MESSIANISMO OUTRA VEZ?

A sedução institucional em “Apocalipse nos Trópicos”

Uma reflexão crítica sobre o documentário de Petra Costa, que articula questões de linguagem, poder e imaginação política no Brasil contemporâneo

Entre as muitas tentativas recentes de narrar o colapso político brasileiro, algumas obras se destacam não apenas pelo que mostram, mas pelo modo como escolhem contar. É o caso do novo documentário de Petra Costa, Apocalipse nos Trópicos, mais uma peça de um projeto autoral que não esconde sua aposta na redenção institucional como horizonte político. Em continuidade direta a Democracia em Vertigem, Petra investe novamente na narrativa da tragédia democrática, agora mais escancaradamente embalada em estética apocalíptica e em aura mística. A novidade não é tanto o conteúdo, mas a forma como se reencena a salvação. A vitória de Lula em 2022, aparece como o gesto messiânico que detém (mesmo que provisoriamente) a marcha teocrática rumo ao abismo.

Crédito: Reprodução / Internet

Essa escolha narrativa, que confunde estética com crença, e política com fé restauradora, revela não apenas uma leitura reducionista dos impasses brasileiros, mas uma perigosa adesão à lógica da delegação. Para Petra, a História parece sempre depender da irrupção de um herói. O povo, quando aparece, está em estado de comoção ou de ameaça. Nunca de criação.

A aposta de Petra na sedução institucional se expressa no desejo de que a democracia liberal volte a funcionar como um relógio. Com o Judiciário como guardião do tempo, o Legislativo como engrenagem enferrujada, e o Executivo como protagonista da esperança. Essa composição, ao mesmo tempo estética e ideológica, ignora o papel ativo do Estado na produção das violências que o filme denuncia: da militarização das favelas ao encarceramento em massa, da criminalização dos corpos dissidentes à política econômica que aprofunda desigualdades.

O resultado é que Apocalipse nos Trópicos, em vez de desafiar os mecanismos de autoridade que sustentam o horror brasileiro, os reafirma com requinte. Como quem filma as ruínas e as toma por catedrais, Petra constrói um altar cinematográfico para as instituições burguesas, tratando sua decadência como exceção e sua restauração como redenção. O filme parece suplicar: “que voltem os adultos à sala”, sem nunca perguntar quem sempre foi mantido do lado de fora da casa.

Mas é precisamente esse desejo de retorno à ordem, que Petra embala em imagens de beleza trágica, que revela uma contradição fundamental: a recusa em encarar a democracia como invenção permanente. Claude Lefort[1] propôs que a democracia não é uma forma acabada, mas um processo histórico de criação contínua de direitos e reconhecimento das divisões constitutivas do social e do político. No entanto, o que o filme nos oferece é uma imagem nostálgica de instituições como templos profanados, cuja sacralidade seria restaurada com a volta dos “adultos à sala”. Trata-se de uma lógica de restauração, e não de reinvenção, de conservação, e não de ruptura.

A nostalgia institucional que atravessa Apocalipse nos Trópicos silencia o fato de que o Estado democrático de direito no Brasil é também uma construção sobre ruínas autoritárias jamais desmontadas. Toda invenção democrática carrega consigo seus próprios fantasmas totalitários: o poder administrativo, a tecnocracia, a judicialização seletiva, o autoritarismo burocrático. O Judiciário, elevado à condição de oráculo moral, é talvez o mais evidente desses fantasmas. Estruturado sob lógicas da ditadura e reformado sob os imperativos neoliberais, ele opera hoje mais como gestor da estabilidade do que como agente de alguma justiça.

Ao escolher filmar as instituições como se fossem redentoras de um caos externo, Petra inverte a chave lefortiana: em vez de mostrar a democracia como um campo de indeterminação, aberto ao conflito, possível de ser disputada para além do culto às instituições burguesas, possível de ser recriada para além da tecnocracia e da teatralização liberal, a retrata como um aparato quebrado que apenas precisa de reparo técnico. Ao estetizar a crise institucional como exceção passageira, o filme esvazia sua potência crítica e reinscreve o espectador na posição de súdito impotente, à espera da normalização pela ordem. Mas, a democracia não é a volta dos que foram, é, antes, o surgimento dos que nunca estiveram. E nisso, o filme fracassa em sua aposta política.

Aquilo que se escancara no documentário não é apenas o fracasso do bolsonarismo, mas o fracasso da política institucional como instrumento de emancipação. A repetição do messianismo lulista como horizonte possível é menos uma solução e mais um sintoma da paralisia da imaginação política contemporânea. Ao sugerir que a eleição de Lula é o fechamento de um ciclo, Petra não apenas anestesia o potencial radical da revolta como também reencena o gesto conservador de pacificar o conflito e reconciliar os opostos. Sempre a partir de cima. A conciliação volta a ser o nome do progresso; a autoridade, o nome da salvação.

