A santíssima trindade: nação, Deus e os inimigos disso daí - Le Monde Diplomatique

MEU PARTIDO É O BRASIL

A santíssima trindade: nação, Deus e os inimigos disso daí

por Gilberto Maringoni
31 de janeiro de 2019
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Bolsonaro não inova ao invocar nação e Deus, colocando ambos na arena política junto de seu nome. Sabe que com isso os conceitos totalizantes tornam-se ao mesmo tempo excludentes. Quem ataca Bolsonaro é inimigo “da pátria”, logo de Deus

Jair Bolsonaro pavimentou a vitória ao vincular sua candidatura ao que seriam os interesses maiores da nação. Sem propostas claras de governo, bancou uma ousada disputa ideológica. Tocou fundo em aspectos afetivos, históricos e identitários da população. Aliás, não apenas ele, mas a extrema direita brasileira agiu com competência ao valer-se de uma estética nacionalista para tirar proveito da insatisfação social presente nas manifestações de junho de 2013. Diante das bandeiras vermelhas da esquerda, tivemos a ressurreição do slogan pré-1964, “Verde e amarelo sem foice nem martelo”. Nas passeatas que precederam o golpe seguinte, em 2016, houve farto uso do auriverde pendão e de camisetas da CBF.

Não é algo superficial. Quem disputa símbolos nacionais trava um enfrentamento de envergadura. Há três anos, a apropriação dessas marcas por parte do conservadorismo mais truculento visava escancarar a ideia de que o Brasil inteiro estaria contra o governo Dilma Rousseff. Não seria uma facção contra outra, mas a sociedade inteira fazendo carga a um grupo isolado no poder de Estado.

Ideia redonda

Setores extremistas, como o Movimento Brasil Livre (MBL), o Vem Pra Rua, o Endireita Brasil e outros alinhados a Bolsonaro, são partidários de uma totalização, de uma ideia redonda e indivisível acima de todos os interesses particulares. É uma concepção abrangente e ao mesmo tempo sedutora. Ela mascara diversidades e desigualdades sociais e a própria luta de classes, e se manifesta no discurso do povo ordeiro e pacífico que teria sido dividido pela esquerda.

A nação, ao contrário, uniria a todos e seria a grande mãe a acolher seus filhos, à exceção dos que a renegam. Daí o brado patrioteiro-religioso “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”.

A frase reúne duas ideias ou crenças inatacáveis: Brasil (nação) e Deus. Em seu discurso de posse, no púlpito do Palácio do Planalto, em 1º de janeiro, o eleito agregou uma terceira entidade: “Quando os inimigos da pátria, da ordem e da liberdade tentaram pôr fim à minha vida [no atentado sofrido durante a campanha], milhões de brasileiros foram às ruas”. Pronto, tá oquei? Revelou-se ali a santíssima trindade bolsonariana: Deus, pátria e o próprio capitão.

Os três entes indivisíveis têm a tarefa de “fazer a maior limpeza que este país já viu”, combater a “ideologia de gênero”, defender a família e impedir que nossa bandeira seja vermelha.

Bolsonaro não inova ao invocar nação e Deus, colocando ambos na arena política junto de seu nome. Sabe que com isso os conceitos totalizantes tornam-se ao mesmo tempo excludentes. Quem ataca Bolsonaro é inimigo “da pátria”, logo de Deus.

O uso de Deus e de um nacionalismo instrumental tem tradição em embates políticos. O dístico “Francisco Franco Caudillo de España por la gracia de Dios” aparecia em moedas e emblemas espanhóis entre os anos 1930 e 1970. Na Venezuela, o grande símbolo nacional, a imagem de Simón Bolívar (1783-1830), é disputado pela esquerda e pela direita há mais de um século. Donald Trump chamou para si “America first!”. A ditadura militar (1964-1985) valeu-se não apenas do lema “Brasil, ame-o ou deixe-o”, como também os opositores eram classificados de maus brasileiros pelas vozes das casernas.

