A “solução final” da questão Palestina e o fim da utopia internacional
Após quase 80 anos da existência do Estado de Israel, o fim da linha para os palestinos parece mais próximo do que nunca, enquanto a “comunidade” internacional revela seu vazio moral
Em janeiro de 1942, um grupo de oficiais do alto escalão nazista se reuniu em Wannsee, Berlim, para deliberar a infame “solução final” para o que chamavam, à época, de “questão judaica”. Amplamente conhecido, o termo evoca as lembranças mais sinistras da guerra na Europa, entre 1939-45, e justifica, em grande medida, a criação do Estado de Israel como lar seguro para os judeus após a tragédia do Holocausto.
Quase oitenta anos depois, o consenso entre especialistas naquele terrível episódio, muitos deles judeus, aponta que Israel está cometendo um genocídio na Palestina, após décadas de um processo de limpeza étnica. Segundo a ONG Jewish Voice For Peace, uma “solução final”[1] está, hoje, em curso na Palestina, e neste texto veremos isso para além de qualquer dúvida razoável.
Limpeza Étnica
O Estado de Israel, criado como pedra fundamental das Nações Unidas após os horrores sofridos pelo povo judeu durante a II Guerra Mundial, rompe cada vez mais e à luz do dia com o desígnio fundamental daquela organização, resumido numa simbólica e atemporal declaração: “Nunca mais!”. Após quase oito décadas de um projeto de limpeza étnica conduzido sob o beneplácito e o financiamento das grandes potências ocidentais – das quais Israel é legatário direto enquanto entreposto geopolítico e projeto colonial –, o regime sionista envereda pela barbárie sem constrangimentos.
Da limpeza étnica ao genocídio escancarado, por mais absurdo que pareça, Israel caminha a passos largos para varrer o que resta da população nativa da Palestina em Gaza e na Cisjordânia, tarefa que o regime sionista persegue desde a fundação do Estado Judeu. E isso, para além dos ecos trágicos dentro da Palestina ou nas vizinhanças pelo Oriente Médio, entoa também o colapso de qualquer possibilidade de uma ordem internacional protetora dos povos. O que testemunhamos em tempo real na Palestina ocorre diante de um público passivo e impotente frente ao poder que sustenta a aniquilação de todo um povo.
Esse horizonte tenebroso evoca as memórias de 1948, quando Israel realizou a primeira limpeza étnica em massa de palestinos. Assim como agora, a comunidade internacional àquela altura também respaldou as ações sionistas. Para muitos palestinos, atacados brutalmente em seus vilarejos, o mundo chegava ao fim, mortos ou expulsos de sua terra. Muitos dos descendentes daquela primeira experiência ainda guardam as chaves de suas casas, hoje ocupadas por alguma família israelense. E os dois milhões que restam amontoados em Gaza, descendentes da primeira Nakba (a “catástrofe” de 1948), enfrentam agora um processo de aniquilação que lhes reserva apenas dois destinos possíveis: o enterro em sua terra ou alguma vida longe dela.
Terra
A terra de alguém é o seu mundo. Desde que a humanidade superou o nomadismo, podemos afirmar que a civilização se estrutura, em primeiro lugar, num espaço social e politicamente definido, que, no decurso do processo histórico, condicionou as comunidades humanas a modelos de territorialidade baseados em fronteiras delimitadas para guardar em segurança uma sociedade. No período moderno, essa territorialidade se define nacionalmente e produz uma cultura política compartilhada entre os seus habitantes, assegurada pelos princípios da soberania e da autodeterminação dos povos.
Portanto, não há povo sem terra, e não há terra sem soberania. É na terra que se constroem laços, tradições e uma história; que se compartilham recursos, uma vida e um sentido de pertencimento. E não há soberania sem autodeterminação. Por isso, como afirma Edward Said, o aniquilamento de um povo passa, antes, pela desconstrução da sua relação com a terra; da sua negação como sujeito histórico, dotado de tradições e existência política. E toda história tem um lugar. Ao negá-la ao povo palestino, o sionismo cumpre a primeira etapa da erradicação física dos verdadeiros habitantes da terra que cobiçam para seu Estado, produzindo uma das maiores barbáries da história moderna.
Barbárie que se expressa em incontáveis declarações sionistas ao longo do tempo, negando a relação da Palestina com seu povo, a fim de justificar sua colonização sob a forma violenta do Estado étnico supremacista judeu. Uma delas, a da Primeira-Ministra de Israel Golda Meier (1898-1978), que afirmou que “não havia essa coisa de povo Palestino” quando eles (os sionistas) chegaram “lá”[2]. Negação cínica da existência de milhões de pessoas tão reais quanto o nascer do Sol que ilumina suas faces famélicas hoje em Gaza.
