A perseguição ao Islã e o neofacismo - Le Monde Diplomatique

EXTREMA DIREITA EUROPEIA

A perseguição ao Islã e o neofacismo

por Dominique Vidal
3 de janeiro de 2011
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Com lideranças assumidamente gays e aliados aos judeus, os agrupamentos de extrema direita na Europa crescem com um discurso de xenofobia e ataque aos imigrantes, principalmente os muçulmanosDominique Vidal

A extrema direita europeia não é mais a mesma. No lugar do culto machista aos “homens fortes”, a presidência da Frente Nacional (FN), o partido de extrema direita de Jean-Marie Le Pen, será ocupada outra vez por uma mulher. Sua filha, aliás. E se Bento XVI aproxima a Igreja dos integristas, formações políticas há muito apoiadas na moral cristã defendem os direitos dos homossexuais, com dirigentes explicitando publicamente que são gays. Já a tradicional complacência em relação ao antissemitismo deu lugar ao apoio ao atual governo de Israel, considerado a “vanguarda” do Ocidente.

Se a denúncia da “invasão muçulmana” parece ser um elo para todos esses atores, eles tendem a divergir sobre mundialização, Estado-nação, Europa, protecionismo, política de bem-estar social, serviços públicos, relações com os Estados Unidos etc. Frente a esse cenário, é possível falar de “uma nova extrema direita europeia”? A essa questão, os observadores mais perspicazes responderiam com outra: cada um desses termos não representaria uma armadilha?

Essas correntes políticas são “novas”? “Com exceção do Partido [holandês] pela Liberdade (PVV), de Geert Wilders, trata-se de antigas agrupações de extrema direita. A iniciativa daqueles que tentam se incorporar ao sistema tornando-se respeitáveis se choca com a própria tradição neofascista”, assegura Piero Ignazi, professor de Ciências Políticas da Universidade de Bolonha. A verdadeira originalidade reside na adequação desses partidos aos paradigmas de nossa época: o desaparecimento do inimigo comunista e sua substituição, desde o episódio de 11 de Setembro, pelo inimigo islâmico – ou, simplesmente, muçulmano.

O funcionamento dessas correntes remete ao filósofo alemão Oswald Spengler, que com seu livro O declínio do Ocidente, publicado entre 1918 e 1922, armou intelectualmente os aprendizes a ditadores contra a República de Weimar. A diferença é que a onda eleitoral que recentemente levou ao poder antigos herdeiros das forças ultraconservadoras se inscreve num espectro político europeu orientado à direita e sem forças alternativas questionadoras da hegemonia do capitalismo financeiro mundial.

 

Radicalismo

O termo “extrema direita” incomoda o cientista político Jean-Yves Camus, pesquisador associado do Instituto de Relações Internacionais e Estratégicas (Iris), que prefere qualificar essas agrupações como “radicais, xenófobas e populistas”. Esse último adjetivo não seria usado indiscriminadamente para definir qualquer tipo de política? Não, de acordo com Camus: “a menos que se defina ‘populismo’ como uma tendência a substituir a democracia representativa pela democracia direta, ou como o ‘bom senso popular’ triunfante sobre as elites naturalmente delinquentes”, completa. Eric Woerth, ao contrário, assegura que “chegará o dia em que os franceses nos agradecerão” pela reforma da previdência. Mas será que os 70% de franceses que dizem não à reforma são, todos, imbecis? “Elitismo e populismo são irmãos gêmeos”, conclui Camus.

Camus compara os dirigentes surgidos do nada a seres extraterrestres. Por exemplo, o holandês Wilhelmus Simon Petrus Fotuijn, ex-socialista, homossexual confesso e “islamofóbico” – que invocava a repressão de gays do Oriente Médio, assim como os direitos vilipendiados das mulheres –, assassinado no dia 6 de maio de 2002, 13 dias antes da eleiçãode sua legenda (17%). Ou o suíço Christoph Blocher e sua União Democrática do Centro (UDC), velho partido agrário que, radicalizado, atingiu 29% dos votos nas eleições de 2007. Ou ainda o estranho Partido dos Verdadeiros Finlandeses, mutação antiestablishment e anti-imigrante de uma antiga agrupação cujo dirigente, Timo Soini, agora faz parte do Parlamento Europeu.

Seria melhor usar o singular ou o plural para descrever a extrema direita do Velho Continente? Ignazai e Camus se referem, ambos, a um “movimento híbrido”, cujas características variam de um partido a outro, segundo as especificidades de cada Estado, suas tradições e seu cenário político. Qualificá-lo como “europeu”, portanto, seria paradoxal, já que o nacionalismo de esquerda sempre foi alérgico à ideia de Robert Schuman e Jean Monnet de construção de um bloco único, forjada há mais de 60 anos.

