A esquerda que não desejamos mais - Le Monde Diplomatique

OS RUMOS DA ESQUERDA

A esquerda que não desejamos mais

por Serge Halimi
1 de novembro de 2011
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O jogo está perdido? Poderiam os eleitores e militantes de esquerda mais interessados no conteúdo do que nos rótulos ter esperanças, inclusive nos países ocidentais, de combater a direita junto com camaradas conquistados pelo liberalismo, mas ainda eleitoralmente hegemônicos?Serge Halimi

 

Os norte-americanos que se manifestam contra Wall Street protestam também contra seus contatos dentro do Partido Democrata e da Casa Branca. Certamente eles não sabem que os socialistas franceses continuam invocando Barack Obama como exemplo. Segundo estes, o presidente norte-americano teria sabido, ao contrário de Nicolas Sarkozy, agir contra os bancos. Seria mesmo um equívoco? Quem não quer (ou não pode) atacar os pilares da ordem liberal (financeirização, globalização dos fluxos de capitais e mercadorias) é tentado a personalizar a catástrofe, a imputar a crise do capitalismo aos erros de concepção ou gestão de seu adversário interno. Na França, o culpado seria Sarkozy; na Itália, Berlusconi; na Alemanha, Merkel. Muito bem, mas e no resto do mundo?

Em todo o mundo, e não apenas nos Estados Unidos, líderes políticos há muito apresentados como referência pela esquerda moderada também enfrentam cortejos de indignados. Na Grécia, George Papandreou, presidente da Internacional Socialista, está colocando em prática uma política de austeridade draconiana que combina privatizações maciças, supressão de emprego no serviço público e entrega da soberania econômica e social de seu país a uma “troika” liberal.1Os governos da Espanha, de Portugal e da Eslovênia também ajudam a lembrar que o termo “esquerda” está tão gasto que não remete mais a nenhum conteúdo político específico.

Um dos melhores críticos do impasse da social-democracia europeia é Benoît Hamon, atual porta-voz do Partido Socialista (PS) francês. Em seu último livro, Tourner la page [Virar a página], ele destaca: “Dentro da União Europeia, o Partido Socialista Europeu (PSE) está historicamente vinculado, devido ao compromisso que o liga à democracia cristã, à estratégia de liberalização do mercado interno e suas consequências em termos de direitos sociais e serviços públicos. São socialistas os governos que negociaram os planos de austeridade desejados pela União Europeia e pelo Fundo Monetário Internacional. Na Espanha, em Portugal e na Grécia, os protestos contra os planos de austeridade dirigem-se evidentemente ao FMI e à Comissão Europeia, mas também aos governos socialistas nacionais. […]Parte da esquerda europeia não contesta mais a concepção de que seria necessário, a exemplo da direita europeia, sacrificar o Estado de bem-estar social para restaurar o equilíbrio orçamentário e bajular os mercados. […]Em diversos lugares do globo, nós teríamos sido um obstáculo para o avanço do progresso. Eu não aceito isso”.2

Outros, em compensação, consideram a transformação irreversível, pois ela teria raízes no aburguesamento dos socialistas europeus. Ainda que bastante moderado, o Partido dos Trabalhadores (PT) brasileiro acredita que a esquerda latino-americana deve pegar o bastão da esquerda do Velho Mundo, capitalista demais, norte-americanizada demais, portanto cada vez menos legítima na afirmação da defesa dos interesses populares. Em setembro, um documento preparatório para o congresso do PT indicava: “Hoje existe um deslocamento geográfico da direção ideológica da esquerda no mundo. Nesse contexto, a América do Sul se destaca. […] A esquerda dos países europeus, que tanto influenciou a esquerda do mundo inteiro desde o século XIX, não conseguiu fornecer respostas adequadas à crise e parece entregar-se à dominação neoliberal”.3 O declínio da Europa talvez seja o crepúsculo da influência ideológica do continente que viu nascer o sindicalismo, o socialismo e o comunismo – e que parece, mais que outros, resignar-se com sua supressão.

 

Presos na lógica eleitoral

O jogo está perdido? Poderiam os eleitores e militantes de esquerda mais interessados no conteúdo do que nos rótulos ter esperanças, inclusive nos países ocidentais, de combater a direita junto com camaradas conquistados pelo liberalismo, mas ainda eleitoralmente hegemônicos? A dança realmente virou ritual: a esquerda reformista distingue-se dos conservadores pelo tempo de uma campanha, por uma ilusão de óptica. Depois, quando chega o momento, ela se põe a governar do mesmo modo que seus adversários, evita perturbar a ordem econômica, protege a prataria do castelo.

