se inspiram comecem a ser vistos como reais e perigosas ameaças para a democracia nos lugares onde ela ainda existe.

Que o interesse de Biden por esse ensaio seja um bom sinal para alguém que pode vir a assumir a presidência da maior potência bélica e política sobre a Terra e carregue em si mais do que o adágio popular de que “aqueles que não aprendem as lições da história são condenados a repeti-la”, mas sim a lição de Faulkner, que Arendt manda como um aviso: “o passado nunca está morto, nem sequer é passado”. 

 

Guilherme Antonio de A. L. Fernandes. Doutor em Direito pela USP, Mestre em Ciências pela USP, é professor, advogado em São Paulo e pesquisador do Gebrics–USP.



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