A pior escolha - Le Monde Diplomatique

MALI

A pior escolha

por Serge Halimi
1 de fevereiro de 2013
compartilhar
visualização

Amanhã, o próprio Mali corre o risco de equipar com armas recuperadas e soldados perdidos os próximos fronts americanosSerge Halimi

Quando já é tarde demais porque viramos as costas às melhores opções, escolhemos entre o mau e o pior. Nove dias após os atentados de 11 de setembro de 2001, o presidente George W. Bush já ameaçava: “Ou você está conosco, ou está com os terroristas”. Duas guerras se seguiram: a do Afeganistão e, depois, a do Iraque – com os resultados que conhecemos. No Mali, seria preciso, outra vez e com urgência, escolher entre duas alternativas execráveis. Como se resignar diante do fato de bandos armados defensores de ideologias e práticas obscurantistas ameaçarem as populações do sul depois de aterrorizar as do norte? Por outro lado, como ignorar que a mobilização de tropas humanitárias e a tendência a criminalizar os inimigos políticos (os talibãs afegãos foram associados ao tráfico de ópio; as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia [Farc], à venda de cocaína e/ou a sequestros) servem de pretexto para justificar operações militares ocidentais suspeitas de neocolonialismo – e que sempre acabam mal?

Vinte meses após o assassinato de Osama bin Laden, o corpo da Al-Qaeda ainda se mexe. Os talibãs, de seu lado, estão mais comportados do que nunca. Ainda assim, o ex-primeiro-ministro francês, Dominique de Villepin, comentou: “Os abscessos de fixação do terrorismo – Afeganistão, Iraque, Líbia, Mali – tendem a se expandir e a estabelecer laços entre si, federam suas forças, conjugam ações”.1 Cada intervenção ocidental parece, assim, fazer o jogo dos grupos jihadistas mais radicais, que atraem os adversários para conflitos sem fim e os esgotam. Os arsenais líbios alimentaram a guerra no Mali; amanhã, o próprio Mali corre o risco de equipar com armas recuperadas e soldados perdidos os próximos fronts africanos.

Para justificar o envolvimento militar do país no conflito, François Hollande anunciou que “a França sempre estará presente quando os direitos de uma população estiverem ameaçados, como é o caso do Mali, que deseja viver livre e em uma democracia”. Uma declaração tão disparatada sugere que não se trata tanto de “reconquistar” o Mali, e sim de assegurar a ordem durável levando em conta as reivindicações legítimas dos tuaregues.

Para isso, basta começar. Mas, em seguida, será necessário se preocupar com alianças militares estabelecidas sem qualquer transparência e com a dissolução das fronteiras africanas. Será necessário reconhecer que essas fronteiras foram (e permanecem) delineadas por prescrições neoliberais que arruinaram a legitimidade dos Estados, empobreceram os agricultores e os soldados, e incentivaram a superexploração das riquezas minerais do continente negro pelas sociedades ocidentais (ou chinesas). Também será preciso admitir que o tráfico transnacional de drogas, armas e sequestros existe somente porque conta com parceiros e consumidores não africanos; e será necessário concordar que a queda mundial da cotação do algodão arruinou os camponeses malineses e que a seca do Sahel se acentua com o aquecimento global.

Muito parcial, esse inventário de assuntos que não interessam a ninguém neste momento sugere que a “libertação” do Mali por meio de armas estrangeiras deixaria intactas as causas do próximo conflito – que, quando acontecer, nos submeterá outra vez a uma “escolha” que será justificada pela falta de escolha.

*Serge Halimi é diretor do Le Monde Diplomatique.



Artigos Relacionados

RESENHAS

Miscelânea

Edição 180 | Brasil
ENTREVISTA – EMBAIXADORA THEREZA QUINTELLA

Balança geopolítica mundial deve pender para o lado asiático

Edição 180 | EUA
por Roberto Amaral e Pedro Amaral
UMA NOVA LEI EUROPEIA SOBRE OS SERVIÇOS DIGITAIS

Para automatizar a censura, clique aqui

Edição 180 | Europa
por Clément Perarnaud

Para automatizar a censura, clique aqui

Online | Europa
EMPREENDIMENTOS DE DESPOLUIÇÃO

Música e greenwashing

Edição 180 | Mundo
por Éric Delhaye
NA FRANÇA, A NOVA UNIÃO POPULAR ECOLÓGICA E SOCIAL

Os bárbaros estão em nossas portas!

Online | França
por Pauline Perrenot e Mathias Reymond
“NO TOPO, O PODER CORROMPIDO; NA BASE, A LUTA INTRÉPIDA”

A revolta popular no Sri Lanka

Edição 180 | Sri Lanka
por Éric Paul Meyer
COMO ESCOAR O TRIGO DA UCR NIA

No front dos cereais

Edição 180 | Ucrânia
por Élisa Perrigueur