A transformação social cuja necessidade – e até urgência – é proclamada pela maioria dos candidatos de esquerda no exercício das responsabilidades governamentais requer que estes a vejam como algo além de retórica eleitoral. Mas também demanda que eles cheguem ao poder. E é nesse ponto que a esquerda moderada pretende dar lições aos “radicais” e outros “indignados”. Ela não está esperando pela “grande noite” (ver debate entre Samuel Gompers e Morris Hillquit na pág. 26), muito menos sonha em refugiar-se numa contrassociedade isolada das impurezas do mundo e povoada por seres excepcionais. Nas palavras de François Hollande, ela não quer “impedir, em vez de fazer. Frear, em vez de agir. Resistir, em vez de conquistar”. E acredita que “não derrotar a direita é conservá-la, portanto, optar por ela”.4Já a esquerda radical preferiria, segundo ele, “aproveitar a primeira fúria que passar” a fazer “a opção pelo realismo”.5

A esquerda de governo – e este é seu trunfo – dispõe “aqui e agora” de forças eleitorais e quadros impacientes, que lhe permitiriam garantir prontamente a sucessão. Mas “derrotar a direita” não tem status de programa ou perspectiva. Uma vez vencida a eleição, as estruturas já arraigadas – nacionais, europeias, internacionais – podem barrar a vontade de mudança expressa na campanha. Nos Estados Unidos, Obama pôde alegar que os lobbies da indústria e a obstrução parlamentar dos republicanos minaram um voluntarismo e um otimismo (“Yes, we can”) aprovados por ampla maioria popular.

Em outros países, governantes de esquerda dão como desculpa, para justificar sua prudência ou covardia, certas “limitações” ou “heranças” (falta de competitividade internacional do setor produtivo, nível de endividamento etc.) que teriam diminuído sua margem de manobra. Em 1992, Lionel Jospin já fazia essa análise: “Nossa vida pública é dominada por uma estranha dicotomia. Por um lado, o poder [socialista]é acusado pelo desemprego, pela precariedade dos bairros periféricos, pelas frustrações sociais, pelo extremismo de direita, pela desesperança da esquerda. Por outro, é instado a lançar mão de uma política financeira que torna muito difícil tratar dos problemas denunciados”.6Vinte anos depois, a formulação dessa contradição continua novinha em folha.

Os socialistas se lembram disso a cada vez que explanam seus argumentos em favor do “voto útil”: uma derrota eleitoral da esquerda engendra a aplicação, pela direita, de um arsenal de “reformas” liberais – privatizações, redução dos direitos sindicais, amputação das receitas públicas – que destroem as possíveis ferramentas de qualquer outra política. Essa derrota também pode ter virtudes pedagógicas. Hamon, por exemplo, admite que na Alemanha “o resultado das eleições legislativas [de setembro 2009], que rendeu ao SPD [Partido Social-Democrata] sua pior pontuação [23% dos votos]em um século, convenceu a direção do partido das necessárias mudanças de orientação”.7

Uma “recuperação doutrinal” de amplitude bastante modesta deu-se também na França, após a derrota legislativa dos socialistas em 1993; no Reino Unido, após a vitória do Partido Conservador em 2010. E sem dúvida constataremos em breve um cenário idêntico na Espanha e na Grécia, já que parece improvável que os atuais governantes socialistas desses países atribuam sua próxima derrota a uma política exageradamente revolucionária… Em defesa de Papandreou, a deputada socialista grega Elena Panaritis chegou a utilizar uma referência inesperada: “Margaret Thatcher precisou de onze anos para levar a cabo suas reformas, em um país que tinha problemas estruturais muito menores. Nosso programa foi criado há apenas catorze meses!”.8Em suma, “Papandreou, melhor que Thatcher!”.

 

Rupturas necessárias

Para sair dessa armadilha, é preciso enumerar as condições necessárias para enquadrar a globalização financeira. Mas imediatamente surge um problema: dada a abundância e a sofisticação dos dispositivos que há trinta anos submetem o desenvolvimento econômico dos Estados à especulação capitalista, mesmo uma política relativamente benevolente de reformas (menor injustiça fiscal, progressão moderada do poder de compra dos salários, manutenção do orçamento da educação etc.) exige agora um número significativo de rupturas. Ruptura com a atual ordem europeia e com as políticas passadas dos socialistas.

Por falta, por exemplo, de um questionamento da “independência” do Banco Central Europeu (com a garantia, pelos tratados europeus, de que sua política monetária escaparia a qualquer controle democrático); por falta de uma flexibilização do Pacto de Estabilidade e Crescimento (que em tempos de crise sufoca qualquer estratégia de luta contra o desemprego); por falta de denunciar a aliança entre liberais e social-democratas no Parlamento Europeu (levando estes últimos a apoiar a candidatura de Mario Dragui, ex-banqueiro da Goldman Sachs, para a direção do BCE); sem falar do livre-comércio (doutrina da Comissão Europeia), da auditoria da dívida pública (de modo a não reembolsar os especuladores que apostaram contra os países mais fracos da zona do euro) –9por falta de tudo isso, o jogo já começaria errado.