 

Disputa ideológica

O nacionalismo é um atributo ideológico de grande apelo. No caso de Bolsonaro, há um dilema aparentemente insolúvel na composição de seu governo. A agenda econômico-financeira é fortemente liberal, globalizante e oposta a qualquer defesa real de interesses nacionais. Suas linhas de força envolvem a entrega do pré-sal às transnacionais, a venda da Embraer à Boeing, a diplomacia alinhada à Casa Branca e privatizações no atacado, em meio a um extemporâneo palavreado místico e anticomunista em prol da “civilização judaico-cristã ocidental”.

É uma combinação inusitada, mas o nacionalismo é conceito ambíguo. É também totalizante – ou includente – e excludente. Tem como fundamento o contraste entre o nacional e o não nacional. Unir a nação – ou um grupo – contra o inimigo comum é sua marca essencial.

O problema de Bolsonaro e de líderes autoritários é que a prática exige a criação de “um grande mal” a todo instante, fazendo do tensionamento entre setores sociais um método de governo.

Se o atentado ao então candidato foi planejado pelos “inimigos da pátria”, os adversários do governo por ele comandado estão fora da pátria e da nação – e, por extensão, da bênção de Deus. Vermelhos, petistas, comunistas, esquerdistas em geral, indígenas, a população LGBT, quilombolas e muitos outros não são opositores num ambiente democrático. São inimigos de todos nós, e qualquer mediação é impossível. Por esse motivo, as soluções propostas são extremas: zero demarcação de terras indígenas, fim do ativismo, expulsão dos doutrinadores em sala de aula, riscar do mapa o “marxismo cultural” etc. São gritos de um jihad infindável em nome da nova santíssima trindade.

O uso do nacionalismo por parte de Bolsonaro não se deve apenas a um comportamento demagógico. Eleito em um quadro de descrédito das instituições representativas e com um discurso fortemente antissistêmico, o ex-militar é caudatário de uma oportunidade histórica especial.

Embora o processo esteja em curso, há indicações de que a institucionalidade baseada na Constituição de 1988, responsável por estabelecer um presidencialismo de coalizão (expressão cunhada pelo cientista político Sérgio Abranches), entrou em crise e o bipartidarismo informal entre PT e PSDB deixou de existir. Agremiações tradicionais – à exceção do PT – tiveram desempenho eleitoral pífio e tornaram-se figurantes na grande política. Há um colapso dos canais da democracia representativa.

 

Crise de representação

O primeiro sinal de uma possível crise de representação se deu em junho de 2013, na espantosa onda de mobilizações iniciada com a reação ao reajuste das tarifas de transporte público, em São Paulo. Havia também uma ampla e difusa demanda por mais serviços e políticas públicas. As turbulências em vários estados colocaram frente a frente “uma esquerda extrapetista em busca de conectar-se com a ‘inquietação’ da nova classe trabalhadora […] e uma classe média tradicional cansada do ‘populismo’ do PT”.1 As várias vertentes da esquerda não conseguiram enfrentar a ruidosa vaga de contestação e canalizar as insatisfações para um programa de mudanças. Houve um embate de agendas. O conservadorismo e os meios de comunicação lograram tirar de cena as demandas sociais e colocar a corrupção como o grande mal a ser combatido. A espiral de protestos – sem lideranças aparentes, autoconvocada em redes sociais e com estrutura “horizontal” – foi a força motriz de um embate no qual a direita ganhou autoridade nas ruas, algo não visto havia meio século no Brasil. A popularidade oficial levou um tombo. O Datafolha, no fim de junho de 2013, indicava que a aprovação de Dilma caíra de 57% para 30% em vinte dias. Esboçou-se ali o arranjo de forças que assumiria o comando do país a partir de 2018.A presidenta recuperaria seus indicadores nos meses seguintes, a ponto de vencer, por pequena margem (51,64% a 48,36%) a reeleição contra Aécio Neves (PSDB), em 2014. Mas a vitória eleitoral logo se transformaria em derrota política diante da capitulação do governo à pressão do capital financeiro.

