A Guerra no Irã: quando mais um conflito pode virar o maior de todos
A guerra voltou a ser a linguagem da política internacional e isso revela um fracasso da diplomacia
A Guerra no Irã parece ser apenas mais um conflito na longa lista de guerras do século XXI. Porém, por carregar um risco de transbordamento regional e global, pode não ser apenas mais uma.
Cada época tem suas grandes questões. O paradoxo do nosso tempo é que problemas cada vez mais complexos estão sendo tratados por respostas cada vez mais simplistas. Governos populistas, em diversas partes do mundo, transformaram a política internacional em um jogo de força. Autoritarismo, nacionalismo e uso da violência passaram a ser apresentados como soluções rápidas para problemas profundos. O resultado tem sido previsível: mais guerras.
Os números revelam a gravidade do momento histórico. Segundo o Comitê Internacional da Cruz Vermelha, existiam em 2024 cerca de 120 conflitos envolvendo aproximadamente 60 países. Já o Instituto de Pesquisas de Paz de Oslo contabilizou 61 conflitos ativos em 36 países. Independentemente da metodologia, uma conclusão é clara: o mundo vive o maior número de conflitos desde o fim da Segunda Guerra Mundial.
Nem todas as guerras, porém, recebem a mesma atenção. Conflitos no continente africano, como os da Etiópia ou do Sudão do Sul, permanecem praticamente invisíveis para grande parte da mídia internacional. A razão é dura e simples: guerras em países pobres tendem a gerar menos impacto direto no comércio global e, portanto, menos visibilidade política.
Outras guerras, porém, concentram os holofotes. A Guerra da Ucrânia, que já ultrapassa quatro anos, tornou-se um marco da nova rivalidade entre grandes potências. Agora, soma-se a ela a guerra no Irã. Esse conflito já não envolve apenas Irã, Israel e Estados Unidos. Sua dinâmica militar e estratégica atravessa todo o Oriente Médio e o Oriente Próximo, atingindo, direta ou indiretamente, países como Arábia Saudita, Azerbaijão, Bahrein, Catar, Chipre, Emirados Árabes Unidos, Iraque, Jordânia, Kuwait, Líbano, Omã, Síria e Turquia. Em outras palavras, trata-se de uma guerra em uma das regiões mais explosivas do planeta.

Os efeitos humanitários são devastadores. Os ataques ao Irã não atingiram apenas bases militares. Escolas, hospitais e áreas residenciais também foram atingidos. Segundo a Agência de Notícias de Ativistas de Direitos Humanos, até 7 de março de 2026, no oitavo dia do conflito, 1.205 civis haviam sido mortos no país, incluindo ao menos 194 crianças. Além disso, foram registradas 187 mortes de militares e 283 vítimas ainda não identificadas.
A retaliação iraniana, direcionada principalmente a bases estadunidenses na região, também provocou vítimas em outros países. Segundo dados divulgados pela imprensa, ao menos 241 pessoas morreram nesses ataques.
A guerra no Irã é, de fato, mais uma guerra em um mundo cada vez mais conflagrado. Mas ela não é apenas mais uma. Ela ocorre em uma região central para o sistema internacional, estratégica do ponto de vista geográfico, geopolítico e energético. E, por isso, carrega uma pergunta que preocupa o planeta: até onde essa guerra pode escalar?
No século XXI, o maior perigo das guerras não é apenas que elas aconteçam. É que deixem de ser locais e passem a ser globais.
Ricardo Luigi é geógrafo e internacionalista, professor da UFF
Vitor Stuart Gabriel de Pieri é Professor Associado do Instituto de Geografia da UERJ.