E até perdido. Nada leva a crer que Hollande, na França, Sigmar Gabriel, na Alemanha, ou Edward Miliband, no Reino Unido, teriam êxito no que Obama, José Luis Zapatero e Papandreou falharam. Imaginar que “uma aliança que faça da união política da Europa o coração de seu projeto” seja capaz, como espera Massimo d’Alema, na Itália, de “garantir o renascimento do progressismo”10 é (na melhor das hipóteses) sonhar acordado. No estado atual das forças políticas e sociais, uma Europa federal só poderia apertar ainda mais os dispositivos liberais já sufocantes e privar ainda mais o povo de sua soberania, confiando o poder a instâncias tecnocráticas opacas. A moeda e o comércio já não são áreas “federalizadas”?

Entretanto, na medida em que os partidos de esquerda moderados continuam a representar a maioria do eleitorado progressista – seja por adesão a seu projeto ou pelo sentimento de que eles constituem a única perspectiva de alternância próxima –, as formações políticas mais radicais (ou os ambientalistas) encontram-se condenadas ao papel de figurantes, forças de apoio, papagaios de pirata. Mesmo com 15% dos votos, 44 deputados, quatro ministros e uma organização com dezenas de milhares de militantes, entre 1981 e 1984 o Partido Comunista Francês (PCF) nunca pesou na definição das políticas econômicas e financeiras de François Mitterrand. O naufrágio do Partido da Refundação Comunista (PRC), na Itália, prisioneiro da aliança com os partidos de centro-esquerda, não é um exemplo mais animador. Na época, a questão era impedir a qualquer custo que Silvio Berlusconi retornasse ao poder – o que ele acabaria fazendo, embora mais tarde.

A Frente de Esquerda (da qual o PCF faz parte) tem a esperança de contrariar esses presságios. Pressionando o PS, ela espera que ele escape de “seus atavismos”. A priori, a aposta parecia um feitiço. No entanto, se ele integra outros dados além da relação de forças eleitoral e das limitações institucionais, ele pode prevalecer-se de precedentes históricos. Assim, nenhuma das grandes conquistas sociais da Frente Popular (férias pagas, semana de 40 horas etc.) constava do programa (muito moderado) da coligação vitoriosa em abril-maio de 1936 – foi o movimento grevista de junho que as impôs ao patronato francês e à direita.

A história desse período não se resume, no entanto, à pressão irresistível de um movimento social sobre partidos de esquerda tímidos ou assustados. Foi a vitória eleitoral da Frente Popular que liberou um movimento de revolta social, dando aos trabalhadores o sentimento de que eles não enfrentariam, como antes, o muro da repressão policial e patronal. Entusiasmados, eles também sabiam que nada seria dado pelos partidos nos quais acabavam de votar sem que eles forçassem um pouco a barra. Daí a dialética vitoriosa – mas muito rara – entre eleição e mobilização, urnas e fábricas. No atual estado de coisas, um governo de esquerda que não enfrentasse uma pressão desse tipo imediatamente se veria a portas fechadas com uma tecnocracia que perdeu o hábito de fazer qualquer outra coisa além de liberalismo. Sua única obsessão seria seduzir agências de classificação de risco, as quais – não é nenhum segredo – “rebaixam” qualquer país que empreenda uma verdadeira política de esquerda.

Então, ousadia ou estagnação? Os riscos da ousadia – isolamento, inflação, rebaixamento – são martelados em nossos ouvidos o dia inteiro. Sim, mas e os da estagnação? Analisando a situação da Europa dos anos 1930, o historiador Karl Polanyi recorda que “o impasse em que se encontrava o capitalismo liberal” tinha então desembocado, em vários países, em “uma reforma da economia de mercado realizada à custa da extirpação de todas as instituições democráticas”.11 Um socialista moderado como Michel Rocard alarma-se: o endurecimento das condições impostas aos gregos poderia provocar a suspensão da democracia no país. Assim, ele escreveu no mês passado: “No estado de cólera em que esse povo estará, pode-se duvidar que algum governo grego possa sustentar-se sem o apoio do Exército. Essa triste reflexão provavelmente vale para Portugal e/ou Irlanda e/ou outros, maiores. Até onde isso vai chegar?”.12

Embora atravessada por toda uma parafernália institucional e midiática, a república do centro balança. Há uma disputa entre o endurecimento do autoritarismo liberal e uma ruptura com o capitalismo. Esta ainda parece distante. Mas quando o povo deixa de acreditar em um jogo político de dados viciados, quando observa que os governos foram despojados de sua soberania, quando persiste em exigir a submissão dos bancos, quando se mobiliza sem saber aonde levará sua cólera, isso significa que a esquerda ainda está viva.

Serge Halimi é o diretor de redação de Le Monde Diplomatique (França).



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