A revolta das sul-coreanas - Le Monde Diplomatique

UMA NOVA GERAÇÃO DE FEMINISTAS

A revolta das sul-coreanas

Edição 160 | Coréia do Sul
por Frédéric Ojardias
30 de outubro de 2020
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Por trás da fachada moderna e do impulso das novas tecnologias, a Coreia do Sul permanece uma sociedade muito machista, onde as mulheres devem ser devotas à sua família. Entretanto, em outubro, o governo apresentou um projeto de lei que autoriza o aborto, uma proposta que as feministas julgam muito tímida, enquanto as jovens militantes preparam a revolta

Em 11 de abril de 2019, os juízes da Corte Constitucional da Coreia do Sul proferiram um veredicto histórico: por sete votos a dois, decidiram que a criminalização do aborto, em vigor havia décadas, era ilegal. As sul-coreanas não precisam mais se esconder; uma grande vitória para as associações feministas. “O resultado de anos de luta”, exclamou uma militante, com a voz alterada pela emoção, após o anúncio do julgamento.

Outros avanços significativos foram obtidos com esforço nos últimos anos. O movimento #metoo, que chegou tarde ao país, teve um impacto considerável. No começo de 2018, a procuradora Seo Ji-hyun acusou publicamente seu superior de tê-la tocado de maneira indevida e contou como sua carreira foi destruída após ter ousado protestar. Outras seguiram seu exemplo, quebrando a lei do silêncio. Dirigentes políticos, cineastas, artistas, universitários: diversos casos de impacto surgiram, assinalando a todos que as agressões sexuais, outrora abafadas, não o seriam mais.

Após tais revelações, muitas mulheres que ainda hesitavam se juntaram ao movimento, dando-lhe cara e voz. No verão de 2018, as mais importantes manifestações feministas da história do país ocorreram em Seul. Aos gritos de “Minha vida não é seu filme pornô”, dezenas de milhares de mulheres denunciaram a inércia das autoridades em relação à proliferação de câmeras-espiãs, batizadas de molka, instaladas em locais públicos (banheiros, saunas) para filmá-las sem que percebessem. Esses vídeos, bem como sex tapes roubadas, eram difundidos e vendidos na internet, arruinando a vida das vítimas. A polícia e a justiça foram acusadas de demonstrar laxismo e clemência culposa. Essas manifestações de cólera levaram, em agosto de 2019 e em seguida em maio de 2020, a um reforço da lei que pune os crimes sexuais on-line.

“As manifestações de 2018 foram as primeiras reuniões feministas das quais ousei participar”, conta Seo Ji-eun, de 22 anos, jornalista. Pois, na Coreia do Sul, até a palavra é um tabu: dizer-se “feminista” é provocar a ira de sua família, de seus colegas homens, dos internautas… “Na época, eu me escondia, tinha medo de que me identificassem como militante e me transformassem em alvo. Mas as coisas mudaram.” Prova disso é o sucesso de Kim Ji-young, nascida em 1982,1 romance de Cho Nam-joo, com mais de 1 milhão de exemplares vendidos. Sua heroína, jovem casada, vê-se destruída pelas expectativas de uma sociedade ultrapatriarcal, bem como pelas humilhações cotidianas e insidiosas impostas às mulheres.

Desse modo, pouco a pouco, alguns tabus caem. “Quando criamos nossa organização, em 1991, nem sequer podíamos pronunciar as palavras ‘violência sexual’”, recorda-se Park A-reum, representante do Centro de Ajuda contra as Violências Sexuais. “Agora, as vítimas têm coragem de falar. É uma grande mudança.” O assassinato, em maio de 2016, perto da estação de metrô Gangnam, em Seul, de uma transeunte de 23 anos por um desconhecido de 34 anos que confessou ter desejado matar uma mulher ao acaso desencadeou uma onda de militância. Como explica Lee Min-kyung, autora feminista: “Essa vítima poderia ter sido eu. Após esse crime, o movimento feminista explodiu”.

(Giorgia Massetani)
Mães solteiras, essas “depravadas”

Quatro anos depois, em abril de 2020, o primeiro partido feminista sul-coreano se apresentou às eleições legislativas. Não obteve nenhum assento, mas sua existência por si só constitui uma pequena revolução. A Assembleia Nacional tem hoje 19% de deputadas – um recorde… para a Coreia do Sul. A democracia taiwanesa vizinha conta com 41,6% de mulheres no Parlamento.

Sob sua aparência moderna e ultraconectada, a sociedade continua na verdade muito impregnada da ideologia neoconfuciana, que serviu de coluna vertebral à dinastia Joseon (1392-1910) e promove valores ferozmente patriarcais e conservadores: ao longo da vida, a mulher deve ser submissa a seu pai, a seu marido e em seguida a seu filho mais velho. Sem dúvida, a Coreia do Sul é uma democracia vigorosa que, em 2017, soube destituir sua presidenta, Park Geun-hye – primeira mulher eleita para esse posto –, após meses de manifestações maciças e pacíficas.2 Mas continua impressionantemente atrasada na questão da igualdade entre os sexos. E as sul-coreanas continuam batendo a cabeça em um teto de vidro muito baixo.

