A mídia perde espaço - Le Monde Diplomatique

Campanhas municipais

A mídia perde espaço

por Gustavo Venturi
4 de outubro de 2008
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A influência eleitoral dos meios de comunicação está cada vez mais limitada no país. Conforme a democracia se consolida, a população passa a definir seu candidato com base em avaliações objetivas de suas condições de vida. E não há mídia poderosa ou marqueteiro genial capazes de mudar isso

Depois de ter ficado patente, “como nunca antes na história deste país”, a hostilidade dos principais meios de comunicação e da maioria de seus articulistas para com Luiz Inácio Lula da Silva, a consagração eleitoral do candidato-presidente no segundo turno de 2006 deixou a impressão de que a chamada grande mídia já não é mais a mesma. Se não em seu conservadorismo, ao qual demonstrou estar agarrada com firmeza, pelo menos em sua capacidade de “fazer cabeças” e contribuir de forma decisiva para influir no destino político do país.

Ocorre que há pressupostos questionáveis na base dessa percepção. Um deles, mais sutil, é de que existem cabeças absolutamente vulneráveis – embora sempre seja a dos outros, de preferência “outros” populares, os numerosos componentes de uma “massa ignara”, e nunca a cabeça ilustrada e crítica que proferiu tal certeza, às vezes em forma de preocupação ou denúncia. Outro, mais evidente, é a idéia de que a mídia, por si só, teria tido em algum momento um enorme poder de influência (e por isso a noção de perda). A tese oposta sustenta que a capacidade de influência eleitoral da mídia empresarial, embora não desprezível, é – não só agora, mas em toda nossa história recente, pós-redemocratização – mais limitada e relativa do que supõe o senso comum.

Avaliemos o caso das eleições presidenciais.

Na primeira eleição direta pós-ditadura, em 1989, o anseio por mudanças estava na ordem do dia. O governo Sarney terminava marcado por dois traços básicos: hiperinflação e corrupção. Não à toa, Ulysses Guimarães (PMDB) e Aureliano Chaves (PFL), representantes explícitos da continuidade, não somariam juntos 4 milhões de votos (5,6% dos válidos do primeiro turno), amargando respectivamente o 7º e o 9º lugares, muito distantes de Fernando Collor (20,6 milhões), Lula (11,6 milhões), Leonel Brizola (11,2 milhões) e Mário Covas (7,8 milhões), que simbolizavam, cada um a seu modo, a mudança. As elites foram obrigadas a se render diante dessa tendência da vontade popular, que se expressaria no voto, mas já era evidente bem antes do primeiro turno, e decidiram apoiar aquele que, falando em mudança, viria para mudar muito pouco.

Não há dúvida de que os meios de comunicação, em sintonia com a campanha eleitoral de Collor e opondo-se a Lula, representaram papel decisivo para desempatar, ao final, a disputa no segundo turno. Mas considerando que nessa eleição, além de Ulysses e Aureliano, eram candidatos Paulo Maluf (PDS) e Guilherme Afif (PL), ou mesmo Covas (PSDB) e Brizola (PDT), é plausível admitirmos que, se dependesse apenas de sua vontade, as elites provavelmente teriam escalado outra dupla para o round final. Ou seja, Lula versus Collor não foi uma opção do establishment, a despeito de seu poderio comunicacional.

Em 1994 e em 1998, na eleição e reeleição de Fernando Henrique Cardoso – ambas embaladas pelos efeitos distributivos do real, sucesso de crítica e de público – houve convergência, de um lado, entre a avaliação popular de que a forte queda e o controle da inflação obtidos constituíam importantes benefícios a preservar e, de outro, a preferência das elites por FHC, ante a reincidente “ameaça” Lula/PT. Assim, a opção do poder econômico e de seus veículos de comunicação, em mais duas eleições, viria ao encontro da “vontade geral” – a qual, ainda que abarcando ampla diversidade de propósitos e expectativas, nas duas ocasiões afluiu eleitoralmente para um fim comum.

