A direita radicaliza - Le Monde Diplomatique

REGIMES POLÍTICOS / EUROPA

A direita radicaliza

por Laurent Bonelli|Raffaele Laudani
3 de janeiro de 2011
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As ditaduras de Franco e Mussolini são os embriões da extrema direita que cresce hoje na Espanha e na Itália. Apoiados na recente ofensiva da hierarquia católica, esses partidos têm um discurso conservador baseado na unidade nacional e na preservação dos “bons costumes”Laurent Bonelli|Raffaele Laudani

Construir a história da extrema direita não implica apenas em procurar características intrínsecas de um partido, de um movimento, mas avaliar também as condições necessárias para arquitetar as alianças mais ou menos plausíveis, as continuidades mais ou menos possíveis, observáveis nacional ou localmente.

Por exemplo, no caso francês, não foram apenas divergências ideológicas que impediram os dirigentes do Rassemblement pour la République (Reunião em prol da República – RPR) de se aliar ao Front Nacional (de extrema direita), mas também as chagas que os enfrentamentos – inclusive físicos – da guerra da Argélia haviam aberto entre os seus militantes respectivos.1

A questão é particularmente premente para a Espanha e a Itália; dois Estados nos quais a extrema direita exerceu o poder de maneira duradoura, com as ditaduras do general Francisco Franco (1939-1975) e de Benito Mussolini (1922-19432).

 

ESPANHA

Na Espanha, a transição democrática deixou espaços reduzidos para os partidos que reivindicavam sua filiação ao franquismo. É verdade, eles conservaram uma influência nas forças de segurança, ensaiando até mesmo uma tentativa de golpe de Estado militar em 23 de fevereiro de 1981. Mas eles nunca poderão exercer qualquer influência de peso no plano eleitoral, em razão, entre outras, da absorção de um bom número dos seus militantes – e das suas temáticas – pela principal agremiação de direita, a Aliança Popular (AP – Alianza Popular). Liderada por Manuel Fraga, antigo ministro do turismo e da informação de Franco, a AP logo se tornaria a principal força de oposição ao Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE), no poder de 1982 a 1996.

Rebatizada em 1989 de Partido Popular (PP – Partido Popular) e dirigida por José Maria Aznar, esta agremiação reúne eleitores que vão desde a direita democrata-cristã até os setores mais nostálgicos do franquismo. Seu governo foi variando de características em função das alianças que precisou contrair. Antes com um perfil liberal, na coalizão de governo que ele dirigiu entre 1996 e 2000 (privatizações e redução das despesas sociais), o PP optou por uma guinada mais conservadora uma vez reeleito em 2000, desta vez com a maioria absoluta.

O PP envolveu-se de maneira deciciva na “guerra global contra o terrorismo”, primeiro no Afeganistão e depois no Iraque, fez votar uma lei restritiva sobre a entrada e a permanência dos estrangeiros e obteve a proibição do Batasuna, uma agremiação da esquerda nacionalista basca. Ele também impôs uma reforma educacional, restabelecendo a educação religiosa e moral católica no ensino primário e secundário.

O seu retorno à oposição, em março de 2004, deu início a um período de tensões entre os que queriam fazer do PP um partido liberal tradicional, como o prefeito de Madri, Alberto Ruiz Gallardón, e os partidários de uma linha mais dura. A escolha de Mariano Rajoy para o cargo de secretário-geral traduziu a busca de um equilíbrio, mas foi nas fileiras dos seus eleitores mais radicais que o PP passou a procurar apoios. É neste sentido que deve ser entendida a sua oposição radical nos debates sobre a guerra civil, quando Ignacio González, vice-presidente da comunidade autônoma de Madri, declara: “Alguns grupos querem recuperar os antigos fantasmas de um passado que já foi superado”; ou a oposição à remoção dos monumentos fascistas, como foi a retirada da estátua equestre de Franco de Nuevos Ministérios, em Madri, em 2005, considerada por dirigentes locais “o ato mais radical da história democrática”.

