A inteligência artificial e a nova fratura metabólica do capital
Por que a disputa pela IA é também disputa pela energia, pela água, pela verdade pública e pelo planejamento democrático da vida
A inteligência artificial costuma ser apresentada como uma promessa de eficiência, produtividade e libertação do trabalho humano. Fala-se em automação, modelos generativos, medicina preditiva, educação personalizada, transição energética, racionalização de processos e democratização do conhecimento. Mas essa narrativa, quando separada da crítica da economia política, encobre uma contradição decisiva: a IA não nasce fora da história. Ela nasce dentro do capitalismo, financiada por capitais concentrados, orientada por mercados monopolizados, dependente de infraestrutura material pesada e subordinada à lógica da valorização.
Este é o ponto de partida necessário para compreender a inteligência artificial não como simples ferramenta, mas como expressão de uma nova etapa da crise civilizatória do capital. Se o primeiro movimento desta trilogia tratou da macroeconomia, da financeirização e da tentativa de contenção da crise por meio do capital fictício; se o segundo examinou a IA como limite histórico, filosófico e político do capitalismo; este terceiro precisa enfrentar a consequência mais profunda: a inteligência artificial revela que o capitalismo já não ameaça apenas o trabalho, a subjetividade e a democracia. Ele ameaça também o metabolismo ecológico da vida.
A chamada “nuvem” não flutua sobre a Terra. Ela está fincada em data centers, cabos submarinos, mineração, terras raras, semicondutores, energia elétrica, água, sistemas de refrigeração, galpões industriais, vigilância informacional e trabalho humano invisibilizado. A IA é apresentada como abstração, mas sua existência é brutalmente material. Por trás da leveza aparente de uma resposta gerada em segundos, há uma cadeia mundial de extração, processamento e consumo energético. O algoritmo parece imaterial apenas porque sua materialidade foi deslocada para longe do olhar do usuário.
Kate Crawford é decisiva nesse ponto. Em Atlas of AI, ela demonstra que a inteligência artificial deve ser compreendida como uma tecnologia de extração: extrai minerais da terra, energia dos sistemas elétricos, trabalho humano precarizado, dados dos sujeitos e padrões da vida social. Sua contribuição desloca o debate de uma “ética da IA” abstrata para uma crítica material da infraestrutura que torna a IA possível. A inteligência artificial não é apenas código, modelo ou linguagem matemática. É uma rede planetária de poder, trabalho,
natureza e capital.
Essa materialidade já aparece nos dados internacionais. A Agência Internacional de Energia estimou que os data centers consumiram cerca de 415 TWh em 2024, aproximadamente 1,5% da eletricidade mundial. A mesma agência projeta que esse consumo pode mais do que dobrar até 2030, chegando a cerca de 945 TWh – valor superior ao consumo atual de eletricidade do Japão. A IA aparece como um dos principais vetores desse crescimento, ao lado da expansão geral dos serviços digitais. O dado é politicamente decisivo: a infraestrutura da IA deixou de ser marginal e passou a disputar energia com setores industriais inteiros.
A Universidade das Nações Unidas também chama atenção para um ponto essencial: não basta medir a pegada de carbono da IA. É preciso medir conjuntamente carbono, água e terra. A localização dos data centers, a matriz energética utilizada, os sistemas de refrigeração, o uso operacional dos modelos e a expansão da inferência cotidiana alteram profundamente o impacto ambiental da tecnologia. O problema não está apenas em treinar grandes modelos uma única vez, mas em operá-los milhões ou bilhões de vezes, todos os dias, em cadeias de consumo energético permanentes.
A isso se soma o lixo eletrônico. O Global E-waste Monitor 2024 registrou 62 milhões de toneladas de resíduos eletrônicos em 2022, com projeção de 82 milhões de toneladas em 2030. Apenas uma fração minoritária desse volume é adequadamente coletada e reciclada. A economia digital, portanto, não elimina a materialidade da produção: ela apenas a desloca para minas, fábricas, aterros, periferias ambientais e cadeias globais de descarte.
A categoria marxiana de metabolismo entre sociedade e natureza ganha aqui nova atualidade. John Bellamy Foster mostrou que o capitalismo produz uma fratura metabólica: rompe o intercâmbio racional entre humanidade e natureza ao subordinar esse metabolismo à acumulação. Kohei Saito, ao recuperar o Marx ecológico no contexto do Antropoceno, aprofunda esse diagnóstico: o capitalismo não resolve suas contradições ecológicas; ele as desloca, as amplia e as reorganiza em escala superior.
