A esquerda precisa perder a razão - Le Monde Diplomatique

Iluminismo e irracionalismo

A esquerda precisa perder a razão

por Victor Moreto
19 de junho de 2020
compartilhar
visualização

A esquerda “perder a razão” não significa perder a batalha da hegemonia. Consiste justamente no contrário: entender que só chegaremos numa construção hegemônica se aceitarmos a existência de outras dimensões que escapem à razão.

“E, em primeiro lugar, o individualismo. O intelectual colonizado aprendeu pelos seus mestres que o indivíduo deve afirmar-se. A burguesia colonialista introduziu a golpes de pilão, no espírito do colonizado, a ideia de uma sociedade de indivíduos, onde cada qual se encerra na sua subjectividade, onde a riqueza é a do pensamento. Mas o colonizado que tenha a oportunidade de se esconder no povo durante a luta de libertação, vai descobrir a falsidade dessa teoria”

 

Frantz Fanon[1]

Estamos a um pequeno passo de uma ruptura definitiva do nosso sistema democrático. Uma ruptura que foi anunciada já em 2014, quando a alta burguesia representada pelo PSDB, na figura de Aécio Neves, disse de sua tribuna no Senado que iria tornar o “país ingovernável” após o resultado das urnas que reelegeram Dilma Rousseff.

Ali, junto à operação Lava Jato e a sacralização midiática do ex-juiz Sergio Moro, o Brasil refazia o seu ciclo vicioso republicano: o de solapar qualquer incipiente possibilidade de emancipação popular.

Como ocorreu com João Goulart ao propor as “reformas de base”, em 1964, as instituições nacionais funcionaram para derrubá-lo. Naquele momento, sociedade civil (principalmente a classe média), STF, Congresso Nacional, grande mídia e Exército declararam a cadeira presidencial “vazia”, dando (re)início a um novo período tenebroso de torturas e choques, cerceamento da liberdade de expressão e alinhamento servil à economia e à política dos EUA.

As mesmas instituições que atuaram no golpe contra Dilma Rousseff em 2016.

Similar também àquela época era a narrativa costurada no subterrâneo da população: a ameaça comunista e o satanismo que iria trazer a desordem moral ao Brasil. Não recebiam esse nome, mas já eram as fake news mesmo sem o escritório do ódio do Carluxo.

Terraplanistas

Chegamos aos dias de hoje, começam a aparecer os terraplanistas e nós demos risada. Aparecem os mercadores da fé se pondo a vender milagres na madrugada da TV aberta: fizemos chacota. Pipocam os “kits gays”, com suas narrativas toscas pelo WhatsApp e nós não conseguimos sequer resgatar a memória de luta de quase seis décadas, criada à base de muito sangue, suor e depressão: a batalha pela narrativa e pelo afeto.

É a partir da constatação de que a disputa não está só no âmbito da verdade factual, mas em como as informações operam por meio de elementos que transcendem à razão, que nós, da esquerda, precisamos receber um alerta. De uma vez por todas.

Se bastasse simplesmente “ter a verdade”, nós teríamos vencido a guerra contra o golpe mostrando que as tais pedaladas fiscais não justificavam o impeachment; ou que nunca existiu kit gay; ou, ainda, que as provas alegadas para prender, e retirar da disputa eleitoral, o ex-presidente Lula eram inexistentes.

Do indigente da periferia do capitalismo –  que nunca passou na porta de uma escola –  ao economista de uma investidora em São Paulo; do playboy “alienado” ao comunista marxista-leninista, existe sempre algo que escapa à razão.

Quantas vezes não se ouve que alguém “perdeu a razão”, ou perdeu “a cabeça”, como uma falha do sistema humano? O que está por trás dessa percepção do senso comum é que tudo o que escapa à consciência deva ser execrado e punido como uma mãe que repreende o filho que põe a mão na tomada.

E isso não está aí por um acaso.

Iluminismo

Nossas bases filosóficas progressistas, nossos conceitos e métodos vieram

majoritariamente do século XVIII/XIX quando graçava o Iluminismo, o individualismo e o racionalismo na Europa. Tudo foi concebido como uma forma de contrapor o homem ao poder da religião cristã que, ao fim e ao cabo, justificava o absolutismo e o direito hereditário dos reis.

