A continuidade anti-capitalista entre Francisco e Leão XIV
Em vez da ruptura, Leão XIV propõe a continuidade anti-capitalista – uma fidelidade que se expressa não em slogans, mas em coerência espiritual e ética
A história da Igreja Católica raramente se move em linhas retas. Ela se transforma em curvas longas, em gestos discretos, em palavras que parecem simples, mas que contêm abismos de sentido. Foi assim com João XXIII, quando abriu as janelas do Concílio Vaticano II; foi assim com Paulo VI, quando falou de civilização do amor; e é assim agora, com a surpreendente continuidade entre o Papa Francisco e seu sucessor, o Papa Leão XIV. Ambos, cada um a seu modo, recolocaram o Evangelho no terreno do mundo real – o das dores concretas, das periferias, da desigualdade estrutural – e reacenderam o fogo da justiça social como centro da fé cristã.
Francisco, o papa dos pobres, partiu deixando uma herança espiritual que pode ser descrita como o franciscanismo político: uma espiritualidade da proximidade, do encontro, da escuta e do limite humano. Desde Evangelii Gaudium até Fratelli Tutti e Laudate Deum, sua voz ecoou como a de um profeta tardio em tempos de capitalismo acelerado e desumanizado. Ele não apenas falou dos pobres – ele os colocou como critério de verdade. Disse que a economia que mata é uma blasfêmia contra Deus, e que a indiferença global é o novo pecado do século. Em seus gestos, nas viagens a Lampedusa, nos encontros com catadores, imigrantes, desempregados, estava o retorno do cristianismo à carne da história.
Quando Francisco se despediu, o mundo esperava uma inflexão. Mas a eleição de Leão XIV, em maio de 2025, revelou algo maior: a própria Igreja parece ter decidido não retroceder. O novo pontífice – agostiniano, intelectual, norte-americano de nascimento e latino-americano de alma – não apenas manteve a tocha acesa, como a elevou a outro plano. Sua primeira exortação apostólica, Dilexi te (“Amei- te”), publicada em 4 de outubro, dia de São Francisco de Assis, é uma das mais belas peças de teologia social desde Rerum Novarum (1891).
O documento abre com uma frase que poderia ser o epitáfio de uma Igreja renovada: “O amor pelo Senhor é inseparável do amor pelos pobres.” A simplicidade da sentença contrasta com a sua radicalidade. Em Dilexi te, Leão XIV não fala de caridade como piedade, mas como projeto civilizatório. Denuncia as estruturas de pecado que se materializam nas economias de exclusão, no império do dinheiro e na idolatria do mercado. E reafirma, com a firmeza de quem conhece o chão da América Latina, que a Igreja só será fiel ao Evangelho se estiver ao lado dos que nada têm.
O texto é também uma homenagem a Francisco – não apenas ao santo de Assis, mas ao papa anterior, de quem Leão XIV declara explicitamente ter herdado o manuscrito inicial da exortação. O gesto tem força simbólica: é a primeira vez na história moderna da Igreja que um papa assume formalmente um texto começado por outro e o transforma em obra conjunta. Isso diz muito sobre o tempo que vivemos. Em vez da ruptura, Leão XIV propõe a continuidade anti-capitalista – uma fidelidade que se expressa não em slogans, mas em coerência espiritual e ética.

Mas há diferenças sutis. Francisco falava como um profeta, com a voz dos pobres. Leão XIV fala como um teólogo do amor, com a serenidade dos que buscam ordem em meio ao caos. De Francisco, herdou o impulso franciscano: o amor à criação, a proximidade pastoral, a denúncia da injustiça ecológica e econômica. De sua formação agostiniana, traz a visão do ordo amoris – a ideia de que a justiça nasce da correta ordenação do amor. Para Leão XIV, o mundo se perde quando ama o poder mais do que a verdade, o lucro mais do que a dignidade. Sua missão é restaurar a hierarquia do amor: amar primeiro os pobres, porque neles Deus se faz mais visível.
Em Dilexi te, ele vai além da retórica: cita explicitamente os documentos do Episcopado Latino-Americano, de Medellín (1968), Puebla (1979) e Aparecida (2007), reafirmando que foi nas terras latino-americanas que a Igreja reencontrou o rosto dos oprimidos e traduziu o Evangelho em linguagem de libertação. O trecho dedicado a São Óscar Romero é particularmente comovente: o mártir de El Salvador é chamado de “ícone da caridade que se torna justiça”. Leão XIV devolve a Medellín o seu lugar histórico: não como rebeldia passageira, mas como profecia confirmada.
Essa aproximação é mais do que simbólica. Durante décadas, a Teologia da Libertação foi perseguida, silenciada ou tratada com desconfiança. Agora, volta a ser reconhecida como parte legítima da tradição eclesial. O próprio Leão XIV, em entrevista recente a uma jornalista católica norte-americana, afirmou que “a libertação dos pobres não é um capítulo marginal da fé cristã – é o seu coração que bate”. Essa frase, vinda de um papa, é um divisor de águas. Ela insere a libertação no centro da catolicidade e reabre caminhos que muitos acreditavam fechados.
Ao mesmo tempo, o novo papa demonstra um estilo diferente de enfrentamento. Se Francisco denunciava o capitalismo com linguagem profética, Leão XIV prefere a crítica estrutural, mais aguda e filosófica, mas não menos contundente. Fala de um “ultraliberalismo espiritualizado” que transforma a fé em produto e a vida em cálculo, e denuncia a “indiferença global” como um pecado original redivivo, que repete o egoísmo de Adão em escala planetária. Essa crítica, formulada com o rigor de um agostiniano e a paixão de um latino-americano, coloca o novo pontificado no centro dos debates contemporâneos sobre economia, ética e política.
Há, portanto, uma mudança de tom, mas não de rumo. Leão XIV não substitui Francisco – ele o prolonga, o interpreta e o traduz em uma linguagem de amor ordenado, mais filosófica e eclesial. O que em Francisco era clamor e gesto, em Leão é método e doutrina. Ambos, no entanto, convergem para a mesma meta: uma Igreja que desça da abstração e volte ao concreto da vida, da fome, do trabalho e da terra.
Esse reencontro da Igreja com o mundo – iniciado por Medellín e levado ao ápice por Francisco – encontra agora em Dilexi te um novo marco. Há uma mística política emergindo de Roma que fala em “paz social”, mas entende paz não como silêncio, e sim como justiça. Há uma espiritualidade do amor que se torna ação coletiva. Há uma teologia da encarnação que se manifesta nas periferias, nas favelas, nos migrantes e nas mulheres que sustentam o mundo invisível.
Não é exagero dizer que, sob Leão XIV, a Igreja se aproxima de um horizonte anti- capitalista em sua práxis espiritual. O pontífice entende que a fé não pode ser cúmplice da desigualdade e que evangelizar é também lutar contra o sistema que mata. E o faz com a calma dos sábios, sem gritos, mas com firmeza.
Em um tempo em que as democracias se corroem pelo cinismo e a política parece perder sua alma, a palavra do Papa Leão XIV surge como um lembrete de que o Evangelho não é refúgio – é enfrentamento. Que amar não é fugir do mundo, mas transformá-lo. E que, nas fronteiras entre a fé e a história, o nome de Deus continua a ser, silenciosamente, justiça.
Flaviano Cardoso é advogado humanista, trabalhador da Caixa Econômica Federal no Ceará, ativista global, pesquisador independente e articulista do Le Monde Diplomatique Brasil, GGN e outros jornais de esquerda no Brasil.