A inteligência artificial aprofunda essa fratura em novo patamar. Não se trata apenas da indústria poluente clássica, da fábrica ou da mineração tradicional. Trata-se de uma infraestrutura digital que promete substituir ou reorganizar atividades humanas enquanto amplia a demanda por energia, água, minerais, semicondutores e capacidade computacional. A IA é apresentada como solução racional para a crise, mas pode se converter em novo acelerador da crise se permanecer submetida à concorrência privada, ao segredo industrial, à guerra geopolítica e à acumulação monopolista.

Shoshana Zuboff ajuda a compreender o segundo eixo dessa crise: a transformação da experiência humana em matéria-prima comportamental. No capitalismo de vigilância, a vida cotidiana é convertida em dado, o dado em previsão e a previsão em produto. Mas a etapa atual é ainda mais delicada. A IA generativa não apenas observa comportamentos; ela passa a mediar o acesso ao conhecimento. O buscador tradicional listava caminhos. A IA começa a entregar respostas.
Essa mudança altera a estrutura pública da verdade. Quando a resposta substitui a busca, quem controla a resposta controla parte decisiva da percepção social da realidade. Esse é o perigo civilizatório: a informação pode deixar de circular como disputa pública visível e passar a ser reorganizada por sistemas opacos de ranqueamento, recomendação, patrocínio, personalização e influência. A velha publicidade separava, ao menos formalmente, conteúdo e anúncio. A nova economia das respostas tende a borrar fronteiras entre informação, recomendação, reputação, consumo e indução comportamental.
Esse risco não exige imaginar uma conspiração. Basta observar a lógica econômica. Plataformas privadas precisam monetizar atenção, tráfego, reputação e dependência. À medida que a IA se torna a nova porta de entrada da internet, empresas, governos, grupos econômicos e elites informacionais passam a disputar não apenas anúncios, mas o próprio enquadramento das respostas. A questão deixa de ser apenas “quem aparece primeiro no resultado de busca?” e se torna: “quem será apresentado pela IA como fonte confiável, resposta provável ou solução recomendada?”.
O perigo é ainda maior porque a resposta automatizada aparece revestida de neutralidade técnica. Mas nenhum sistema treinado em bases históricas desiguais, controlado por empresas privadas, monetizado por publicidade e protegido por segredo industrial pode ser considerado neutro. A IA pode reorganizar visibilidade, autoridade e legitimidade. Pode tornar determinados autores, países, empresas, mercadorias e interpretações mais visíveis, enquanto torna outros sujeitos e perspectivas praticamente inexistentes.
Essa é uma nova forma de poder. Não se trata apenas de censurar. Trata-se de ordenar o mundo. A IA pode selecionar o que merece atenção, o que parece verdadeiro, o que surge como razoável, o que é classificado como extremado, irrelevante ou duvidoso. Em sociedades profundamente desiguais, essa mediação tende a favorecer quem já possui capacidade econômica, influência institucional, domínio tecnológico e poder de adaptação aos critérios das plataformas.
Por isso, a crise ambiental da IA não pode ser separada da crise democrática da informação. A mesma infraestrutura que consome energia e água também organiza visibilidade. A mesma plataforma que promete responder perguntas pode direcionar consumo, moldar preferências, reduzir pluralidade e deslocar o debate público para ambientes privados. A mesma tecnologia que promete eficiência pode consolidar uma nova forma de governo algorítmico da vida cotidiana.
Miguel Nicolelis acrescenta uma dimensão decisiva a esse debate. Sua crítica não parte apenas da economia política, mas da neurociência. Ao longo de sua trajetória, Nicolelis tornou-se uma das principais referências mundiais em interfaces cérebro-máquina, neuroengenharia e estudos sobre a atividade coletiva dos neurônios. Justamente por conhecer profundamente a relação entre cérebro, corpo, plasticidade e ação, sua crítica à inteligência artificial possui peso especial: ela não nasce de recusa abstrata à tecnologia, mas da compreensão científica de que o cérebro vivo não é uma máquina digital.
Essa distinção é fundamental para o argumento civilizatório. A inteligência humana não é simples processamento de informação. Ela emerge de um organismo situado, de um corpo sensível, de uma história biológica, afetiva, social e cultural. O cérebro não funciona como computador isolado que recebe dados, calcula respostas e entrega resultados. Ele é um sistema vivo, plástico, incorporado, relacional, atravessado por emoção, memória, percepção, movimento, linguagem, desejo, medo, imaginação e vínculo social.
Por isso, a crítica de Nicolelis atinge o centro do fetiche contemporâneo da IA. Quando empresas e governos chamam modelos estatísticos de “inteligentes”, produzem uma confusão politicamente útil. Atribuir inteligência às máquinas pode servir para reduzir o valor da inteligência humana, naturalizar a substituição de trabalhadores, justificar decisões automatizadas e enfraquecer a exigência de responsabilidade política pelos sistemas técnicos. A máquina aparece como sujeito, enquanto os sujeitos reais – trabalhadores, programadores, usuários, populações exploradas e territórios impactados – desaparecem da cena.