Mais uma vez, para a tese aqui defendida, é irrelevante que em 1998 a mídia tenha se associado à campanha eleitoral de FHC para adiar o anúncio da crise econômica que se avizinhava e minimizar seus efeitos. A turbulência, decorrente da forte especulação financeira internacional que já havia quebrado Rússia e México, mirava o Brasil graças à permanência dos frágeis fundamentos econômicos do país, que o primeiro mandato tucano fora incapaz de reverter. Ainda que a estratégia de “adiamento” tenha sido exitosa o suficiente para reeleger FHC, os mesmos componentes – determinação das elites, com sua mídia a serviço – foram insuficientes para segurar a popularidade do governo tão logo a crise chegou às ruas, a partir da abrupta desvalorização do real, até então mantido forte de maneira artificial.

Tais componentes não seguraram nem conseguiram reverter a impopularidade do tucano ao longo de todo o segundo mandato, de forma que chegamos a 2002 com um cenário em que, como em 1989, a palavra de ordem para a maioria do eleitorado (2/3) era novamente a mudança – a ponto de até o candidato da situação, José Serra, ser forçado a dizer que viria para mudar. E à sua direita, considerando os partidos conservadores, nem sequer havia candidatos. Ciro Gomes (PPS), Anthony Garotinho (PMDB), e naturalmente José Maria de Almeida (PSTU) e Rui Costa Pimenta (PCO), batiam no peito, clamando-se os melhores agentes para a transformação esperada.

Lula, por sua vez, que desde que surgira no cenário político como líder do “novo sindicalismo” carregava a pecha de radical e oposicionista empedernido, trazia a palavra “mudança” escrita na testa. Para ampliar sua base social e eleitoral e com anuência do PT, fez o movimento contrário, tratando de minar resistências e minimizar temores. A Carta aos Brasileiros – divulgada em julho de 2002, na qual Lula se comprometia a não realizar rupturas e a negociar eventuais alterações nos marcos regulatórios vigentes – não seria suficiente para que as elites se acalmassem. O “risco Lula” faria com que durante o segundo turno o dólar rompesse a barreira dos R$ 4,00.

Mas talvez a partir do reconhecimento da vitória quase inevitável do petista – tendência reafirmada mês a mês pela solidez da sua candidatura nas pesquisas eleitorais – e ainda por darem algum crédito aos compromissos da Carta, de julho em diante parte dos veículos da mídia empresarial passou a dar tratamento mais equânime aos candidatos, deixando de privilegiar José Serra, como ficara patente durante o primeiro semestre, na fase pré-campanha1.

A escolha pelo mais pertinente

Certamente esse movimento de relativa capitulação dos veículos conservadores à inequívoca tendência da vontade popular – do ponto de vista de mercado, um movimento de preservação, o que é relevante, já que são empresas e competem entre si – contribuiu para que não prevalecesse a leitura de 2002 como o primeiro processo eleitoral em que a maioria da população não teria dado ouvidos aos principais meios de comunicação na hora de decidir seu voto. Mas o fato é que, mais uma vez, o eleitorado votou como lhe parecia melhor, majoritariamente na oposição, e elegeu Lula, que nem com Carta e figurino “paz e amor” era a opção das elites, ainda que essa contrariedade não tenha sido tão explicitada.

Assim chegamos a 2006, ano em que a dissociação entre a opção eleitoral da maior parte das elites, dos conservadores e de seus veículos – Geraldo Alckmin – e a opção eleitoral popular, da maioria das esquerdas e dos movimentos sociais – a reeleição de Lula – foi mais explícita que nunca, dando a impressão, como dizíamos no início deste artigo, de que a mídia perdera a capacidade de formar a opinião pública difusa, não organizada e dispersa Brasil afora, aquela que aparentemente aflora só de eleição em eleição.