Os palestinos sobreviventes da Nakba passaram o resto da vida se recuperando daquele apocalipse. E, décadas depois, muitos ainda estão vivos para testemunhar e viver algo muito pior. Se a limpeza étnica final que observamos seguir a termo, por meio de assassinatos diretos ou expulsões em massa, não será resultado apenas da capacidade militar de Israel, mas da cumplicidade da “comunidade” internacional.
A indulgência ofertada a Israel que testemunhamos hoje remonta a muito tempo. Em 1917, a Declaração Balfour preparou o terreno para uma política centrada no sionismo. Na época, os palestinos eram um povo predominantemente agrário que vivia pacificamente em um pequeno canto do Império Otomano, antes da conquista britânica. Eles não tinham conhecimento nem interesse no chamado “problema judaico” da Europa. Para um palestino típico daquela época, os únicos judeus que poderia conhecer eram aqueles com quem convivia amigavelmente, conhecidos localmente como “judeus árabes”, judeus palestinos nativos que, na época, representavam 3% da população da Palestina (Said, 1992).
Na década de 1930, o sionismo havia se consolidado como subproduto do colonialismo britânico. Logo depois, veio a fundação do Estado de Israel, que foi mais do que fruto de consenso na incipiente ONU, mas um projeto implementado à força por milícias judaicas como o Haganah, com recurso, inclusive, a métodos terroristas contra as forças britânicas e os vilarejos palestinos no caminho do Estado Judeu[3]. Para as autoridades do Império, a resposta padrão era ignorar e permitir os avanços sionistas, uma vez que a descolonização era uma realidade do pós-guerra, e o projeto sionista, estratégico aos interesses ocidentais.
A maioria do povo palestino àquela altura ainda carecia de uma compreensão adequada das sutilezas da história judaica europeia, do Holocausto nazista e da culpa que isso causou nos ocidentais. O povo palestino cresceu, desde então, sabendo que, para o Ocidente, tinham pouca importância no empreendimento da criação e desenvolvimento de Israel, que foi esmagando-os em guetos cada vez mais incompatíveis com qualquer solução de dois Estados. É a “doutrina do fato consumado”, que consiste basicamente em destruir os pilares materiais que poderiam dar vida a um Estado Palestino. Israel se estabeleceu, assim, progressivamente e violando acordos internacionais e ocupando territórios estratégicos de modo a se apropriar das fontes de água, estradas e outros pontos sensíveis para a soberania sobre a Palestina, fazendo do território árabe não mais do que exprimidos e descontínuos enclaves sob júdice do Estado Judeu.
Assim, mesmo antes da atual escalada, a situação do povo palestino já beirava o desastre. Uma morte lenta e silenciosa, incendiada após os ataques do Hamas, em 7 de outubro de 2023. A partir daquele episódio (que discuti em outra oportunidade[4]), os Estados Unidos e seus aliados se empenharam em mobilizar suas forças militares, políticas, econômicas e diplomáticas para defender Israel. A ajuda militar ocidental tem permitindo a Israel destruir Gaza e a Cisjordânia (onde, é sempre bom lembrar, não há nenhum Hamas e Israel trabalhou por muitos anos para descredibilizar as lideranças moderadas palestinas, o que respalda as análises que apontam a radicalização palestina como um importante ativo do sionismo). Também na ONU, o apoio diplomático dos EUA tem protegido Israel da censura e das sanções cabíveis por suas ações. Organizações como a Corte Internacional de Justiça e o Tribunal Penal Internacional têm sido tratadas com desprezo, e o direito internacional tem sido minado para proteger Telavive. Os palestinos, e qualquer um que os defenda, são cada vez mais censurados e correm o risco de punição como se eles, e não Israel, estivessem envolvidos em genocídio. Hoje, vemos a fome em massa tomar conta de Gaza, enquanto a Cisjordânia é saqueada pelo avanço dos colonos israelenses sobre os poucos hectares que restam aos donos daquela terra.
A mensagem de tudo isso é clara para os palestinos. Para o Ocidente, o chamado conflito nunca foi sobre a Palestina ou seu povo, mas sobre a relação não resolvida da Europa com os judeus. A “questão judaica”, como era conhecida, foi calorosamente debatida na Europa ao longo dos séculos XIX e XX, e, ao tentar resolvê-la, o Ocidente imputou a um povo de um canto do Oriente Médio a conta pelo genocídio nazista, agora paga com outro genocídio.