A partir dessa grade de leitura, pode-se forjar de maneira pragmática uma tipologia europeia com três grandes eixos. O primeiro é formado por grupos neofascistas marginais, que insistem na nostalgia dos trajes pretos ou marrons das divisões da SS, nas quais seus antepassados combatiam o “bolchevismo judaico”. Os mais emblemáticos, propensos à “extinção biológica”, são os Republikaner alemães, a Falange Espanhola, o Movimento Social Italiano Bandeira Tricolor (MSIFT) e o Alarme Popular Ortodoxo, da Grécia. O segundo eixo é formado por partidos antissistema, que desde os anos de 1990 se esforçam para romper o “cordão sanitário” que os isola da direita dita republicana e conquista visibilidade. Por último, nesse espaço desertado pelos “respeitáveis” – a política, assim como a natureza, tem horror a espaços vazios –, figuram os “ETs” evocados anteriormente.

Se a influência das agrupações políticas que formam o primeiro eixo permanece limitada (varia de 0,1% a 7%), os partidos dos outros dois eixos, juntos, totalizaram mais de 10% dos votos em 11 Estados europeus nas eleições do Parlamento Europeu de 2009 e em outros pleitos recentes. Na Áustria, representam 12,7%; Bélgica, 10,9%; Bulgária, 12%; Dinamarca, 14,8%; França, 10%; Hungria, 16,7%; Itália, 10,2%; Lituânia, 12,2%; Noruega, 22,9%; Países Baixos, 17%; e Suíça, 29%.

Para Ignazi, “o critério principal é identificar se o partido tem a pretensão de manter-se fora do sistema – com a esperança de revertê-lo – ou se busca conquistar posições e integrar-se, com o objetivo de mudar o sistema a partir de seu interior. Isto é, se a direita moderada não os isolar”. O professor lembra que os partidos franceses Agrupação pela República (Rassemblement pour la République – RPR) e União pela Democracia Francesa (UDF) terminaram por renunciar à aliança com a Frente Nacional, o que causou certo mal-estar. Ignazi avalia que “a ‘radicalização’ quase sempre é uma resposta a esse isolamento, enquanto aqueles que colocam água no vinho o fazem porque sabem que assim a direita os aceitará”.

Cerca de 770 quilômetros ao Norte, Jorg Haider pensou ser possível empreender o mesmo desafio de seu homólogo italiano, mas sem ceder nenhum aspecto de sua identidade partidária. Líder do Partido Austríaco da Liberdade (FPÖ) desde 1986, endureceu frente ao governo de Viena ao acusá-lo de ser menos eficaz com a criação de empregos que o III Reich! Com 27% em 1999, seu partido alcançou os socialistas e ultrapassou os conservadores – cujo líder, Wolfgang Schlüssel, ofereceu ministérios a alguns membros do FPÖ. Haider se concentrou em seu bastião, a Caríntia. Em 2005, fundou a ultraneofascista Aliança pelo Futuro da Áustria (BZÖ), partindo a extrema direita em duas – uma parte, correspondente a um terço dos partidos e voltada para si mesma; e a maior, com dois grandes blocos aliados ao sistema. Tudo isso antes de encontrar a morte em 2008, ao dirigir seu BMW alcoolizado após sair de uma boate gay.

Na disputa pela sucessão à presidência da Frente Nacional, ocupada por seu pai, Marine Le Pen gostaria de, como Haider, realizar a façanha de Fini (Aliança Nacional Italiana), porém permanecer fiel a seus valores – supondo que seja possível “desdemonizar” a Frente Nacional sem transformar radicalmente o velho partido desde sua raiz até o nome. Mas como resistir, dentro do partido, ao clamor dos nostálgicos de Vichy e do extinto império colonial? Cabe ao rival de Marine Le Pen apontar as contradições da favorita: para Bruno Gollnisch, a polêmica artificial em torno da “ocupação” muçulmana “demonstra os limites da estratégia chamada ‘desdiabolização’. O sistema político-midiático nunca se mostrará satisfeito, não importa as provas apresentadas. Sempre vai exigir mais (…), que baixemos a cabeça, que nos inclinemos em reverência, até nos colocar de joelhos.”

 

Holocausto

Da experiência austríaca, Marine Le Pen tirou uma lição: longe de exaltar a Waffen-SS como “uma parte do exército alemão que deve ser honrada”, a candidata pretende virar de uma vez a página da Segunda Guerra Mundial e acabar com as provocações caras a seu pai, como, por exemplo, a de qualificar as câmaras de gás de “detalhe da História”.

Ainda mais relevante é sua atitude de não hesitar em falar de aspectos sociais com os trabalhadores, o que fez com que a Frente Nacional recuperasse muitos eleitores pouco a pouco decepcionados com a esquerda e com o sarkozismo. Ela dá corpo e consistência, assim, à atitude de Jean-Marie Le Pen, que, em 1° de maio de 2010, ignorou sua aproximação de outrora com o ultraliberalismo e sua posição laudatória em relação a Ronald Regan, e de repente defendeu o poder de compra, a proteção social e a aposentadoria – a fim de “relançar o consumo e encontrar novamente o caminho do crescimento”, o único processo que “proporciona empregos para todos e todas”. Além disso, nesse mesmo discurso, exigiu a defesa das fronteiras econômicas, uma reforma fiscal justa, o apoio à agricultura e às pequenas e médias empresas. A conclusão de Le Pen pai, formulada como programa para a gestão de sua filha: “Há dez anos, a distribuição de renda evolui segundo os interesses do capital financeiro. […] Somam-se a esse fator, a diminuição dos recursos e o aumento das taxas ligadas à saúde e o questionamento do sistema de aposentadoria, medidas de viés ultraliberal e em contradição profunda com as aspirações e tradições de nosso país”.

