A China e o ponto cego da geopolítica
Enquanto o mundo discute quem governa, a China está corroendo as rendas que sustentam o capitalismo
Há um consenso quase universal entre analistas, diplomatas e centros de pesquisa de que o mundo estaria deixando para trás a ordem unipolar liderada pelos Estados Unidos e caminhando para um sistema “multipolar”, no qual a crise da hegemonia ocidental abriria espaço para novos polos de poder – China, Índia, Rússia, Brasil – capazes de disputar a governança global. O diagnóstico é plausível, mas não deveria parar aí. A pergunta que o debate dominante faz é quem governa o mundo. A pergunta que ele evita é outra, mais incômoda: como se reproduz o capital em escala global e o que isso permite pensar sobre uma nova ordem? Ao deslocar o problema para a redistribuição de poder entre Estados, a análise sobre multipolaridade obscurece o núcleo material da transformação contemporânea. O que se apresenta como reorganização da ordem internacional expressa algo mais profundo e que se remete à crise das formas históricas de reprodução do capitalismo monopolista.

Para entender o que está em jogo, é preciso relembrar um conceito central da economia política. Em Marx, o valor de uma mercadoria é determinado pelo tempo de trabalho socialmente necessário para sua produção. O preço de produção é o custo de produção mais o lucro médio. Sob concorrência livre, os preços de mercado gravitam em torno dos custos e da margem média de lucro. O monopólio, por sua vez, altera essa dinâmica, pois quando um capital controla uma parcela significativa da oferta, pode sustentar o preço de mercado sistematicamente acima do preço médio de produção. Essa diferença constitui a renda monopolista. E aqui é preciso um cuidado: esse sobrelucro não é valor criado pelo capital monopolista, mas valor que já existia na economia e que foi centralizado em suas mãos, drenado de outros setores, de outros países, de consumidores que pagam mais caro ou de fornecedores que recebem menos. O monopólio não aumenta a riqueza total do sistema e opera por mecanismos que concentram essa riqueza em seu próprio favor.
Durante grande parte do século XX e início do XXI, o capitalismo avançado tem sustentado sua rentabilidade precisamente por meio dessas rendas monopolistas: propriedade intelectual, domínio das finanças globais, controle tecnológico. Essas rendas funcionam como a principal contratendência à lei da queda tendencial da taxa de lucro, formulada por Marx no Livro III de O Capital. Significa dizer que, ao estabilizar preços acima do valor médio, os monopólios sustentam superlucros (lucros extraordinários) que compensam a tendência declinante do lucro. O que a China está fazendo, ao comprimir preços de mercado em direção aos preços de produção, é remover esse amortecedor. Não o substitui por outro, mas acelera e destrói a própria forma histórica do monopólio como mecanismo de estabilização.
Os números são eloquentes. Em 2008, o quilo do polissilício, matéria-prima dos painéis solares, custava cerca de US$ 475. Em julho de 2026, era negociado a aproximadamente US$ 4,80. Uma queda de 99%. No mesmo período, o preço do lítio, insumo central das baterias de veículos elétricos, despencou mais de 80%, em apenas um ano. No setor siderúrgico chinês, apenas 5% das usinas eram lucrativas em 2024. E os módulos fotovoltaicos fabricados na China passaram a ser vendidos a menos de 1 yuan por watt, muito abaixo do custo de produção dos concorrentes ocidentais.
Essa dinâmica é possível porque a formação estatal chinesa não se limita a regular o mercado, uma vez que, em diversos setores estratégicos, o Estado atua diretamente como organizador da concentração e da centralização, coordenando crédito, planejamento industrial e expansão produtiva em larga escala, muitas vezes sob margens reduzidas, priorizando expansão de capacidade, domínio tecnológico e reorganização produtiva de longo prazo. As empresas estatais e conglomerados associados ao planejamento industrial operam sob uma lógica que não corresponde à maximização clássica da rentabilidade privada. Não significa dizer que o Estado chinês desaparece na universalização da forma valor, ao contrário, intervém para reorganizar as condições de sua reprodução.
Se o monopólio funcionava como contratendência à queda da taxa de lucro, a erosão sistemática dessas rendas intensifica a pressão estrutural sobre a rentabilidade média do capital em escala mundial. O que se observa é que a China não está apenas disputando poder geopolítico, mas recolocando no centro da análise a contradição fundamental identificada por Marx: a tendência estrutural à queda da taxa de lucro. Mas há uma segunda dimensão, ainda mais radical. A China não se limita a corroer o monopólio ocidental, porque, de forma imbricada, em que pese os problemas apresentados por uma dinâmica complexa no âmbito da natureza e do trabalho nos países periféricos onde atua, na América Latina e na África, acena para a construção de uma nova genericidade humana, fundada no acesso universal a bens e tecnologias que o capitalismo monopolista tratava como privilégios de mercado. O 15º Plano Quinquenal coloca inteligência artificial, robótica, semicondutores e energia limpa como áreas estratégicas. A cooperação Sul-Sul em saúde, agricultura, espaço e infraestrutura – porto de Chancay, no Peru; ferrovia TAZARA, entre Tanzânia e Zâmbia; satélite CBERS, entre China e Brasil – aponta para a universalização do acesso a bens humanos. O investimento chinês dobrou no Brasil, que se tornou o terceiro maior destino desde 2024, com US$ 4,2 bilhões e 39 projetos.
