A Pedagogia do Oprimido no Brasil: 50 anos de pertinência - Le Monde Diplomatique

PAULO FREIRE

A Pedagogia do Oprimido no Brasil: 50 anos de pertinência

por Patrícia Martins Gonçalves
20 de dezembro de 2018
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Depois de 50 anos de sua publicação, “Pedagogia do Oprimido” continua atual e se faz necessária e fundamental, porque Educação é muito mais que garantir boas notas em testes, como pretende os interesses das classes dominantes. O fazer educativo é um processo vivo, orgânico, cotidiano de formação humana e socialização

Comemoramos o aniversário de cinquenta anos da obra “Pedagogia do Oprimido” do educador Paulo Freire, a qual tem grande significado para a Educação e para a concretização da democracia não só no Brasil, mas em qualquer outra nação, pois trata do fenômeno educativo como um processo situado na sociedade e, portanto, como emancipação humana na História de Luta, fazendo do ato educativo um processo de leitura do mundo, da realidade e de si mesmo.

Paulo Freire é um educador da simplicidade e da profundidade, suas palavras nos guiam para um olhar concreto diante da realidade e para a atitude democrática coletiva que é inerente ao fenômeno da Educação. Esse olhar em sua obra é acompanhado de contexto social, político e cultural, o que possibilita a percepção e a construção da consciência de classe, conhecimento necessário para que possamos nos libertar coletivamente da injustiça social que assola o Brasil e os demais países em desenvolvimento na hegemonia capitalista atual. A Pedagogia do Oprimido é uma de suas obras mais importantes e, talvez, mais prática e direta no que concerne à ação transformadora da realidade através da práxis cultural, política e comunitária em Educação.

Uma das tendências das sociedades capitalistas é adulterar a Educação para que esta seja alienadora e preparadora para a submissão diante da exploração do trabalho e da competição do mercado. Isso gera disparidades econômicas, desigualdades sociais extremas, junto com injustas ambientais. Gera ainda escolas de qualidade para as classes dominantes e escolas precarizadas para as classes trabalhadoras e, assim, reproduz a mão de obra necessária para a perpetuação da exploração e das contradições do mundo do trabalho no contexto do capital: a relação patrão e empregado, explorador e explorado, opressor e oprimido, ou seja, a exploração do mais fraco pelo mais forte. Padrões desumanos que se modificam e se ajustam ao processo histórico para a sobrevivência do capital. Essa percepção mostra que estes padrões de relações são tão presentes em nossos dias como foram no passado, porém, assumem novas formas e roupagens frutos do complexo desenvolvimento das estruturas sociais ao longo da História.

Nesse contexto social e histórico, portanto, a Educação verdadeiramente humanista e emancipadora perpassa a Pedagogia do Oprimido, pois a libertação parte, na verdade, do explorado e não do explorador. O ato de “leitura do mundo” no processo educativo, leva à descoberta de si, pois é diante da totalidade que nos conhecemos, surgem problemas e curiosidades, as quais são fundamentais para manter acesa a chama do prazer de aprender, assim, as respostas encontradas levam a novas perguntas, este processo investigativo é o que leva ao aprendizado e à construção do conhecimento.

Conhecer, portanto, a realidade leva à investigação histórica, que leva à constatação da contradição da desumanização na História humana, ou seja, da “humanidade roubada” (FREIRE, 2014, p. 41), a qual não é uma fatalidade ou vocação histórica, mas uma deformação, “é distorção da vocação do ser mais” e, portanto, é passível de transformação e de libertação. Tal concepção de fazer educativo mostra que a desumanização não é um “destino dado, mas resultado de uma “ordem” injusta que gera violência dos opressores” contra os oprimidos, “e esta, o ser menos” (FREIRE, 2014, p. 41). Diante disso, o processo de libertação é necessariamente coletivo e, por isso, a Educação é parte fundamental da emancipação humana.