As pressões sociais e familiares para que elas peçam demissão após o primeiro filho continuam esmagadoras. A figura tradicional permanece aquela da hyobu, a nora modelo que cozinha, cuida da casa e se dedica aos filhos, ao marido e aos sogros – um destino que quase não está mais nos sonhos das jovens sul-coreanas, modernas, muito estudadas e abertas ao mundo.

As mães solteiras sofrem muito com os efeitos desse patriarcado tenaz. Os nascimentos fora do casamento são raros (1,9% do total em 2018, contra 59,1% na França)3 e reprovados com violência. As solteiras grávidas sofrem enormes pressões para abortar ou para abandonar seu bebê no nascimento. “Até meus pais me aconselharam a abandonar meu filho”, testemunha Kim Do-kyung, presidente da Associação Coreana de Famílias de Mães Não Casadas (Korean Unwed Mothers Families Association, Kumfa). “Somos vistas como depravadas. Muitas perdem o emprego: ficar com seu bebê significa tornar-se mais precária. Na escola, os pais pedem a seus filhos que não brinquem com o meu. Murmuram pelas minhas costas. Não sou convidada para reuniões de pais de alunos. Na certidão de nascimento do meu filho, está indicado ‘nascido fora do casamento’. Ele foi etiquetado desde o primeiro dia.”

Jovem mãe de uma filha de 14 anos e membro da associação, Jeong Su-jin acrescenta: “Quando meu patrão soube que eu estava grávida e solteira, me mandou embora. Ele me disse: ‘Eu não quero alguém como você aqui’. Até meus colegas me apontaram o dedo.” A Kumfa provê uma assistência financeira e psicológica para essas mães, mas não recebe nenhuma subvenção. Muitas solteiras são excluídas de fato de certos programas municipais de natalidade. Frequentemente rejeitadas por sua própria família, foram por muito tempo presa de agências de adoção internacional pouco escrupulosas que as acolhiam antes do parto e se aproveitavam de sua angústia para forçá-las a abandonar seu bebê. Esse patriarcado profundamente enraizado explica por que a Coreia do Sul, embora rica e industrializada, continuou fornecendo milhares de crianças para adoção no exterior. 

Isso também tem um peso enorme no mundo do trabalho. As sul-coreanas, apesar de serem as mulheres mais numerosas em termos de formação universitária de todos os países da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), ocupam os empregos mais precários e menos bem pagos. “A discriminação começa desde a entrevista de contratação”, explica Bae Jin-kyung, diretora da Associação das Trabalhadoras da Coreia (Korea Women Workers Association). “É comum que os recrutadores perguntem a uma candidata se ela tem namorado, sobre os planos de casamento ou de filhos. Uma vez no posto, serão confiadas a ela responsabilidades menores.” Ela também será excluída dos huesik, os jantares de empresas bem alcoólicos (que terminam às vezes no bordel) que servem para negociar contratos, bem como para reforçar os laços no seio de uma equipe ou para facilitar as promoções. Para muitos empregadores, o mais simples é evitar recrutar mulheres, suscetíveis de deixar a empresa a partir do primeiro filho. Em 2018, três dos maiores bancos da Coreia do Sul, Hana Bank, Shinhan Bank e Kookmin Bank, foram condenados por ter falsificado seus processos de recrutamento: tinham baixado as notas das candidatas a fim de privilegiar o recrutamento de homens. 

As contratadas de certas profissões muito feminizadas, como as enfermeiras, enfrentam sempre pressões de seus superiores hierárquicos para que só engravidem uma de cada vez. “Em outros setores, as pessoas se contentam em demitir aquelas que engravidam. As leis sobre igualdade dos sexos no trabalho existem, mas são ignoradas”, denuncia Bae Jin-kyung. Segundo ela, a crise financeira asiática de 1997, ao ter provocado uma grande precarização do mercado de trabalho – sob a égide do FMI, que veio “em socorro” –, tornou tacitamente aceitável o desrespeito ao código trabalhista. Quanto ao salário médio das mulheres, chega apenas a 68,5% da remuneração dos homens4 – a discrepância mais elevada entre as economias ditas “desenvolvidas”. Apenas 52% das mulheres em idade de trabalhar ocupam um emprego, contra 72,3% dos homens, e a crise ligada à Covid-19 atingiu mais duramente as assalariadas.5 Os 15 mil altos postos das quinhentas maiores empresas do país contam em suas fileiras com apenas 3,6% de mulheres.

