A Guerra da Ucrânia é a primeira guerra transmitida pelas redes sociais

MÍDIAS DIGITAIS

A Guerra da Ucrânia é a primeira guerra transmitida pelas redes sociais

Acervo Online | Ucrânia
por Ricardo Luigi
28 de fevereiro de 2022
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A Guerra da Ucrânia é a primeira guerra transmitida pelas redes sociais, ainda não preparadas para lidar com a certificação da informação e repletas de informações distorcidas

A guerra entre Rússia e Ucrânia é a primeira guerra a ser transmitida pelas redes sociais. O argumento aqui apresentado é que isso terá um efeito importante na forma como vemos e entendemos o conflito. Assim como ocorreu em outros eventos bélicos dos séculos XX e XXI. Embora não tenha sido uma guerra formal, a Primavera Árabe já tinha demonstrado a interferência das redes sociais nos levantes.

“A tecnologia, na forma de armas e transporte, proporciona os meios diretos pelos quais certos povos ampliaram seus reinos e conquistaram outros povos. Isso faz dela a causa principal do padrão mais geral da história”. Foi o que escreveu em 1997, no livro “Armas, Germes e Aço”, vencedor do Prêmio Pulitzer, o biogeógrafo americano Jared Diamond, professor da UCLA.

As tecnologias da época tiveram efeito sobre a forma como a Guerra do Vietnã (1955-1975), a Guerra do Golfo (1990-1991) e os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001 foram vistos e repercutidos. Na velocidade das inovações tecnológicas, muitos dos conceitos tradicionais, em torno dos quais está organizada a política internacional, estão sendo transformados.

A Guerra do Vietnã começou na década de 1950, período em que os televisores começaram a chegar na casa das pessoas. A possibilidade de se ver retratado o horror alterou a narrativa da guerra como ato de coragem e heroísmo. A força das imagens de morte e dor, como a icônica foto da menina vietnamita Kim Phuc Phan Thi, de 9 anos, correndo nua, com o corpo queimado pela arma química Napalm, mobilizou a opinião pública americana de tal forma que a fez interferir, por meio de protestos, na decisão americana de retirar suas tropas do sudeste asiático.

Protestos em Londres a favor da Ucrânia. “A Ucrânia é um país livre. Pare Putin. Pare a Guerra” (Crédito Unsplash)

Apesar do impacto da Guerra do Vietnã, costuma-se atribuir à Guerra do Golfo esse título de “primeira guerra a ser televisionada”. Isso porque o avanço da tecnologia permitiu que a guerra fosse transmitida via satélite, em tempo real, ao vivo, pela CNN americana, em um momento em que as tvs coloridas já tinham se disseminado mais amplamente pelo mundo. O aprendizado obtido no conflito anterior conduziu à omissão de imagens dos civis mortos, episódio sintomático da manipulação da narrativa de guerra.

Os atentados do 11 de setembro e a posterior Guerra ao Terror, conduzida principalmente pelos Estados Unidos, entre 2001 e 2021, complexificaram ainda mais a compreensão sobre o papel da mídia, das imagens e das narrativas na construção da percepção social sobre os eventos. Desde as trágicas imagens dos aviões se chocando contra o prédio, distribuídas em tempo real, até às imagens da captura de Osama Bin Laden, houve um espetáculo tecnológico, com imagens que nada devem ao filme mais moderno de ação de Hollywood.

A mídia, com sua cobertura das guerras, teve papel importante na construção do imaginário social sobre os conflitos. Entretanto, a confusão entre informação e entretenimento gera também consequências negativas. Teme-se que, nessa era de superinformação, o uso irresponsável das redes sociais contribua para cristalizar algumas visões estereotipadas e simplificadoras sobre o conflito na Ucrânia.

Em uma guerra não há mocinhos e bandidos, bons e maus. A lógica binária do “gostei” ou “não gostei” não dá conta da complexidade do mundo físico. Embora as redes de televisão estejam buscando se reinventar, a maior parte da população, especialmente os mais jovens, já sofreram a virada tecnológica, informando-se pelas diversas redes sociais. Críticos ferozes à “manipulação da mídia”, televisiva e impressa, paradoxalmente não se sentem responsáveis pelos conteúdos falsos ou equivocados que disseminam.

A Guerra da Ucrânia é a primeira guerra transmitida pelas redes sociais, ainda não preparadas para lidar com a certificação da informação e repletas de informações distorcidas. Numa perspectiva mais otimista, a mesma tecnologia permite acompanhar os aviões de guerra e as restrições de espaço aéreo pelo Flight Radar e a movimentação das tropas russas pelo Google Maps. Algumas imagens dessa guerra serão imortalizadas, como o caso da senhora ucraniana que ofereceu sementes de girassol aos soldados russos.

As mídias, convencionais ou não, ainda se embaralham ao lidar com a Guerra da Ucrânia. Um canal de TV brasileiro usou imagens de um jogo como se fossem registros da guerra. A TV ucraniana ensinou a população a fazer coquetel molotov para confrontar as tropas russas, o que também foi um dos tuítes mais retransmitidos no país. As notícias sobre a invasão são censuradas pela TV russa ao seu povo. O Facebook bloqueou algumas das agências russas e determinadas notícias favoráveis ao governo Putin. O Telegram, aplicativo russo, é o território livre para todo tipo de informação (e desinformação) que circula no país.

Embora a informação circule velozmente, sem muito rigor, boa parte da imprensa mundial parece preocupada em difundir novas práticas. As redes sociais e nós usuários ainda parecemos ter um longo caminho a percorrer. O mundo precisa sentar e repactuar alguns de seus valores universais, como a democracia, a manutenção da paz, os direitos humanos e o uso ético da tecnologia.

 

Ricardo Luigi é doutor em Geografia das Relações Internacionais pela Universidade Estadual de Campinas e professor da Universidade Federal Fluminense.

 



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