Violência Coletiva
As instituições internacionais surgiram do repúdio à carnificina das guerras mundiais, sob o desígnio ideal de instaurar um regime internacional de superação da Guerra. O desenho institucional do princípio da Segurança Coletiva é simples, e podemos resumi-lo no lema dos mosqueteiros de Dumas: um por todos, todos por um.
Mas, apesar de racional, a Segurança Coletiva tem fracassado. Fracasso explícito em episódios como Ruanda, em 1994, quando um genocídio televisionado deixou 800 mil mortos em poucas semanas sem que nenhum esforço fosse tomado pelas Nações Unidas; ou a própria ocupação israelense sobre a Palestina, baseada no descumprimento em série de resoluções da Assembleia Geral e até do Conselho de Segurança – e outros casos que poderiam ser citados ad nauseam.
Por que, então, já que se trata de um princípio aparentemente simples e racional, a Segurança Coletiva fracassa?
A aparente simplicidade oculta complexidade. O dever ser da Segurança Coletiva enfrenta condições mais inóspitas do que a primeira leitura nos revela. Entre o dever ser que a inspira e a realidade objetiva há um terreno árido como a terra de ninguém, prenhe de forças ocultas ao olhar institucionalista, mas que se impõem na prática política. E não só: a condicionam nos estertores da perversa herança colonial, que orienta as aspirações éticas dominantes segundo hierarquias de valores humanos racialmente construídas, que, nos termos do Orientalismo, de Edward Said, reificam as relações humanas a partir de balizas coloniais.
Tudo isso pede um itinerário de análise pelas encruzilhadas contingentes da História, reveladoras da dimensão do problema. Segundo Mearsheimer (1995, pp. 31-32), “alguns Estados são especialmente amigáveis por razões históricas ou ideológicas [e] se um Estado com amigos próximos for rotulado como agressor em um sistema de segurança coletiva, seus amigos provavelmente relutarão em se juntar à coalizão contra ele […]”, e, da mesma forma, “a inimizade histórica entre Estados também pode complicar os esforços de segurança coletiva […]”. Além disso, “mesmo que os Estados concordem em agir automática e coletivamente para enfrentar a agressão, certamente haveria dificuldade em determinar como distribuir o ônus [isto é, os custos]” e seria difícil “garantir uma resposta rápida à agressão em um sistema de segurança coletiva” porque há que se mobilizar muitos atores, com dificuldades logísticas distintas, problemas internos distintos etc. Ademais, “os Estados provavelmente relutarão em se juntar a um esforço de segurança coletiva porque o sistema transforma todo conflito local em um conflito internacional […] e a noção de que os Estados devem responder automaticamente à agressão afeta de maneira fundamental a soberania estatal […], e há contradições em relação ao uso da força que levantam dúvidas sobre se os Estados realmente viriam em socorro de um ator ameaçado”.
O resumo desses princípios é que Estados tendem a agir de acordo com interesses. Inclusive os países árabes, que pouco ou nada têm feito para deter Israel. A tragédia do povo Palestino, em um mundo gerido de tal maneira, é ser vítima das vítimas, como apontou Said, e não deixa de ser uma trágica ironia da História que o enterro da utopia do pós-guerra esteja sendo levado a cabo pelo Estado fundado sob a promessa de enterrar o genocídio.
Genocídio
Gaza, agosto de 2025. Em entrevista ao Middle East Eye Live[5], o jornalista Mohammed Shehada descreveu os centros de distribuição de ajuda em Rafah como “campos de concentração fortemente militarizados”, e se referiu ao que chamou de “medo generalizado” entre os moradores de Gaza. Shehada detalhou as medidas extremas de vigilância que os palestinos devem suportar. Ele observou que civis são forçados a caminhar mais de 40 quilômetros – muitas vezes sob bombardeio constante – para terem acesso a ajuda básica, enquanto correm o risco de serem mortos, sequestrados ou coagidos pelas forças israelenses. Ele concluiu que, para muitos deles, esses centros de distribuição de ajuda não são linhas de vida, mas mecanismos de controle – ferramentas usadas para ditar “quem vive e quem morre”.