O PP também iria apoiar as ofensivas da hierarquia católica contra o casamento homossexual, com argumentos como o de Mariano Rajoy, que considerou que este tipo de união “desnaturaliza a instituição de base do casamento”; se posicionou também contra a instauração de uma educação cívica na escola, alegando que “por meio dela a esquerda pretende orientar a vontade das crianças e modelar suas consciências”, como declarou Alicia Delibes, a vice-conselheira para a educação da comunidade de Madri; ou ainda, contra a extensão da duração legal do período que antecede o aborto, sob o argumento de que este foi “o pior retrocesso democrático em 30 anos de democracia, pois, pela primeira vez, foi estabelecido que um grupo de pessoas, o das que não nasceram, pode ser eliminado de maneira terrível e sem direito à defesa alguma”, vituperou David Pérez, porta-voz do grupo popular na Assembleia de Madri.

O PP também iria reativar a ideologia franquista da unidade nacional, ou seja, a da desconfiança para com as autonomias regionais. Em 2006, Eduardo Zaplana, porta-voz do PP, declarou que no governo de José Luis Zapatero “vencem aqueles que querem destruir a Espanha”. Na mesma ordem de ideias, ele passou a se preocupar com a questão da imigração, apoiando em 2010 certas municipalidades que recusaram aos migrantes irregulares o acesso aos serviços de saúde e educação.

Esse endurecimento conservador do PP espanhol contrasta de modo bastante claro com as evoluções observadas na Itália.

 

ITÁLIA

Uma das consequências mais notáveis da “anomalia” berlusconiana concretizou-se na afirmação de duas “almas” aparentemente bastante distintas da direita: a “pós-fascista”, encarnada pelo atual presidente da Câmara dos Deputados, Gianfranco Fini, e a “separatista”, da Liga do Norte, liderada por Umberto Bossi.

Será uma coincidência? Na certa, não: o partido que surgiu das cinzas do fascismo do pós-guerra – o Movimento Social Italiano (MSI) – escapou do gueto no qual a Primeira República o confinara, no momento exato em que Silvio Berlusconi entrou na arena. O demorado flerte entre esses dois partidos atingiu seu ápice com a fundação do Povo da Liberdade (PDL), único partido de centro-direita. Ora, este último, tal como uma fada madrinha, promoveu o nascimento e o batismo, em 1994, da jovem Aliança Nacional, sob o nome da qual o partido de Giorgio Almirante trocou de pele, abandonando suas antigas roupas ideológicas3, em particular os preconceitos antijudeus e pró-árabes, típicos da direita da península.

Aquele foi o prelúdio para a construção, inédita na história italiana, de um partido de direita “à europeia”, inspirado tanto na tradição popular alemã quanto naquela da França do general De Gaulle e, paradoxalmente, disposto a assumir posições, às vezes mais “progressistas” do que as do Partido Democrata (PD) em matéria de direitos civis (o que inclui desde a fecundação assistida até o reconhecimento dos casais de fato, e até mesmo o direito de voto para imigrantes legais)…

A etapa decisiva dessa transição vem ocorrendo a alguns meses na forma de uma confrontação direta com o “Cavaliere”, isto é, Berlusconi, de quem Gianfranco Fini, hoje, parece ter se tornado o principal adversário. De fato, enquanto este último explorou por muito tempo sua relação privilegiada com o presidente do Conselho, correndo com isso o risco de endossar parte dos seus erros e excessos pessoais, o advento de um partido único de centro-direita – qualificado posteriormente de “erro4” pelo chefe da AN – retirou dos trânsfugas deste partido toda e qualquer margem de manobra autônoma.

Isso explica por que Gianfrancesco Fini acabou colidindo com a figura incômoda da Sua Eminência, atolada em escândalos sexuais e judiciários dignos do Baixo Império. Com a deserção da União do Centro (UDC), um dos produtos da decomposição da “baleia branca” democrata-cristã, e frente à inação do PDL, reduzido a inventar obstáculos contra a “ferocidade” da magistratura com o presidente do Conselho, o centro de gravidade do governo deu uma guinada rumo à Liga do Norte. Por sua vez, esta última, diferentemente da AN, preferiu aliar-se ao Cavaliere sem, contudo, fundir-se no PDL – lembrando que o poderoso “superministro” da economia, Guido Tremonti, formalmente um representante do PDL, faz as vezes de spin doctor para a Liga.

