A onda rosa - Le Monde Diplomatique

DISPUTA PELO PODER

A onda rosa

Edição - 33 | América do Sul
por Renaud Lambert
1 de Abril de 2010
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Desde a virada do século, as vitórias eleitorais da esquerda na América Latina suscitaram dúvidas pertinentes sobre a possibilidade de mudança efetiva a partir da tomada do poder. Quando a teoria se torna prática, é necessário retomar e aprofundar esse debate

Em janeiro de 2010, a Universidade de Nottingham, na Inglaterra, reuniu cerca de cem pesquisadores para tentar fornecer uma explicação política para a “onda rosa”, a série de vitórias eleitorais da esquerda (ou da centro-esquerda) na maior parte dos países latino-americanos, entre 1998 e 20061. Esse fenômeno – novo – de acesso “maciço” ao poder levou a maioria dos interventores a reabrir um velho debate, pelo prisma da experiência política de uma região na qual seu interesse já não se limita mais à teoria: para mudar o mundo é preciso tomar o poder?

A primeira constatação foi que a direita não desiste de fazer isso. “Nos anos 1980”, observou William Robinson, professor da Universidade de Santa Barbara (Califórnia), “uma parte das classes dominantes desalojou a elite tradicional e tomou o poder de Estado para facilitar o processo de globalização liberal, que permite a ela auferir um lucro maior.” Assim, a subida ao poder dos neoliberais teve ao menos um mérito: ela demonstrou que ao “tomar o poder de Estado”, é possível “colocar em causa o status quo”. Mas, para tanto, é preciso efetivamente querer fazer isso.

Para Juan Grigera e Luciana Zorzoli, pesquisadores argentinos, não foi exatamente esse o desejo que caracterizou a presidência de Nestor Kirchner no país (2003-2007). “Seu papel foi restaurar a governabilidade”, garantindo ao mesmo tempo que “o modelo econômico não seria alterado”. O pior, observou Sara Motta, da Universidade de Nottingham – dessa vez sobre o Brasil, o Uruguai e o Chile –, é que “nesses países, o fortalecimento da democracia se fez acompanhar de medidas sociais de assistencialismo, que levaram a uma ‘naturalização’ da pobreza”, segundo a concepção de que as desigualdades fariam parte da “ordem das coisas” e que, afinal, seria necessário reconhecer a impossibilidade de erradicá-las.

Em plena crise do modelo neoliberal, ressalta Motta, é fácil perceber o interesse das classes dominantes de ver chegar ao poder governos que, “supostamente originários das classes populares, enfraquecem a capacidade de resistência dessas últimas, precisamente porque elas são vistas como ‘próximas’”. Presente ao seminário, John Holloway teve seu momento de glória em 2002. Naquela época, inspirado na experiência zapatista no estado mexicano de Chiapas, ele tinha escrito um ensaio, cujo título era Mudar o mundo sem tomar o poder2. Suas ideias suscitaram grande interesse, em particular nos meios ditos altermundialistas, ou seja, antiglobalização. Ele considera que, para a esquerda, trair é inevitável e se escandalizar com isso se transformaria numa “banalidade que já não provoca nada além de um dar de ombros, querendo dizer ‘estava escrito’”.

A objeção parece pertinente, mas com a condição de assimilar as diferenças da conquista do poder executivo e da conquista do poder de Estado. Um atalho que o teórico marxista Ralph Miliband já tinha refutado, nos anos 1970: “Um arrepio de expectativa e de esperança popular sempre se manifestou por ocasião das vitórias eleitorais da esquerda”, pois “essas vitórias são frequentemente interpretadas [de maneira completamente equivocada] como a perda efetiva do poder por parte das classes dominantes3.” Ora, a revolucionária alemã Clara Zetkin constatava, no Congresso de Tours, em 1920, que “a História não nos mostra um único caso de classe exploradora e dominante que tenha aberto mão voluntariamente de sua posição de poder”. Hoje, assim como ontem, seria preciso dar uma pequena ajuda a eles, inclusive a partir do governo.