A formulação de Nicolelis permite afirmar com mais precisão: a IA não é uma mente exterior à humanidade. Ela é uma técnica produzida por humanos, treinada sobre dados humanos, sustentada por trabalho humano, energia, mineração e infraestrutura material. Sua suposta autonomia encobre as intenções, interesses e poderes que a organizam. A inteligência artificial, portanto, não deve ser analisada como consciência emergente das máquinas, mas como sistema técnico-social comandado por grupos econômicos, Estados, mercados financeiros e projetos geopolíticos.
Essa distinção também é decisiva para a democracia. Se tratarmos a IA como uma inteligência superior, tenderemos a aceitar suas respostas como autoridade. Se a compreendermos como sistema estatístico, histórico e politicamente orientado, poderemos exigir auditoria, transparência, contestação, responsabilidade e controle público. A crítica de Nicolelis, portanto, não diminui a importância da IA. Ao contrário: mostra que ela é importante demais para ser entregue ao mito de que máquinas pensam por nós.
Nesse ponto, Nicolelis dialoga diretamente com Crawford, Zuboff e Michael Löwy. Crawford mostra a materialidade extrativa da IA: minas, energia, água, trabalho e dados. Zuboff revela a captura comportamental da experiência humana pelo capitalismo de vigilância. Nicolelis acrescenta o fundamento neurocientífico: a inteligência viva não pode ser reduzida à computação, e a humanidade não pode aceitar que sua capacidade de pensar, sentir e decidir seja rebaixada à lógica operacional das máquinas. Löwy oferece a saída ecossocialista: subordinar a técnica às necessidades sociais, ao equilíbrio ecológico e ao planejamento democrático.
Essa contribuição é central para o fechamento da trilogia. A crise civilizatória não consiste apenas no risco de a IA consumir energia, concentrar renda ou direcionar informações para quem paga mais. Consiste também no risco de a própria ideia de humanidade ser rebaixada. O capitalismo digital não quer apenas automatizar tarefas; ele tende a automatizar decisões, preferências, diagnósticos, recomendações, julgamentos e formas de reconhecimento social. Nesse processo, o ser humano pode passar a ser medido, previsto e administrado como se fosse um conjunto de dados.
A crítica de Nicolelis permite recusar essa redução. A inteligência humana é inseparável do corpo, da vida, da experiência e da liberdade. Nenhuma sociedade democrática pode permitir que sistemas privados, opacos e orientados por lucro assumam a mediação central da verdade, do trabalho, da educação, da saúde, da guerra e da política sob o pretexto de possuírem uma inteligência superior. O problema não é a existência de máquinas capazes de realizar operações complexas. O problema é uma civilização que começa a tratar
máquinas como sujeitos e sujeitos humanos como peças substituíveis de uma engrenagem computacional.
É aqui que Michael Löwy se torna indispensável. O ecossocialismo, em sua formulação, não é uma ecologia decorativa nem uma simples política de compensação ambiental. É uma alternativa civilizatória ao “progresso destrutivo” do capital. Sua força está em recusar duas ilusões: a ilusão liberal de que o mercado poderá salvar o planeta sem enfrentar a acumulação; e a ilusão produtivista de que basta desenvolver forças produtivas sem perguntar a quem servem, que necessidades atendem e que destruição carregam.
O ecossocialismo propõe recolocar a economia sob critérios de necessidade social, equilíbrio ecológico, igualdade substantiva e planejamento democrático. Aplicado à inteligência artificial, isso significa perguntar: quais usos da IA são socialmente necessários? Quais apenas aceleram consumo, vigilância, desemprego, obsolescência e manipulação? Quais aplicações deveriam ser públicas, auditáveis e orientadas por finalidades coletivas? Quais deveriam ser proibidas ou severamente limitadas? Que data centers podem ser admitidos em determinado território? Com qual matriz energética? Com qual uso de água? Com qual retorno social? Com qual controle popular?
A questão ecossocialista não é “mais tecnologia” ou “menos tecnologia” em abstrato. É planejamento democrático da tecnologia. Não há racionalidade ecológica quando a infraestrutura da IA é decidida por fundos, big techs, contratos militares, bolsas de valores e estratégias privadas de domínio de mercado. Se a IA reorganiza trabalho, educação, saúde, comunicação, energia e democracia, então ela não pode ser tratada como propriedade estratégica de poucas corporações.