As sul-coreanas possuem, no entanto, mais formação universitária que seus homólogos masculinos: enquanto, há duas gerações, apenas seus irmãos eram enviados à universidade, hoje 75,7% das mulheres de 25 a 34 anos possuem diploma universitário, contra 64,1% dos homens.6 Obrigadas a escolher entre carreira e filhos, rejeitando as expectativas arcaicas de uma sociedade de evolução bastante lenta, muitas preferem manter sua independência e renunciam ao casamento. Apenas 22% das mulheres consideram o casamento indispensável; elas eram 47% há dez anos.7 Como as sul-coreanas se casam cada vez menos e cada vez mais tarde, os nascimentos diminuíram. Em 2019, a taxa de fecundidade caiu para 0,92 filho por mulher: um recorde.8 Os programas de recuperação da natalidade, realizados desde 2005 tanto pelos governos de direita como pelos de centro-esquerda, custaram uma fortuna – 123 bilhões de euros no total – e se revelaram de uma ineficácia espetacular. Teriam errado de alvo? “Não é por acaso que a região que exibe a taxa de natalidade mais forte é a de Sejong”, observa Bae Jin-kyung. Na nova capital administrativa, situada ao sul de Seul, a maior parte dos residentes são funcionários públicos; a igualdade dos sexos no trabalho, portanto, é maior ali, e a segurança do emprego é mais forte.

 

Misoginia dos jovens homens

Já Lee Min-kyung lamenta que o governo “persista em analisar a queda da natalidade apenas do ponto de vista econômico, já que ela é devida a uma guerra dos sexos”. Na verdade, as recentes vitórias das mulheres provocaram uma radicalização do discurso misógino, em particular entre as novas gerações. “Muitos homens odeiam as feministas. Eles nos insultam”, conta Seo Ji-eun. Os de 20 a 30 anos se mostram até mais virulentos que os de 30 a 40 anos; 76% desses jovens declaram abertamente sua oposição ao feminismo.9

Em setembro de 2019, a adaptação para o cinema de Kim Ji-young, nascida em 1982 causou uma corrente de ódio e de insultos on-line, expondo a nova onda de cisão que percorre a sociedade. Os homens que se dizem vítimas de discriminações se agrupam no seio de associações masculinistas e usam seu longo serviço militar obrigatório para justificar seus privilégios tradicionais. A controvérsia tem consequências políticas: o presidente de centro-esquerda, Moon Jae-in, com ideias vistas como próximas às das feministas, viu sua taxa de apoio cair entre os jovens eleitores.

O conflito se agravou com o aumento do desemprego dos jovens e a estagnação da economia. Muitos homens jovens não têm os meios de se conformar às normas sociais rígidas: para se casarem, precisam ganhar o suficiente para comprar uma moradia e pagar pela escolaridade de seus futuros filhos. Sentem-se espoliados. Frustrados diante da nova concorrência das mulheres no mundo do trabalho, muitos se recusam a ver que as expectativas delas mudaram. “A nova geração de garotos não é nada diferente! Eles cresceram observando seus pais”, ironiza uma estudante de Seul. Para as sul-coreanas, o combate ainda corre o risco de ser longo.

 

*Frédéric Ojardias é jornalista (Seul) e autor do ensaio Les Sud-Coréens (As sul-coreanas), Ateliers Henry Dougier, Paris, 2017.

 

1 Cho Nam-joo, Kim Ji-young, née en 1982 [Kim Ji-young, nascida em 1982], NiL Éditions, Paris, 2020 (1. ed.: 2016).

2 Ler Sung Il-kwon, “‘Révolution des bougies’ à Séoul” [“Revolução das velas” em Seul], Le Monde Diplomatique, jan. 2017.

3 “Population trend investigations” [Investigações de tendências de população], Kosistat (em coreano), maio 2020; e, sobre a França, “Naissances hors mariage” [Nascimentos fora do casamento], Instituto Nacional de Estudos Demográficos, Paris, mar. 2020.

4 Ministério do Emprego e do Trabalho, Seul, 2019. Disponível em: www.wage.go.kr.

5 Ock Hyun-ju, “At workplaces and home, female workers hit harder by Covid-19 outbreak” [Nos locais de trabalho e em casa, mulheres trabalhadoras mais atingidas pela pandemia de Covid-19], The Korea Herald, Seul, 18 maio 2020.

6 “Diplômés de l’enseignement supérieur” [Formados no ensino superior], Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE). Disponível em: www.oecd-ilibrary.org.

7 “Till death do I stay single: South Korea’s #NoMarriage women” [Solteira até a morte: as mulheres #SemCasamento da Coreia do Sul], AFP, 6 dez. 2019.

8 “S. Korea’s total fertility rate hits new low in 2019” [A taxa total de fertilidade da Coreia do Sul atinge novo ponto mais baixo em 2019], Yonhap News Agency, Seul, 26 fev. 2020.

9 Jake Kwon, “South Korea’s young men are fighting against feminism” [Homens jovens da Coreia do Sul estão lutando contra o feminismo], CNN, 24 set. 2019.



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