Segundo William Robinson, é justamente a isso que tem se dedicado uma “esquerda preocupada em transformar as relações de propriedade e de classe”, na Bolívia e na Venezuela, mas ainda sem sucesso. “É porque a tarefa não é simples”, constatou com um sorriso o acadêmico americano. Ele defende o método boliviano atual: “Mobilização de massas autônomas, mas em colaboração com ‘veículos políticos’ destinados a tomar de assalto o poder do Estado.” E por que não, observou mais tarde um participante – avaliando que a destruição das organizações políticas estruturadas (especialmente as marxistas) sob as ditaduras dos anos 1960 e 1970 continua a pesar sobre as sociedades latino-americanas –, lançar mão desses “veículos políticos” que contam com o apoio de um corpus ideológico sólido o bastante para ajudá-los a resistir aos fenômenos de cooptação e de recuperação?

Decididamente não foi essa a ideia defendida por Holloway. Para ele, mesmo libertado de sua inércia conservadora, o Estado só pode pisotear “a dignidade” daqueles que ele pretende servir. É verdade que a ação dos governos boliviano e venezuelano deve “receber nosso apoio”. Mas alerta: “não podemos nos limitar a isso”. Pois por trás da questão do Estado há a questão do poder.

Holloway aspira uma sociedade “sem poder”. E de imediato. Em vez de tomar de assalto o Estado para “ajudar os pobres”, ele sugere, portanto, “ouvi-los”: “Uma pessoa que nós havíamos classificado na categoria de ‘pobre’ nos disse: ‘Eu não sou pobre. Eu luto. Tenho minha dignidade’”. Essa “escuta”, do que ele chama de “política da dignidade”, mudaria tudo. Em especial o modo de agir e o modo de não agir. Pois na cabeça de Holloway, toda ação política é passível de alienar aqueles em nome dos quais ela é promovida: “Não, obrigado, diz a dignidade. Por favor, não façam nada no meu lugar, eu mesmo faço.”

Então o que fazer? Agir exatamente da mesma forma “à qual nós temos nos dedicado”, explicou Holloway, “ou seja, criar espaços e momentos de dignidade que rompam com a lógica capitalista”. Na sala, alguns questionaram o perigo que esse tipo de injunção faria entre as classes dominantes. Em particular num momento em que a direita – tanto no Chile quanto em Honduras – demonstra que pretende preservar seu acesso ao poder de Estado, inclusive por meios ilegais. Alguns dos participantes tinham em mente uma objeção muito próxima daquela que foi formulada por Walter Benn Michaels, quando ele analisou a nova estratégia neoliberal relativa à pobreza: “O que se espera de nós é que nos mostremos mais respeitosos para com os pobres, e que nós paremos de considerá-los como vítimas – pois tratá-los como vítimas é dar prova de condescendência, relativamente a eles, e negar sua ‘individualidade’. Se nós conseguirmos nos convencer de que os pobres não são pessoas aos quais faltam recursos, mas sim indivíduos aos quais falta respeito, então é nossa ‘atitude’ que se transforma num problema a ser resolvido5”.

Uma jovem estadunidense da revista Poor pediu para falar. “Para mim, a palavra ‘dignidade’ põe um problema: ela me lembra [Charles] Dickens e seus ‘gentis pobres cheios de dignidade’. Quanto a mim, eu sou pobre e estou com raiva. E quando alguém me fala de ‘dignidade’, fico com a impressão de que essa pessoa está querendo me impedir de expressar minha raiva contra esse sistema e que ela está querendo me reduzir ao silêncio”. Tomar o poder, com raiva, ou se desinteressar, com dignidade, correndo o risco de se submeter por mais tempo – essa é a questão.

 

*Renaud Lambert é jornalista.



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