HEGEMONIA

A dimensão global do tarifaço ao Brasil

Política externa de Trump imprime outra abordagem à atuação internacional do país – mais agressiva, unilateral e histérica –, no entanto, reflete a continuidade na busca pela manutenção da supremacia internacional 

O uso de tarifas comerciais como forma de pressão, instrumento de barganha e controle comercial seletivo – inclusive a países aliados – tem sido um dos meios preferenciais de atuação internacional do governo estadunidense de Donald Trump. Ao lado de Canadá, União Europeia, Índia e Taiwan, o Brasil se tornou um dos alvos prioritários com o anúncio em 9 de julho de sobretaxas de 50%, inicialmente a todos os produtos exportados pelo país. Para proteger cadeias produtivas internas, os Estados Unidos retiraram da lista itens cruciais como aeronaves civis, petróleo, fertilizantes, ferro-gusa, minérios, suco de laranja e papel. Porém, carne bovina, café e soja continuam sobretaxados. 

O comércio bilateral é superavitário para os Estados Unidos e parte dos produtos tarifados, como o café, não é produzida internamente, o que afasta explicações puramente econômicas. Nesse contexto, o que explica a adoção dessas tarifas? O tarifaço foi conjugado a sanções a ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e justificado também com base na suposta perseguição a Jair Bolsonaro, revelando que existem dimensões internas e transnacionais salientes para explicá-lo. A decisão reflete um aumento do poder sobre a Casa Branca de setores internos relacionados às tecnologias digitais, que se contrapõem à regulamentação das redes sociais, pauta hoje endereçada pelo STF brasileiro. Também se relaciona com a atuação internacional de lideranças brasileiras vinculadas ao bolsonarismo, que se articulam com a extrema direita estadunidense e contribuem para que o país permaneça no radar de Washington.  

Sem desconsiderar a importância desses fatores, destacamos explicações menos discutidas, que refletem mudanças estruturais da política internacional e relacionam-se com a busca de manutenção do domínio estadunidense. A política externa de Trump imprime uma outra abordagem à atuação internacional do país – mais agressiva, unilateral e histérica – mas reflete a continuidade na busca pela manutenção da supremacia internacional.  

Em análise para a revista Foreign Affairs durante o primeiro mandato de Trump, Barry Posen, diretor do Programa de Estudos em Segurança Internacional do Massachusetts Institute of Technology (MIT), refutou a tese de que o presidente seria isolacionista. Em sua visão, Trump busca “manter a superiorioridade econômica e as capacidades militares” estadunidenses, ainda que abra mão da exportação da democracia e da promoção do multilateralismo. Em outras palavras, busca a manutenção do domínio, ainda que abandone parte das justificativas tradicionais de legitimação da hegemonia. 

Nesse sentido, o reajuste tarifário sobre o Brasil abre um alerta sobre o reposicionamento estratégico dos Estados Unidos diante da crescente influência global da China e da Rússia. A declaração do super tarifaço veio, não por acaso, um dia após o encerramento da cúpula dos Brics no Brasil – esta marcada por discussões sobre desdolarização, além do simbolismo da aproximação entre países do Sul Global. De forma paralela, ao menos desde o segundo mandato de Barack Obama, a crescente presença econômica da China na América Latina era anunciada como um desafio à hegemonia regional estadunidense, com contornos ainda mais explícitos no primeiro governo Trump e na administração de Joe Biden. 

Contudo, se até agora as reações dos Estados Unidos permaneciam no campo da retórica oficial e de ameaças intra-burocracias, o tarifaço mostra uma ruptura, com ações práticas de alto impacto. Além da clara dimensão dos parceiros não ocidentais, o fato de o Brasil ser o alvo principal – e não a África do Sul ou a Índia – reflete o fato de ser latino-americano. Ao impor custos elevados a parceiros latino-americanos, Washington não apenas reafirma um traço histórico de dominação regional, mas também sinaliza uma reação firme às disputas hegemônicas em curso. Essas ações remontam à Doutrina Monroe (1823), que visava à construção da hegemonia regional via imposição de limites à influência econômica e ideológica de potências não americanas. 

Nesse contexto, o Brasil desempenha um papel central. Maior e mais rico país da América do Sul, tem histórico de cooperação em segurança e defesa com os Estados Unidos, frequentemente atuando como interlocutor regional e apoiando a manutenção da ordem hemisférica liderada por Washington. Diante da crescente presença da China e da Rússia, a preservação do status quo regional depende, em grande medida, da continuidade do alinhamento estratégico do Brasil com os Estados Unidos. 

Sede da Organização das Nações Unidas (ONU), em Manhattan, nos Estados Unidos.
Crédito: Leandro Ciuffo/Flickr

Como destacou o general Craig Faller, ex-comandante da instituição de defesa que “cuida” da América Latina, “o Brasil é um dos pilares da cooperação de segurança do Southcom na região”, bem como um importante comprador de armamentos. Garantir a América Latina como mercado consumidor da indústria bélica estadunidense compõe os interesses do complexo industrial-militar, com influência importante na tomada de decisões de Washington. A compra de armamentos também é uma forma de promover a continuidade das relações entre os militares, pois envolve contatos de longo prazo, que conjugam manutenção dos sistemas de armas e treinamento dos operadores. Na visão do Comando Sul, essas formas de cooperação e assistência garantem “oportunidades para a presença duradoura dos Estados Unidos” e mostram “os benefícios do alinhamento ao Ocidente”. 

Outro ponto refere-se ao acesso às matérias-primas críticas. Além de deter vastas reservas de matérias-primas estratégicas para o desenvolvimento tecnológico, o Brasil possui recursos de alto valor geoeconômico, cujos usos têm implicações diretas nas esferas econômica e militar dos Estados Unidos. Nesse cenário, Washington tem interpretado a intensificação da presença chinesa como uma ameaça à sua segurança estratégica, sobretudo no que se refere ao acesso às terras raras. Por essa razão, tais minerais tornaram-se objeto de disputas diplomáticas, com os Estados Unidos tentando restringir o acesso da China e assegurar o controle sobre sua extração e processamento. 

A extração em larga escala de produtos minerais é parte integrante da história do imperialismo e da competição entre grandes potências na região. Nesse processo, como proposto por Maristella Svampa com o conceito de extrativismo, são exportados produtos essenciais ao desenvolvimento industrial e tecnológico das grandes potências, a custa do trabalho superexplorado, da repressão de comunidades tradicionais e de impactos ambientais locais.  

Nesse diapasão, cabe ao Brasil pensar sua política externa de forma a evitar se tornar apenas uma peça na atuação global de grandes potências, levando em conta a miríade de interesses que se contrapõem nos planos internacional, nacional e local. No caso da exploração das terras raras, por exemplo, é necessário levar em consideração o impacto socioambiental de sua exploração, evitando partir de um suposto consenso de que as mesmas devem ser extraídas e exportadas – seja para os Estados Unidos ou para a China. Preservar a soberania significa, portanto, evitar uma postura meramente passiva e acrítica da competição entre grandes potências. 

 

Luciana Wietchikoski, doutora em Ciência Política com estágio pós-doutoral em Relações Internacionais, é professora do curso de Relações Internacionais na Unisinos. 

Lívia Peres Milani é doutora em Relações Internacionais pelo PPG-RI San Tiago Dantas (Unesp/Unicamp/PUC-SP), atualmente em estágio pós-doutoral no PPG em Direitos Humanos da Universidade Tirandentes (Unit-SE). 

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