Daí a ambição declarada de Gianfrancesco Fini de se tornar califa no lugar do califa em 2013 – e a exposição excessiva da sua “diferença”. Assim fazendo, ele ressuscitou dois princípios característicos da direita tradicional que haviam sido sacrificados durante os anos de namoro com o berlusconismo: a legalidade e o culto do Estado, pilares da jovem agremiação Futuro e Liberdade (FLI). Fundado em novembro de 2010, como uma reação contra a expulsão do chefe da AN do PDL, este partido desponta como uma alternativa “moderada”, “constitucional” e “social” ao berlusconismo.

Embora o seu percurso pareça menos tortuoso, a Liga do Norte não depende menos dos desdobramentos das aventuras da Sua Eminência. Aliado com a Forza Italia para constituir o primeiro governo Berlusconi, este movimento “antissistema”, que preconizou a “secessão” e depois a “federação”, constituindo-se como porta-voz das instâncias mais agressivas dos meios patronais, também conheceu uma profunda mutação ao longo dos últimos anos.

Transformado em partido de governo, ele consolidou seus poderes locais participando nas instituições nacionais. Nas eleições regionais de 2010, a Liga obteve nas “suas” oito regiões-chave 19,77% dos votos – e até mesmo 35,15% na província de Veneza. Ainda que eles se incluam entre os seus simpatizantes, alguns comentaristas se perguntam “se a Liga ainda é federalista” ou se ela traiu seus ideais em troca da sua presença na “sala dos comandos5”.

As suas práticas provocam profunda contradição entre o “pragmatismo” e a linguagem “mitológica” da Padania – uma entidade de origens duvidosas, que pretende supostamente unir a cultura e as tradições de todos os povos da Itália setentrional, herdeira da civilização celta e depositária das raízes cristãs da Europa. Mais que a sua iniciativa de denunciar “Roma, a ladra”, que lhe serve apenas para mobilizar suas bases, é a sua participação nas instituições que favorece atualmente a tutela dos interesses (egoístas) do Norte, região da qual a Liga afirma ser porta-voz.

Enquanto o berlusconismo se caracteriza por um laisser-faire sem liberalismo6, a Liga, ao contrário, encampa um liberalismo sem laisser-faire: dele ela assume apenas as dimensões antissocial e xenófoba – lançando mão, por exemplo, da triste invenção das “rondas cidadãs” de autodefesa contra a “criminalidade extracomunitária”. Mas a polêmica em torno da imigração clandestina serve como teste para um ataque mais vasto contra as regras do mercado do trabalho, de modo a “libertar” este último dos “obstáculos” sociais, e, em primeiro lugar, sindicais, no quadro de uma tutela clientelista sobre os seus próprios territórios. Com isso, o partido de Umberto Bossi torna-se o principal herdeiro do “assistencialismo” que havia sido implantado pela defunta Democracia Cristã.

As duas direitas italianas enfatizam suas diferenças entre si, mas elas nada têm de incompatível. Afinal, o nome dos seus líderes se encontram lado a lado como os autores da principal medida política adotada pela centro-direita nos últimos anos – a saber, a tristemente famosa lei Bossi-Fini sobre a imigração (2002), uma das mais duras do continente europeu.

Alguns observadores insistem na “sinceridade” da guinada democrática de Gianfrancesco Fini, referindo-se ao doloroso divórcio da mulher exaltada que ele havia encontrado no tempo da sua militância fascista.7Mas o seu perfil “moderado” não deixa de parecer uma mutação, acima de tudo tática, adaptada à visão de grandes patrões, interessados em manter-se à distância do último ciclo de Berlusconi, considerando – talvez de maneira demasiadamente otimista – que ele está encerrando (mal) a sua trajetória.

Em 20 anos, a Cofindustria, a organização patronal italiana, alternou de maneira oportunista o seu apoio entre o “moderado” Romano Prodi (que ela prefere) e o “extremista” Berlusconi (que ela suporta… cada vez menos). Mas, considerando a incapacidade da esquerda de oferecer uma alternativa dentro de um quadro neoliberal, parece que as escolhas, daqui para a frente, serão feitas no âmbito da direita.

Laurent Bonelli é integrante do grupo de análise política da Universidade Paris 10 – Nanterre. Publicou La France a peur. Une histoire sociale de l’insécurité, Paris, La Découverte, 2008.

Raffaele Laudani



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