A democracia aceita os termos e condições?

ELEIÇÕES 2022 E A POLÍTICA COM OS ALGORITMOS

A democracia aceita os termos e condições?

por Annette von Schönfeld e Manoela Vianna
1 de setembro de 2022
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A transformação na forma de fazer política impulsionada pela internet e pelo funcionamento das redes sociais tem um papel essencial. O presidente Jair Bolsonaro é um fenômeno tecnopolítico porque é um produto da dinâmica das redes sociais

Em junho de 2021, um pai e uma filha debatem sobre as condutas do presidente brasileiro. A filha argumenta que o apoio a Jair Bolsonaro diminuiria fortemente após a confirmação de que o governo ignorou 81 e-mails da Pfizer com ofertas de vacinas para a Covid-19, informação divulgada quando as mortes na pandemia no país chegavam a 400 mil. O pai responde desacreditando os fatos sobre as negativas às vacinas. Ele argumenta que no momento tudo que acontecia no Brasil era considerado culpa do chefe de Estado e que a imprensa não noticia ações positivas do governo. Como exemplo, ele cita estradas construídas e reformadas no governo Bolsonaro e mostra um vídeo. Esse conteúdo circula em diversos grupos de WhatsApp, com o propósito de mostrar o que a “Globo não mostra”, expressão usada em memes políticos para reforçar a tese de que a grande imprensa persegue o governo vigente no Brasil.

O culto dos bolsonaristas à pavimentação de rodovias é uma das narrativas que mantêm mobilizados seus apoiadores nas redes sociais. São imagens e relatos compartilhados no WhatsApp e Telegram e vídeos no YouTube mostrando o presidente ‘trabalhando’, muito embora a agência Aos Fatos já tenha revelado um estudo que mostra que 54% das ações comemoradas por Bolsonaro sobre as estradas no Twitter são legados de outros governos.

Às vésperas de mais um sufrágio, essa história de discordância familiar passa longe da gravidade dos últimos acontecimentos, como o encontro (em 18 de julho deste ano) do presidente com embaixadores, quando reafirmou desacreditar no sistema eleitoral brasileiro, sem apresentar provas. E o assassinato do guarda municipal Marcelo Arruda – filiado ao PT – em sua festa de aniversário, cometido recentemente por um bolsonarista indignado com a temática da comemoração, o candidato Lula. Todos esses casos envolvem elementos como negacionismo, desinformação, descrédito à imprensa e violência política, que representam uma ameaça à democracia no Brasil

Nesse sentido, a transformação na forma de fazer política impulsionada pela internet e pelo funcionamento das redes sociais tem um papel essencial. O presidente Jair Bolsonaro é um fenômeno tecnopolítico porque é um produto da dinâmica das redes sociais na qual o brasileiro passa boa parte do seu dia, consumindo e compartilhando informações. Segundo relatório da consultoria AppAnnie, em 2021, usuários no Brasil passaram quase cinco horas e meia por dia no smartphone, liderando o ranking mundial, empatados com a Indonésia.

Ilustração: arquivo LMDB

A consequência dessa mudança do modus operandi da política foi evidenciada com a vitória de Bolsonaro em 2018, que aconteceu sem ajuda dos determinantes clássicos de uma eleição, como tempo de televisão, alto financiamento, estrutura partidária e palanques estaduais. A conquista foi construída pelo domínio dos aparatos de comunicação ofertados pelas redes sociais. A campanha não só venceu as eleições, como ganhou a disputa na internet utilizando disparos em massa via WhatsApp, fake news e o bom uso da imagem e retórica do então candidato a presidente nas redes.

Os quase quatro anos de mandato de Jair Bolsonaro e os muitos estudos sobre a algoritmização nas redes sociais não fazem com que as eleições de 2022 sejam disputadas com grande vantagem de aprendizado sobre essa nova forma de se fazer política. Os desafios permanecem e são muitos. Para contribuir com o debate sobre essa questão e fortalecer a democracia, a Fundação Heinrich Böll convidou dez pesquisadores do campo do direito digital e da ciência política para refletirem sobre a conjuntura das eleições de 2022, a partir do papel fundamental das redes e dos algoritmos. O conjunto de artigos aponta caminhos e reforça a necessidade de que a sociedade civil compreenda como esse ecossistema funciona e influencia a escolha do eleitor. A publicação de A democracia aceita os termos e condições? Eleições 2022 e a política com os algoritmos traz um olhar crítico sobre essa forma de fazer política e alerta para o fato de que muitas vezes não sabemos sobre o que estamos concordando na internet. É justamente essa opacidade que confunde e não dialoga com um valor fundamental para o exercício democrático: a transparência.

As eleições de 2022 acontecerão em um momento descrito por Caetano Veloso na música Anjos Tronchos, lançada em 2021. A letra afirma que nossa história está sendo contada em um “denso algoritmo” e sabemos que as que narram teorias da conspiração e provocam emoções como raiva e medo são mais impulsionadas nas redes. Nesse enredo, a música alerta sobre os “palhaços líderes que brotaram macabros”, mas conclui que também “há poemas como jamais” houve. E, assim como essa mensagem de esperança, acreditamos que há caminhos para fortalecer a democracia, mesmo com as assimetrias de poder reforçadas pelo funcionamento das redes.

 

Annette von Schönfeld é diretora e Manoela Vianna é coordenadora de comunicação da Fundação Heinrich Böll no Brasil.

 

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