Ainda assim, Apocalipse nos Trópicos não deixa de operar como um arquivo valioso. Ao reunir imagens, enunciados, atos e palavras que marcaram o processo político mais “delirante” da história recente brasileira, o filme arquiva e organiza discursos que merecem ser revisitados criticamente. A força do documentário não está tanto na sua tese, mas na sua capacidade de compor uma série discursiva onde o delírio de Estado encontra seu espelho, ainda que este espelho deseje disciplinar, redimir, salvar.

Essa ambivalência faz do filme um documento inquietante. Ao mesmo tempo em que expõe o grotesco da cena política recente, também a reconfigura a partir de um ponto de vista que naturaliza certas hierarquias de saber e poder. Em vez de tensionar os dispositivos que sustentam o delírio, como o autoritarismo jurídico, o moralismo religioso ou o anticomunismo, o filme parece orbitá-los com fascínio e reverência. Nesse movimento, corre o risco de converter denúncia em reverberação, e de substituir a análise pela dramatização de um colapso que, embora real, é cuidadosamente emoldurado por lentes institucionais e afetos liberais.

Nesse sentido, é fundamental a leitura do texto publicado no blog da Boitempo, Entre santos e vilões: Apocalipse nos Trópicos e os estereótipos sobre a fé no Brasil, assinado por Tabata Tesser, que aponta com precisão os limites da narrativa do filme, especialmente quanto à representação estereotipada da religiosidade popular e à lógica maniqueísta que atravessa a montagem. Concordo com cada uma das teses expostas ali. Minha crítica não busca reiterar, mas prolongar aquele gesto, agora atentando ao lugar da autoridade e ao modo como o documentário reafirma, por outros meios, o culto às instituições como única via possível.

O culto ao Estado burguês-liberal como encarnação da racionalidade democrática esconde, com eficácia simbólica, o outro lado do chamado Estado Democrático de Direito. Sua face de exceção, violência e gestão necropolítica. Como advertiu Giorgio Agamben,[2] o estado de exceção não é uma anomalia que ameaça à democracia por fora, mas sua técnica constitutiva, sua norma silenciosa. As democracias liberais ocidentais nunca deixaram de conviver, com impressionante estabilidade, com formas brutais de dominação: apartheid racial e carcerário, colonialismo militar, ocupações neocoloniais e guerras de rapina travadas contra o Sul Global sob o manto do direito internacional e dos “valores universais”. Do genocídio em Gaza ao neocolonialismo francês e inglês na África, do eugenismo étnico promovido pelo Estado de Israel à política migratória assassina da União Europeia, o que se vê é a democracia servindo como linguagem moral para legitimar a barbárie, desde que ela seja seletiva e lucrativa.

O que conhecemos como democracia é, muitas vezes, apenas uma forma refinada de dominação, que administra a violência sem jamais abrir mão dela. A crença de que as instituições impedem a barbárie é parte de uma estratégia discursiva que transforma o medo em obediência. Esse culto à autoridade, seja ela jurídica, parlamentar ou midiática, opera como uma espécie de teologia política da estabilidade, uma fé moderna que transforma o capital em natureza e o direito em dogma. Na lógica da ecologia capitalista,[3] esse sistema produz um fascismo imaginário como espantalho, gêmeo siamês do comunismo imaginário, para interditar qualquer horizonte de ruptura real. Enquanto isso, sustenta guerras, racismo estrutural e desigualdade global em nome de uma ordem que se diz democrática, mas que só reconhece como legítima a vida que se curva à sua gramática imperial.

Afinal, se a democracia liberal já demonstrou sua cumplicidade com o autoritarismo, inclusive ao legalizá-lo, por que insistir em restaurá-la como se fosse nova? O verdadeiro apocalipse talvez não esteja no colapso do Estado, mas na incapacidade de imaginar a liberdade para além dele.

 

Rick Afonso-Rocha é doutor em Letras: Linguagens e Representações (UESC), professor da rede pública de educação do Estado de Pernambuco. Advogado, anarquista e pesquisador independente.

 

[1] LEFORT, Claude. A invenção democrática: os limites da dominação totalitária. Belo Horizonte: Autêntica, 2011.

[2] AGAMBEN, Giorgio. Estado de exceção: Homo Sacer, II, I. São Paulo: Boitempo, 2015.

[3] AFONSO-ROCHA, Rick. O perigo cor-de-rosa: ensaios sobre deimopolítica. Salvador: Devires, 2021.

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