Essa formulação permite escapar tanto do entusiasmo ingênuo quanto do medo paralisante. A inteligência artificial pode ampliar capacidades humanas, acelerar pesquisas científicas, apoiar políticas públicas, melhorar diagnósticos, fortalecer acessibilidade, ajudar no planejamento climático e reduzir desperdícios. Mas esses usos emancipatórios não emergem automaticamente do mercado. Eles dependem de finalidade social, controle público, transparência, soberania tecnológica, proteção de dados, direitos trabalhistas e limites ecológicos.
Sob o capitalismo, porém, a tendência dominante é outra. Os ganhos de produtividade são apropriados por acionistas. Os custos ambientais são socializados. Os trabalhadores são pressionados por automação, vigilância e intensificação. Os territórios pobres oferecem energia, água, minerais e descarte. Os usuários produzem dados e dependência. As plataformas concentram renda, infraestrutura e poder de mediação.
A periferia global corre risco especial. Países como o Brasil podem ser convocados a fornecer energia renovável, minerais estratégicos, território para data centers, dados populacionais e mão de obra barata, enquanto o comando tecnológico, as patentes, os modelos, as receitas e o poder de decisão permanecem concentrados no Norte global e nas grandes corporações. O discurso da “vantagem competitiva verde” pode esconder uma nova dependência: exportar natureza, energia e dados; importar plataformas, vigilância e subordinação tecnológica.
Essa é a nova fronteira da dependência. Não basta perguntar se um país terá data centers. É preciso perguntar quem os controla, para que servem, quanta energia consomem, quanta água utilizam, que empregos geram, que soberania tecnológica constroem e que danos ambientais deixam. Sem política pública, transparência e controle social, a infraestrutura da IA pode se tornar uma nova forma de enclave: altamente intensiva em recursos, pouco distributiva em benefícios e profundamente subordinada ao capital transnacional.
A inteligência artificial, nesse sentido, condensa a crise civilizatória do capitalismo. Ela promete abundância, mas nasce da escassez produzida. Promete inteligência, mas pode reduzir a autonomia humana. Promete eficiência, mas amplia a pressão energética. Promete acesso ao conhecimento, mas pode privatizar a mediação da verdade. Promete libertar o trabalho, mas pode intensificar desemprego, vigilância e sofrimento psíquico. Promete sustentabilidade, mas depende de uma infraestrutura material cada vez mais pesada.
O fechamento da trilogia, portanto, deve ser político e civilizatório: a IA não pode ser abandonada às forças cegas do mercado. A inteligência social acumulada pela humanidade não pode ser convertida em monopólio privado. Os dados produzidos pela vida coletiva não podem servir apenas à predição comercial e ao controle comportamental. A energia, a água, os territórios e o trabalho humano não podem ser subordinados a uma corrida tecnológica sem deliberação democrática.
A inteligência artificial deve ser recolocada em seu devido lugar: não como destino da humanidade, mas como instrumento. Não como consciência, mas como técnica. Não como autoridade, mas como objeto de deliberação pública. Não como substituta da inteligência viva, mas como ferramenta que só pode ser legitimada quando subordinada à vida, ao trabalho digno, à democracia, à justiça social e ao equilíbrio ecológico.
A IA não é uma nova consciência que supera a humanidade. É uma técnica produzida pela humanidade, mas capturada por uma forma social que tenta transformar inteligência viva, natureza, trabalho e verdade pública em mercadoria. Por isso, a tarefa civilizatória não é obedecer às máquinas, mas libertar a técnica do capital e devolvê-la ao governo democrático da vida.
Isso exige soberania tecnológica, auditoria pública, redução da jornada de trabalho, proteção social, transparência algorítmica, regulação ambiental dos data centers, controle democrático dos dados, investimento público em ciência aberta e prioridade absoluta aos usos socialmente necessários da tecnologia.
Sem isso, a IA será apenas mais uma promessa capturada pela história real do capitalismo: transformar toda potência humana em valor, todo valor em propriedade, toda propriedade em poder e todo poder em capacidade de decidir, em nome de poucos, o destino comum da humanidade.
A crise da inteligência artificial é, no fundo, a crise de quem governa a inteligência social. E essa pergunta não é técnica. É civilizatória.
A IA não é o fim da crise do capital. Ela é a tentativa de automatizar a própria contenção da crise – transferindo seus custos para trabalhadores, territórios, subjetividades e ecossistemas. A questão final, portanto, não é se o capitalismo conseguirá usar a IA para sobreviver à própria crise. A questão é se a humanidade conseguirá impedir que essa sobrevivência seja obtida contra a vida.
Flaviano Correia Cardoso é Advogado humanista, empregado público da Caixa Federal, pesquisador independente em psicodinâmica do trabalho, economia política e crise civilizatória, e ativista global.


Aplaudo de pé esse artigo.