A esquerda existe nos EUA - Le Monde Diplomatique

ESTADOS UNIDOS

A esquerda existe nos EUA

por Rick Fantasia
1 de dezembro de 2010
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A esquerda estadunidense continua viva, tanto no interior como do lado de fora do sistema bipartidário. Mas está dividida: enquanto uma parte organizou o Fórum Social Mundial de Detroit, outra protestou contra os conservadores em WashingtonRick Fantasia

Ainda existe uma oposição de esquerda nos Estados Unidos? Obrigado a ir cada vez mais à direita pela concorrência do “Tea Party”, o Partido Republicano procura eliminar seus últimos elementos moderados. Já o Partido Democrata, mais propenso a renunciar do que a combater, assiste ao crescimento em  própria estrutura de uma corrente conservadora, enquanto a sua ala progressista tem as mãos atadas pelas pressões do sistema financeiro. Então, aonde foi parar a esquerda?

Ela continua viva, tanto no interior como do lado de fora do sistema bipartidário. Mas, na realidade, existem duas esquerdas nos Estados Unidos.

Uma delas é a que esteve em junho passado no Fórum Social de Detroit, no Michigan, onde 15 mil militantes vindos do país inteiro se reuniram durante cinco dias para “reavivar o espírito dos fóruns sociais mundiais”, “consolidar os laços entre os movimentos” e “aprofundar a solidariedade internacional e a luta comum”.

Embora nem todos esses objetivos talvez tenham sido alcançados, o evento conseguiu colorir um pouco as ruas desoladoras de Detroit com uma passeata de 10 mil em seu último dia. Ele também ofereceu a um número considerável de pequenas organizações sindicais oportunidades para confrontar suas experiências. Dentre essas, estavam presentes o Congresso dos Trabalhadores Excluídos, a Aliança dos Trabalhadores Domésticos, a Aliança dos Motoristas de Táxis, a Aliança dos Trabalhadores Imigrantes e a Rede Sindical dos Operários da Festa Nacional, além de grupos de trabalhadores agrícolas e de assalariados de hotéis e restaurantes. Nas 30 assembleias populares que foram realizadas no decorrer do fórum, centenas de operários relataram a brutalidade das suas condições de vida e de trabalho.

A esquerda representada em Detroit existe no mundo inteiro, exceto por um pequeno detalhe que faz toda a diferença: nos Estados Unidos, ela é escrupulosamente mantida afastada do debate político. Nenhum dos grandes veículos de comunicação estadunidenses sequer mencionou a existência do Fórum Social de Detroit, ao passo que durante mais de dois meses eles dedicaram uma cobertura intensiva a toda e qualquer reunião do “Tea Party”.

Contudo, o caráter marginal dessa esquerda específica não se deve apenas ao cordão sanitário que lhe é imposto pelo sistema político e midiático. Já que o Fórum estava sendo realizado em Detroit, o berço histórico da indústria automobilística, poderíamos nos perguntar por onde andaram os operários desse setor naquele momento. É verdade, o número de assalariados da indústria automobilística diminuiu de maneira drástica nos últimos anos, mas, no Michigan, ainda há 50 mil deles em atividade, sem contar os aposentados, avaliados em 128 mil. Contudo, não havia sinal algum da presença de operários da Ford ou da General Motors nas dependências do Fórum e nenhuma flâmula sequer simbolizando o UAW (United Auto Workers), o principal sindicato do setor. De fato, todos os grandes sindicatos tradicionais não apareceram.