Ora, desde a redemocratização o povo tem votado com o pé no chão, com base acima de tudo em uma avaliação de suas condições objetivas de vida e fazendo escolhas com base em um diálogo entre essa experiência concreta – mesmo quando pouco crítica e imersa no mundo cotidiano – e as expectativas oferecidas pelo cardápio de candidatos que se apresentam a cada eleição. Com a mesma lógica, a maioria do eleitorado brasileiro votou pela mudança em 1989 e 2002, e pela continuidade em 1994, 1998 e 2006. E não houve mídia elitista e poderosa (se ainda o for), nem marketing eleitoral genial (e há quem saiba fazê-lo, naturalmente em menor número que os tantos que se arrogam) capaz de mudar o rumo dessas orientações, em geral definidas antes das campanhas.

Isso não significa que a mídia não possa desempenhar papel decisivo e que em todo esse período não o tenha feito, interferindo definitivamente nos rumos de processos eleitorais. No já lembrado segundo turno de 1989, por exemplo, após ser definido pela vontade popular o rumo a favor da mudança, para os eleitores estava em jogo a escolha entre duas promessas: um Lula sem história de governo (lembremos que o PT havia recém-conquistado umas poucas prefeituras) e um Collor que se dizia sem história, “novo na política” – e não era. Aliás, parece que vêm dali as crenças do senso comum de que a mídia e o marketingeleitoral sejam onipotentes. Mas os fatos não têm corroborado essa pretensão.

A lógica das disputas municipais em curso parece ser a mesma. A reeleição ou eleição do sucessor é pouco provável onde o atual prefeito está mal avaliado, como em Salvador ou Macapá, e tende a se confirmar nos locais em que o administrador aparece bem cotado, o que a literatura especializada chama de “voto retrospectivo”. Se por um lado as principais mudanças observadas – como as ascensões vertiginosas de Márcio Lacerda (PSB) em Belo Horizonte, de Luizianne (PT) em Fortaleza, de João da Costa (PT) em Recife, entre outras – só ocorreram depois do início da campanha no rádio e na TV, atestando o poderio desses meios, por outro, todos têm em comum a força das realizações de seus mandatos ou dos governos cuja continuidade eles representam. Ou seja, o êxito de suas campanhas, certamente alavancadas por trabalhos de comunicação competentes, tem a realidade como condição e lastro.

Maturidade do eleitorado

Esse comportamento eleitoral pautado por uma percepção pragmática do real não se refere evidentemente a uma equação atemporal, desde sempre vigente, ou a algo próprio da condição humana. Isso significa que existe uma maturidade do eleitorado brasileiro, a qual se mostra crescente, quanto mais contínua a experiência democrática em curso; mas existe também um processo sempre inacabado e, como tal, sujeito a retrocessos. Para evitar mal-entendidos, convêm duas observações finais: Só faz sentido discutir a autonomia do eleitorado diante de quaisquer tentativas de manipulação, não apenas da mídia empresarial, num contexto (a) de generalização do acesso aos meios, um estatuto que por ora só a TV conseguiu; (b) de universalização do Ensino Médio, ainda não atingida quantitativamente e muito distante em termos qualitativos; e (c) de ruptura definitiva de todas as formas de controle do voto por terceiros – para a qual o governo Lula tem contribuído a passos largos, com a quebra do voto de cabresto mesmo em lugares remotos, graças à capilaridade atingida pelo programa Bolsa Família e sua entrega sem intermediários, e com a distribuição de renda de forma geral.

Por fim, dizer que o eleitorado brasileiro já não é mais o mesmo e que não se deixa manipular pelos meios de comunicação em termos absolutos não implica que a crítica à obscena concentração da mídia no Brasil deva passar a um segundo plano ou que se possa arrefecer a batalha contra essa situação. Muito pelo contrário. Em relação a suas opções conservadoras, a mídia empresarial mudou pouco desde que surgiu no Brasil, e a sociedade ainda tem muito a ganhar em cidadania e em desenvolvimento sustentável – decorrências “naturais” de um processo radical de inclusão, em que todos tenham efetivamente voz – com a superação da atual concentração dos meios de comunicação.

 

*Gustavo Venturi doutor em Ciência Política, é professor de Sociologia da USP.



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