Foi um feito importante para o triunfo da burguesia europeia que, naquele momento, se contrapunha à nobreza e ao clero. Um triunfo político, mas também simbólico, já que ao se criar as bases da filosofia racional de Descartes e Montesquieu, construía-se o alicerce de pensamento que justificaria a derrocada de uma ideologia que até então “normalizava” o poder régio e as inquisições católicas.

Mas, ao trazer o homem – e o gênero aqui não é mero acaso – como o centro do mundo, a Europa criava um novo paradigma envaidecida de si mesma: a ciência infalível do homem e do indivíduo.

Como centro do mundo, o Homem não poderia mais perder, nem por um instante, as faculdades que o fizeram tomar o lugar de Deus. A dimensão racional do Homem já não cabia sequer na biosfera: começava-se a pensar “natureza” e “sociedade” como conceitos separados, estanques.

Não era só a lei gravitacional, a divisão celular e a eletromagnética: a ciência agora era o novo caminho para a explicação universal e uma barricada ao “misticismo” e às “trevas”. O Homem não se contrapunha à arrogância cristã da onipotência e da onipresença. Ao contrário, como na metáfora do Cristo que rouba as sandálias do pai, era Ele – o Homem – que agora figurava como o Todo onisciente.

Irracionalidade

É sintomático ver hoje em dia tantos analistas políticos – do espectro comunista ao liberal – relacionando o efeito do bolsonarismo à “irracionalidade” como quem lamenta a morte da mais alta virtude do Homem. O que esses analistas fazem é continuar recalcando toda dimensão não-racional sob o manto do progresso e da evolução iluminista, assim como os acadêmicos que continuam a fazer simpósios e a escrever artigos prestigiados sobre o “populismo”. Todos eles liberais, racionalistas e muito apaixonados por um projeto idealizado de cidadania. Mas se vendem – e se creem – racionais.

Não entendem o fenômeno das massas; não podem entendê-lo. Quando se prestam a analisá-lo, compreendem-no como a “canalha” de Voltaire ou, se as massas não atendem a uma expectativa de comportamento que lhes agrade, são “alienadas”.

“Somente podemos começar a entender o fascismo se o enxergarmos como uma das possibilidades internas inerentes a nossas sociedades, não como algo que está fora de toda explicação racional”[2], dizia o sociólogo Ernesto Laclau em 2005.

O inconsciente e os afetos fazem parte do ser humano. De qualquer ser humano e de qualquer sociedade. Mesmo que os iluminados acadêmicos se prendam à razão como o crente se prende à cruz, a dimensão do inconsciente continua operando em todos e a todo momento. E aí que funcionam os efeitos das fake news e consolida os, hoje, 30% de aprovação do governo Bolsonaro.

A história, como matéria temporal, simplesmente é descartada por essa perspectiva racional. Ou melhor, só é usada para justificar os sucessivos “erros” em não se chegar à revolução ou ao desenvolvimento.

Como nós nos chocamos tanto quando Francis Fukuyama, em nome do neoliberalismo, decretou o “fim da história” quando a ala positivista do marxismo almeja um paraíso há tantos séculos? Um paraíso sem fraturas e sem heterogeneidade.

Dizer isso não significa negar a opressão do capital: esse é um dado empírico densamente dissecado por Marx na estruturação socioeconômica, assim como são as Leis de Newton. É óbvio que a desigualdade brutal do planeta, em todos os seus matizes de etnias e territorialidades, mostra que a luta não é só obra do discurso, mas consequência da matéria; ou da falta dela. “A historicidade que nos domina e determina é belicosa, não linguística”[3], nos alertava Michel Foucault.

No entanto, é imprescindível assimilar também que o discurso é parte integrante da dominação. Não na chave da “alienação”, mas como parte de uma construção entre valores conscientes e inconscientes que estão constantemente sendo criados e recriados.