E aqui reside uma das dimensões mais reveladoras da estratégia chinesa: a dualidade entre corroer monopólios alheios e construir os seus próprios. Se no solar e nas baterias a China destrói rendas monopolistas, nas terras raras ela faz o oposto: ergue e sustenta um monopólio de Estado. A China controla 69% da produção global de terras raras e processa cerca de 90% do total mundial. Em outubro de 2025, ampliou controles de exportação sobre elementos de terras raras e seus derivados, exigindo licenças para produtos com 0,1% ou mais de conteúdo chinês, numa demonstração de que a restrição deliberada de oferta funciona como instrumento de barganha geopolítica. O governo chinês argumenta que as medidas visam “melhor defender a paz mundial e a estabilidade regional”, mas o efeito prático é a manutenção de uma posição quase monopolista que nenhum outro país consegue replicar no curto prazo.
É precisamente nesse ponto que o Brasil entra na equação. O país detém a segunda maior reserva mundial de terras raras, com estimativas que variam de 11,4 milhões de toneladas, segundo a Agência Nacional de Mineração, a 21 milhões de toneladas, conforme o Serviço Geológico dos Estados Unidos. Isso representa entre 15% e 25% das reservas globais conhecidas, atrás apenas da China, que possui 44 milhões de toneladas. A Austrália, terceira colocada, tem apenas 5,7 a 6,9 milhões de toneladas, ou seja, menos de um terço do volume brasileiro.
A contradição, no entanto, é brutal. Apesar de deter entre 15% e 25% das reservas mundiais, o Brasil responde por menos de 1% da produção global de terras raras. Em 2024, o país exportou apenas 20 toneladas, uma cifra irrisória diante de uma produção mundial estimada em 390 mil toneladas. O contraste expõe um descompasso estrutural, considerando que o Brasil tem a geologia, mas não tem a cadeia industrial de processamento e refino, que permanece concentrada na China. Em 2025, as exportações brasileiras de terras raras totalizaram 785,3 toneladas, o que representa apenas 1,2% das vendas chinesas e 89,8% desse volume foi enviado justamente para a China. O Brasil exporta matéria-prima bruta e importa de volta produtos de maior valor agregado.
Essa assimetria colocou o Brasil no centro da disputa entre Estados Unidos e China. Em 2026, a americana USA Rare Earth adquiriu a Serra Verde, operadora da mina Pela Ema, em Goiás, que representa o único projeto fora da Ásia capaz de produzir em escala os quatro elementos magnéticos críticos (neodímio, praseodímio, disprósio e térbio). O financiamento de US$ 565 milhões veio da agência de desenvolvimento dos Estados Unidos, com cláusulas que garantem o escoamento da produção para os americanos ou seus aliados. A estratégia é usar capital e garantias de compra para ancorar o Brasil como fornecedor de matéria-prima, sem necessariamente desenvolver a capacidade de transformação no país.
O Brasil resiste. A Lei 15.190/2025, sancionada em setembro de 2026, exige que todo aporte estrangeiro traga tecnologia, formação de mão de obra e implantação de polos industriais e não apenas extração bruta. A questão entrou diretamente na campanha presidencial, uma vez que enquanto um campo defende soberania e processamento interno, com diversificação de compradores, outro prioriza a aliança com os Estados Unidos e a atração de capital e tecnologia estrangeiros. Um modelo que deverá repetir a experiência da Serra do Navio, com um extrativismo absoluto de manganês, coordenado pela norte-americana Bethlehem Steel. O Brasil, que detém a segunda maior reserva do mundo de terras raras, corre o risco de permanecer como eterno fornecedor de minério bruto. A China mantém o controle sobre a etapa da cadeia que realmente importa, o refino e a fabricação de ímãs e acena para transferência tecnológica, ao posicionar-se estrategicamente como do bloco Sul-Sul.
Essa lógica de cooperação (win-win) coloca uma pergunta que não é apenas geopolítica como um jogo de poder, mas ontológica: quanto a forma social capital ainda dispõe dos mecanismos necessários para estabilizar a reprodução do valor em escala global? A China, ao corroer as rendas monopolistas que sustentam a rentabilidade do capitalismo global e ao construir, simultaneamente, formas de acesso universal a bens humanos, abre uma fissura no interior da forma-valor. Uma outra questão: o quanto o conflito mundial será resposta às estratégias de corrosão de rendas monopolistas? A guerra aparece, nesse quadro, como a última contratendência, a destruição violenta de capital e de vidas que tenta restaurar a rentabilidade perdida.
É nessa fissura, a busca por outra relação com as formas de produção, que se joga o futuro. Talvez seja justamente por isso que tantas análises insistem em falar de multipolaridade. Porque reconhecer o problema real exigiria admitir algo muito mais radical, ou seja, que a ascensão chinesa pode estar revelando não apenas o declínio da hegemonia ocidental, mas a crise estrutural das formas monopolistas que sustentam o capitalismo global. E é nesse terreno, o da corrosão do monopólio, da desvalorização do capital e da pressão renovada da lei da taxa de lucro, que o verdadeiro significado histórico da China começa a aparecer. É por isso que, a cada dia, o conflito bélico, diante da ruína do império, torna-se cada vez mais aterrorizador, como a única forma de sobrevida do capital.
José Gilberto de Souza é geógrafo, professor do Departamento de Geografia e Planejamento Ambiental e dos Programas de Pós-Graduação em Geografia do Instituto de Geociências e Ciências Exatas (IGCE) e Desenvolvimento Territorial da América Latina e Caribe do Instituto de Políticas Públicas e Relações Internacionais (IPPRI) da UNESP. Coordenador da Cátedra da Unesp para Unesco em Educação do Campo e Desenvolvimento Territorial.
Luiz André Colonetti Bet é filósofo, mestre em Filosofia pela Universidade Federal de São Carlos e doutorando do Programa de Pós-Graduação em Geografia do Instituto de Geociências e Ciências Exatas (IGCE) da UNESP.