Vale reconhecer que eles não haviam sido convidados de verdade para essa festa. Nesse contexto, profundamente envolvido com a juventude e a contracultura, o fórum preferiu concentrar suas atenções antes nas grandes problemáticas do meio ambiente e da globalização do que nos operários do setor automobilístico. Nas bancadas de imprensa abarrotadas de pilhas de livros e revistas, aficionados da new age e vendedores de produtos orgânicos vindos da economia solidária rivalizavam com os micropartidos de extrema esquerda e os coletivos de militantes de todas as tendências.  O mundo do trabalho foi representado majoritariamente pelos empregados pobres e precários da indústria de serviços, a maior parte dos quais era de negros, latinos e asiáticos. Negligenciado pelas grandes agremiações sindicais, esse “povo no pé da escada social” apareceu aos olhos dos organizadores como um composto fértil apto a revitalizar a esquerda radical.

Mas o que foi feito com os outros assalariados, aqueles que ainda dispõem de um status? E qual sentido pode ser conferido a esse status quando as convenções que o enquadram (emprego estável, reconhecimento do direito sindical, proteções sociais etc.) vêm perdendo todo efeito em consequência dos ataques incessantes dos empregadores? Ao manter uma distinção sempre menos significativa entre precários e estatutários, os responsáveis  pelo fórum talvez tenham dado um tiro no próprio pé.

Com visibilidade

Em outubro, a outra esquerda estadunidense, mais institucional, chamou a atenção por ocasião de uma grande manifestação em Washington. Atendendo à convocação de várias organizações progressistas – dentre as quais a maior confederação sindical do país, a AFL-CIO, a Associação Nacional para a Promoção das Pessoas de Cor (NAACP), o Conselho Nacional de La Raza e o Centro de Ação Nacional Gay e Lésbico (NGLTF) –, cem mil pessoas se reuniram dentro do parque do National Mall e roubaram temporariamente o show do “Tea Party”. Os operários do setor automobilístico dessa vez compareceram em peso. A UAW, o seu sindicato, destacou-se na passeata promovendo uma enxurrada de camisetas e de bandeirinhas da organização.

A multidão ali reunida comportou-se de maneira muito diferente daquela de Detroit. Aqui, ela ficou sossegada, tranquilamente sentada, feliz por conhecer novas pessoas e acompanhou os discursos com uma atenção escrupulosa. Na tribuna do Memorial Lincoln, se sucederam políticos democratas, personalidades midiáticas e dirigentes sindicais, numa coreografia perfeitamente orquestrada que admitia apenas repentes de cólera esporádicos dirigidos exclusivamente aos republicanos, nunca ao capitalismo. Parecia ser preciso evitar a todo custo inflamar as mentes.

Ao longo das últimas décadas, enquanto a sua base enfrentava os fechamentos de usinas, as transferências de sedes para o exterior e as práticas antissindicais do patronato, esses sindicatos e associações se mostraram pouco dispostos a ações ofensivas. Muito ligados ao Partido Democrata, eles frequentaram demais o poder para assumir o risco de um confronto com os seus representantes.

A ampla repercussão com a qual conta essa esquerda institucional não significa, contudo, que aquela do Fórum Social, não marque presença: os grupos que a constituem desempenham um papel não menosprezível em centenas de cidades pelo país afora, desenvolvendo redes ativas e implantando contrapoderes locais.

A força desses movimentos coletivos reside na sua autonomia e numa combatividade imbuída de pragmatismo, que lhes permitem concentrar-se em objetivos precisos e mobilizar uma vasta rede de militantes de horizontes variados. Em contrapartida, o seu ponto fraco vem de que eles limitam excessivamente as suas ambições a combates setoriais desconectados de uma visão social de conjunto. Esse defeito ilustra certa tendência, herdada da Guerra Fria, a desconhecer a realidade das relações entre classes nos Estados Unidos e a contentar-se com uma análise social superficial.

A dificuldade principal das duas esquerdas estadunidenses diz respeito à sua sobrevivência em meio a uma cultura política dominada pelas maiores multinacionais do planeta. Mas, numa certa proporção, a sua fraqueza também pode ser explicada pelos limites das suas próprias perspectivas sociais. Para a primeira, os trabalhadores têm por vocação lutar contra a exclusão, e não contra a exploração; já para a outra, mais vale curtir um piquenique do que lutar…



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