Não é menos compreensível um “famélico da Terra” acreditar no paraíso vendido pelo pastor do que ter a consciência de classe “x” que o revolucionário leninista propõe como salvação. Mesmo o evangelismo da teoria da prosperidade constrói mais laços com a cultura popular brasileira nas suas sessões de descarrego –  flagrantemente próximas às religiões de matriz africana – do que tantos conceitos importados dos livros europeus sobre revolução no Brasil.

Essa revolução – ou revelação, para os vanguardistas, é a projeção de um ideal. Um ideal que contém um método onde a razão inabalável do homem é o alicerce inesgotável. Assim, ancorados pela infalibilidade racional, enxergam tudo na lógica da “falsa consciência”. A linguagem nos faz pensar na simetria óbvia: qual seria então a “verdadeira” consciência? Seria ela divina? De onde a encarnamos?

Perder a razão, não a batalha

A esquerda “perder a razão” não significa perder a batalha da hegemonia. Consiste justamente no contrário: entender que só chegaremos numa construção hegemônica se aceitarmos a existência de outras dimensões que escapem à razão.

Essas dimensões precisam ser urgentemente articuladas dentro do discurso: é necessário fugir da tentação de nomear tudo o que escapa ao conceito pré-concebido de classe em termos como “populismo” ou “demagogia”. A todo momento nós depositamos afetos ou somos atravessados por eles: seja diante de uma notícia sensacionalista, seja na identificação com um líder ou com um ideal abstrato como “democracia” ou “revolução”.

Você não está sendo “evoluído” quando usa esses termos para desqualificar alguma política: está sendo Iluminista, datado do século XIX, tão novo quanto João Amoedo e seu neoliberalismo 2.0. A própria ideia de “evolução” é proveniente do mesmo século e justificou o darwinismo social, por exemplo.

Ao negarmos a dimensão irracional, ela não some dos seres humanos, assim como o racismo não desaparece se deixarmos de falar sobre ele: somente a deixamos numa sombra onde será articulada livremente por aventureiros mercenários do naipe de Malafaias e Macedos. E se você acha que o objetivo é imunizar as pessoas dessas afetações, você só está dobrando a aposta do racionalismo outra vez.

Missão racionalizante

O triunfo das fake news e a inserção das classes populares num neopentecostalismo mercadológico não é a falência da razão. Ao contrário: é a derrocada da missão racionalizante (seja ela liberal ou comunista) de negar a influência de outras dimensões no ser humano, como o inconsciente.

Por isso, a ciência e o conceito de classe não podem ser o polo oposto da irracionalidade. Também a política não pode ser a missão racionalizante de se contrapor aos afetos e às massas.

Porque o obscurantismo só triunfa na negação da irracionalidade. E não da razão.

Victor Moreto é  historiador, doutorando em Ciências Sociais pela Universidad de Buenos Aires (UBA) e pesquisa a relação da mídia com a subjetividade, no contexto da eleição de Jair Bolsonaro e Mauricio Macri.

[1] FANON, F. (1961). Os condenados da terra. Lisboa: Editora ULISSEIA limitada.

[2] LACLAU, E. (2006). La razón populista. México: FCE.

[3] FOUCAULT, M. (1979). Microfísica do Poder. Rio de Janeiro: Graal.

 



Artigos Relacionados

Guilhotina

Guilhotina #85 – Juliana Borges

O aborto legal no caso de estupro

O retorno do Brasil de 2020 à “moral e bons costumes” do Estado Novo

Online | Brasil
por Érika Puppim
Informalidade

Seminário debate imigrantes e o trabalho ambulante em São Paulo

Online | Brasil
por Gabriela Bonin
Podres Poderes

O riso de nosso ridículo tirano

Online | Brasil
por Fábio Zuker
Abastecimento

Arroz: uma crise anunciada

Online | Brasil
por Sílvio Isoppo Porto
Feminismos transnacionais

Uma reflexão sobre os desafios da construção do feminino nas telenovelas

por Rosane Svartman

Trabalho remoto, saúde e produtividade na perspectiva de gênero

Online | Brasil
por Patrícia Maeda

Contradições no acolhimento de refugiados no Brasil

Online | Brasil
por Juliana Carneiro da Silva