Paulo Freire diz que a luta libertadora é um ato de amor, pois se opõe “ao desamor contido na violência dos opressores, até mesmo quando esta se revista da falsa generosidade” (p. 43), ou seja, na violência simbólica e na expropriação cultural, quando a consciência do opressor se faz hospedeira nas consciências dos oprimidos. No entanto, a libertação e superação da opressão não se dá em termos puramente idealistas, mas pela luta e pela ação. É preciso saber contra o que estamos lutando, portanto, Freire cunha o conceito de “educação bancária”:

Essa concepção “bancária” implica […] aspectos que envolvem sua falsa visão dos homens. […] Sugere uma dicotomia inexistente homens-mundo. Homens simplesmente no mundo e não com o mundo e com os outros. Homens espectadores e não recriadores do mundo. Concebe a sua consciência como algo espacializado neles e não aos homens como “corpos conscientes”. A consciência como se fosse alguma secção “dentro” dos homens, mecanicistamente compartimentada, passivamente aberta ao mundo que irá “enchendo” de realidade. Uma consciência continente a receber permanentemente os depósitos que o mundo lhe faz, e que vão sendo transformados em seus conteúdos. Como se os homens fossem uma presa do mundo e este, um eterno caçador daqueles, que tivesse por distração “enchê-los” de pedaços seus (FREIRE, 2014, p. 87). 

A exploração acontece muito fortemente no campo do pensamento, do conhecimento, da Educação e até do entretenimento. Atualmente no Brasil vivemos uma espécie de síntese histórica onde é possível enxergar o resultado do papel manipulador da mídia alienadora das consciências, da imposição do pensamento, valores e interesses das classes dominantes sobre as massas humanas das camadas das classes trabalhadoras, que são a verdadeira força motriz que impulsiona a produção da riqueza do país. Essa ação manipuladora das grandes mídias das classes dominantes disputa espaços de influência no campo da Educação, na construção de políticas públicas e no direcionamento dos financiamentos, dessa forma, vem deformando processos educativos e implementando uma pedagogia alienadora, focada no medo, na obediência, na competição, etc., tais forças têm crescido aceleradamente e vêm se tornando hegemônicas mundialmente.

A concepção e a prática “bancárias”, imobilistas, “fixistas”, terminam por desconhecer os homens como seres históricos, enquanto a problematizadora parte exatamente do caráter histórico e da historicidade dos homens. Por isso mesmo é que os reconhece como seres que estão sendo, como seres inacabados, inconclusos em e com uma realidade, que sendo histórica também, é igualmente inacabada. Na verdade, diferentemente dos outros animais, que são apenas inacabados, mas não são históricos, os homens se sabem inacabados. Têm a consciência de sua inconclusão. Aí se encontram as raízes da educação mesma, como manifestação exclusivamente humana. Isto é, na inconclusão dos homens e na consciência que dela têm. Daí que seja a educação um quefazer permanente. Permanentemente, na razão da inconclusão dos homens e do devenir na realidade (FREIRE, 2014, p. 102).

Portanto, atualmente a “Pedagogia do Oprimido”, depois de 50 anos de sua publicação, continua atual e se faz necessária e fundamental, porque Educação é muito mais que garantir boas notas em testes, como pretende os interesses das classes dominantes. O fazer educativo é um processo vivo, orgânico, cotidiano de formação humana e socialização. Paulo Freire conseguiu nesta obra integrar a filosofia da práxis à elaboração de uma pedagogia libertadora, estética e sensível, pois que a democracia e a prática da liberdade coletiva no fazer educativo é, antes de tudo, uma atitude do corpo. Freire ao justificar a obra intenciona que as mãos das pessoas “[…] se estendam menos em gestos de súplica. Súplica de humildes a poderosos. E se vão fazendo, cada vez mais, mãos humanas que trabalhem e transformem o mundo” (p. 42).

A obra é uma ferramenta madura para a transformação da Educação opressora e bancária e para garantir a democracia como parte inerente da prática coletiva e educativa, seja ela, escolar, formal, não-formal, popular, cultural ou política. Todos esses atos coletivos devem ser permeados por processos educativos e não propagandísticos e publicitários. A diferença libertadora se dá na reflexão e ação sobre o mundo, a realidade, a História, sobre a superação opressor-oprimidos e não processos de marketing e manipulação como temos visto no processo eleitoral e comunicativo brasileiros. Isso mostra o quanto a nossa democracia é incipiente e o quanto a “Pedagogia do Oprimido” se faz necessária à Educação brasileira e dos países em desenvolvimento.

Referência

FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido, 57. ed. Rev. e atual. – Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2014.

Patrícia Martins Gonçalves é doutoranda em Educação no Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal do Rio de Janeiro, mestre em Educação pelo Programa de Pós-Graduação Processos Socioeducativos e Práticas Escolares da Universidade Federal de São João del- Rei – Minas Gerais. Trabalha há mais de 10 anos na área de Educação, com ênfase em artes, permacultura e educação ambiental, em projetos sociais e escolas.



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