Para surpresa de seu eleitorado, Dilma deu um giro de 180 graus e adotou um programa recessivo, semelhante ao de seu opositor. Ao longo da campanha, ela prometera desenvolvimento, emprego, renda e manutenção de direitos. A opção da nova gestão se materializou em um forte tarifaço em janeiro de 2015, sucessivos aumentos da taxa Selic e uma sequência de cortes orçamentários que alcançou R$ 100 bilhões naquele ano.

A administração petista cometeu o que se convencionou chamar de estelionato eleitoral e perdeu bases de sustentação entre os trabalhadores organizados. Em dezembro de 2014, o desemprego era de 6,5%. Em abril de 2016, mês do impeachment, segundo o Caged (Ministério do Trabalho), a taxa dobrou, chegando a 11,2%.

Entre 2015 e 2016, o PIB caiu 7,2%, o pior resultado desde 1900.2 A sensação de insegurança e descrédito com a política se disseminou pela base da sociedade. O Datafolha aponta que, logo após a posse, em fevereiro de 2015, 56% população avaliava o governo como ótimo/bom. Em abril de 2016, pouco antes do golpe, o patamar caíra para 37%.

É bem possível que a decepção entre o prometido em campanha e a realidade dos primeiros meses de governo tenha levado vastos contingentes da população à descrença política.

A única sondagem específica sobre essa questão foi feita pelo Instituto Latinobarómetro. O índice de aprovação da democracia no Brasil, nos últimos anos, está demonstrado na tabela desta página.

Entre 2015 e 2016, a confiança na democracia caiu 22 pontos percentuais. Ela voltou a subir logo após o impeachment e baixou de forma expressiva no ano seguinte.É possível que os números tenham captado a perda de confiança não apenas na democracia, mas também na própria institucionalidade que a sustentava. Foi nesse terreno de desencanto que a pregação salvacionista da extrema direita cresceu.Foi num país fragmentado e desesperançado que a retórica fincada na agressividade sem freios e no nacionalismo religioso totalizante/excludente encontrou eco. Não se pode desconsiderar a prisão de Lula como parte desse desencanto popular.

Apoio à democracia – Brasil

2010 2011 2013 2015 2016 2017 2018
54% 45% 49% 54% 32% 43% 34%

Fonte: Latinobarómetro, Informe 2018.

 

O aventureiro providencial

A crise de representação abriu espaço para o líder providencial, o salvador da pátria que se oferece para unir a nação, defender nossas tradições e acabar com supostas ideologias que nos dividem. Não é à toa que o condutor exalte seu passado militar, abuse da retórica castrense e tenha nas Forças Armadas seu principal sustentáculo. Como a fonte básica do nacionalismo – o conceito de nação – é vaga e imprecisa, o chamado “Mito” também se permite ser vago e impreciso. Unir a nação é unir o cidadão de bem, é deixar que este se arme, é colocar as “coisas no lugar” e é “menino de azul e menina de rosa”. Assim, o universo pode se reconstruir “sem ideal nem esperança”, como num poema de Fernando Pessoa.

O cientista político e historiador Benedict Anderson, em seu Comunidades imaginadas (Cia. das Letras), afirma o seguinte: “Dentro de um espírito antropológico, proponho a seguinte definição de nação: uma comunidade política imaginada – e imaginada como sendo intrinsecamente limitada e, ao mesmo tempo, soberana. Ela é imaginada porque mesmo os membros da mais minúscula das nações jamais conhecerão, encontrarão, ou sequer ouvirão falar da maioria de seus companheiros, embora todos tenham em mente a imagem viva da comunhão entre eles”.

A disputa pela nação, por essa comunidade que em maior ou menor grau está nos corações e mentes de todos, é importante demais para que parte da esquerda a deixe nas mãos da direita.

 

*Gilberto Maringoni é professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC.

 

 



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