A propósito dos protestos na Rússia
O que parece estar em marcha na Rússia de hoje com os protestos é a possibilidade de uma renovação no interior da gestão oligarca do Estado
Quando Vladimir Putin chegou ao poder na Rússia nos anos 2000 – após a turbulenta década de 1990 -, foi se consolidando em torno de seu governo uma espécie de tríplice aliança entre o Estado russo, os oligarcas e a igreja ortodoxa russa. Aliança que se prolonga por mais de 20 anos.
Este tipo de “matrimônio” com seus próprios traços políticos, econômicos e culturais, se comparado a era Boris Yeltsin e visto a partir de uma retrospectiva histórica: fortaleceu o governo de Putin ao ponto de o estadista russo ser apresentado como um “gigante”.
No entanto, com o passar dos anos esse “gigantismo” vem expondo sinais de desgaste. O aumento da desigualdade, a falta de mobilidade social, o congelamento político e o empobrecimento incomodam muitos russos. Putin está desgastado, e isso já era de se esperar. Em nenhum lugar do planeta, nem mesmo um ex-agente da extinta KGB, pode manter-se no poder por 20 anos sem desgastar-se.

Num país pobre como a Rússia, o opositor do atual presidente russo, Alexey Navalny concentra-se em criticar a fartura dos ricos. O que dialoga com as massas. Apesar disso, curiosamente Navalny, assim como Putin, não critica a riqueza. Muito menos golpeia o sistema que gera desigualdade e pobreza. Da mesma maneira que fora Putin em outrora, Navalny hoje parece ser jovem e adequado para vestir a velha roupa do novo herói russo.
O que queremos dizer é que apesar de a bandeira dos protestos do último dia 23 de janeiro estar “firmemente erguida” sobre pontos centrais – Liberdade e a Luta Contra a Corrupção. Não obstante, o que parece estar em marcha na Rússia de hoje com os protestos é a possibilidade de uma renovação no interior da gestão oligarca do Estado.
Essencialmente, no xadrez político do atual conflito russo as peças se movem pela disputa entre os “velhos” e “novos” oligarcas. Estes últimos, aliás, diríamos até patrocinados por forças ocidentais.
À sombra disso, alguns politólogos russos especulam que todas as polêmicas dos últimos seis meses no interior da política russa, envolvendo os conflitos entre Navalny e o Kremlin, giram em torno do projeto do gasoduto germano-russo Nord Stream 2.
Na chave dos russos, muitos opositores de Moscou alegam que o Nord Stream 2 vai aumentar a dependência dos europeus ao gás russo e, consequentemente, fortalecerá a influência política do Kremlin por ser um projeto controlado pela gigante Gazprom. Atualmente a Europa enfrenta a difícil decisão de suspender ou manter o projeto submarino de fornecimento de gás russo.
Aparentemente, o fato é que nos últimos meses, Alexey Navalny, após ter sido supostamente envenenado e ter passado quase cinco meses na Alemanha, conseguiu golpear Putin como nunca o fizera antes.
Mesmo após ter sido preso ao retornar da Alemanha para Moscou no dia 17 de janeiro, o opositor russo publicou em sua conta do Youtube um vídeo com mais de duas horas de duração intitulado “O Palácio de Putin”. Vídeo que teve mais de 60 milhões de visualizações em três dias. E que apresenta um suposto esquema de corrupção milionário, o qual coloca no centro do enredo o atual presidente russo.
O vídeo serviu como gasolina para os protestos do último dia 23 de janeiro potencializando a participação massiva dos manifestantes. Tendo em vista que estas foram as maiores manifestações na Rússia desde os últimos protestos de 2017.
Em que pese sua extensão, os protestos atravessaram todo o país, do extremo oriente em Vladivostok até o encrave europeu a oeste, na cidade de Kaliningrado. As manifestações ocorreram em 93 cidades sobre o grito de ordem: Liberdade! E teve como bandeira central a exigência da libertação de Alexey Navalny.
Em Moscou e São Petersburgo o potencial das manifestações foi quantitativamente assustador. Conforme as últimas atualizações há um saldo de 3.324 detidos em toda a Rússia, dos quais 1.320 em Moscou e 490 em São Petersburgo.
No tabuleiro das ruas, as forças atuantes nos protestos foram constituídas em sua grande maioria por jovens, a base social anti-Putin.
Por outro lado, há a violência organizada do Estado vestida de OMON – nome genérico para o sistema de Unidades Especiais da Guarda Nacional da Rússia. E os gigantescos aparelhos ideológicos do Estado que fermentam permanentemente na opinião pública russa uma verdade estatal, nacionalista e ortodoxa.
O Kremlin não perdeu tempo e revisou rapidamente as lições das manifestações na vizinha Bielorrússia. E no calor das manifestações do último sábado, prendeu a esposa de Navalny – Yulia Navalnaya -, para assegurar-se que mais ao leste não existirá nenhuma “Svetlana Tikhanovskaya russa” nas próximas eleições.
No entanto, pelo andar da carruagem, a batalha ainda não terminou. Os apoiadores de Navalny prometem lotar as ruas da Rússia no próximo sábado, dia 30 de janeiro.
Virgínio Gouveia é doutorando em Filosofia Política pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) com estadia em andamento no Instituto de Filosofia de Moscou/ Rússia – Academia de Ciências da Rússia (Rossiyskaya Akademiya Nauk, Ran).