A vantagem dos partidos irresponsáveis, insiste Piero Ignazi, reside na promessa dupla de “gratuidade de serviços e isenção de impostos”. A condição para isso é que “Estado-social rime com preferência nacional” – tanto na Europa do Sul e do Leste, acossada pela miséria, como na Europa do Norte, ainda abastada –, e que alguma confusão geral camufle os verdadeiros desafios. Outro exemplo: a extrema direita pretendia se apoiar nos Estados para resistir ao capital transnacional, mas finalmente a Liga do Norte e o Vlaams Belang exaltaram, respectivamente, a secessão da Padânia (denominação genérica dada às regiões cortadas pelo rio Pó, na Itália) e da região de Flandres (norte da Bélgica). O culto à identidade regional substituirá o culto à identidade nacional?

Um denominador comum (com exceção do caso francês) é o apoio ao Estado de Israel. No início de dezembro passado, cerca de 30 dirigentes de extrema direita – como o holandês Geert Wilders, o belga Filip De Winter e o sucessor de Jorg Haider, o austríaco Heinz-Christian Strache – desembarcaram para uma estadia em Israel com anfitriões do alto escalão. Semelhante atrai semelhante: o vice-primeiro-ministro e ministro de Negócios Estrangeiros (Relações Internacionais), Avigdor Lieberman – que decidiu livrar dos Palestinos o Estado que ele afirma ser judeu –, conversou calorosamente com o holandês Gert Wilders, que, por sua vez, sonha em proibir o Corão.

A Aliança Livre Europeia (EFA), da qual essa delegação se diz parte, constitui o braço europeu da associação estadunidense epônima. Quadragésima segunda fortuna da cidade de Los Angeles (com cerca de US$ 750 milhões), o mecenas Aubrey Chernik promove, com a “Declaração de Jerusalém”, uma aliança de democracias contra a “nova ameaça global de caráter totalitário: o islamismo”.

De volta à Europa, muitos participaram, em Paris, das Audiências sobre a Islamização, organizadas pelos grupos Resposta Laica e Bloco Identitário. Esses dois grupos são os inventores de movimentos considerados racistas e contam com o apoio do site ultrassionista e ultra-atlanticista drzz.fr. Não se trata da eterna revanche de guerras coloniais, mas do suporte àqueles que combatem a “islamização do Ocidente” na linha de frente.

O argumento poderia ser considerado grotesco: como 25 milhões de muçulmanos imporiam suas crenças a 500 milhões de cidadãos da União Europeia? Isso seria subestimar a eficácia de uma manipulação simbólica não igualitária, enquanto o fantasma do “choque de civilizações” se desenrola diante dos nossos olhos. Ou seja, enquanto os islamitas surfam em ondas de humilhações e frustrações em relação ao mundo árabe muçulmano, os neoconservadores instrumentalizam a “islamofobia” ao condenar o antissemitismo – que se por um lado muitas vezes é verdadeiramente violento, por outro é ideologicamente marginalizado.

No dia 10 de dezembro passado, em Lyon, Marine Le Pen se “esqueceu” da falta de mesquitas em muitas cidades e qualificou as rezas dos muçulmanos nas ruas como “uma ocupação do espaço” sem “tanques”, nem “soldados”. Coincidência? E se esse novo coquetel apimentado – filo-israelismo em última instância antissemita, raiva de imigrantes transformada em ódio ao islã – fosse a prova mais contundente da nova ofensiva dessa nebulosa situada à direita da direita?

Sem dúvida, o pós 1939-1945 possui apenas alguns pontos em comum com o pós 1914-1918. O perigo, embora se apresente de forma distinta, não é menos inquietante: não se trata da chegada repentina dos herdeiros do fascismo ao poder, mas da conquista progressiva de sua hegemonia em nossas sociedades civis. Como se fosse Antonio Gramsci ao contrário. Em seus Cadernos do Cárcere, o teórico marxista sardo escreveu que o Estado se protege por um “sistema de casamatas (aparelhos de Estado de controle, cultura, informação, escola, formas da tradição) que excluem a possibilidade de uma estratégia de assalto ao poder, já que cada uma dessas casamatas deve ser conquistada de uma vez. É por isso que uma guerra de posições é necessária, ou seja, uma estratégia dirigida à conquista de diferentes e sucessivos níveis da sociedade civil”.

Dominique Vidal é especialista em Oriente Médio e membro sênior da equipe editorial de Le Monde Diplomatique (França).



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