“Cada pessoa com quem falei em Gaza disse que é preciso ser completamente louco, fora de si, para pisar nesses campos de concentração fortemente militarizados que Israel está montando em Rafah, onde você tem que passar por vários postos de controle com genocidas israelenses fervilhando ao redor, esperando para emboscar quem quiserem. Você tem que passar pela tecnologia de reconhecimento facial, impressão digital, diferentes camadas de triagem e verificação com critérios não revelados. E no final, você tem que literalmente andar de Beit Hanoun quarenta e um quilômetros até Rafah para pegar um pacote que pesaria de vinte a quarenta quilos e depois quarenta e um quilômetros de volta sob bombardeio constante, pensando que você vai voltar vivo. Ninguém em Gaza pensa que se você pisar nesses complexos, você vai voltar para casa vivo e de pé. Ou você será morto no caminho, ou será sequestrado pelos soldados israelenses. Você será chantageado para colaborar com Israel, ou a comida que você conseguir será saqueada no caminho. Mas há outro elemento: as pessoas temem a expulsão forçada (…) Israel diria às pessoas que a única maneira de conseguir comida é deixar suas casas, deixar o norte de Gaza e se mudar para a fronteira com o Egito para a fase final do genocídio que está sendo implementado, onde Israel os empurraria algumas centenas de metros para dentro do Egito, no deserto do Sinai. Depois, há o outro elemento de basicamente usar isso como uma ferramenta definitiva para ditar quem vive e quem morre, porque apenas 60% de Gaza receberia essa ajuda, de acordo com a própria organização. De acordo com o próprio Israel. Apenas 60%, o que significa que Israel escolheria quem recebe ajuda e quem morre. É como uma distopia, sob qualquer métrica que você escolher, você está usando isso como uma arma para promover o genocídio, para debilitar toda a população, puni-la coletivamente enquanto finge permitir a entrada de qualquer alimento. Mas você praticamente não está.”
Shehada está longe de estar sozinho em sua denúncia. Uma reportagem da BBC compilou 160 casos de crianças palestinas fuziladas em Gaza, alvejadas na cabeça ou no peito. Inúmeros relatos médicos evidenciam que crianças têm sido alvos sistemáticos de atiradores israelenses, inclusive com direito a um sinistro “rodízio” de zonas corporais por dia da semana. Segundo os relatos, em um dia aparecem crianças alvejadas numa parte específica do corpo, noutro, em outra, e assim por diante.

Outra dimensão horripilante do que estamos testemunhando é o morticínio de jornalistas, sem qualquer paralelo com guerras anteriores. Segundo um levantamento da Al Jazeera[6], mais de 260 jornalistas já foram mortos em Gaza, número que ultrapassa o das duas guerras mundiais e do Vietnã somadas! A proporção absurda, muito fora da curva histórica, explicita a deliberação desses assassinatos, algo que não é novidade no histórico das forças israelenses[7].
Assim, o capítulo final da limpeza étnica da Palestina testemunha um verdadeiro inferno criado em Gaza pelos ataques israelenses. Inferno que já contabiliza, segundo o Ministério da Saúde de Gaza, mais de 60 mil mortos, incluindo 14 mil crianças, número que pode ser muito maior, segundo projeções de estudos recentes, que consideram os desaparecidos sob os escombros e o caos instaurado. Tais projeções foram corroboradas por uma recente declaração de um general da reserva israelense, que afirma que Israel teria vitimado cerca de 200 mil palestinos com suas ações militares em Gaza[8], ou seja, 10% da população.
Só para medida de comparação, a guerra da Ucrânia deixou pouco mais de 12 mil civis mortos[9], uma guerra entre duas forças armadas dotadas de armamento pesado, cenário diverso daquele observado em Gaza, onde o IDF enfrenta uma milícia. A desproporção dos números traduz um genocídio em curso, como atestam os principais especialistas no tema[10]. Essa acusação, grave e que jamais poderia ser banalizada, também foi evocada por associações judaicas de direitos humanos, como B’Tselem e a Médicos Pelos Direitos Humanos-Israel. Também, Amos Schocken, do Haaretz, jornal israelense de tom mais crítico, acusa o governo de praticar crime contra a humanidade. “A ideia parece ser eliminar os palestinos”, disse ele recentemente[11]. Mais significativo ainda, estudiosos israelenses do Holocausto também têm se pronunciado, como Omer Bartov, da Universidade de Brown, que disse que “tornar a vida impossível em Gaza é uma estratégia de genocídio”[12]. Ou Amos Goldberg, um dos principais estudiosos do tema, da Universidade Hebraica de Jerusalém, que afirmou que “o que está acontecendo em Gaza é um genocídio, porque Gaza não existe mais”[13]. A lista continua, com outros nomes de grande relevo na área[14], deixando pouca margem para dúvidas.
E nem precisaríamos ir até os estudiosos. Autoridades israelenses têm declarado abertamente suas intenções. Segundo matéria do The Guardian, o ministro das finanças de Israel, Bezalel Smotrich, prometeu que “Gaza será completamente destruída”, e que a população palestina “partirá em grande número para outros países”[15]. Até mesmo Ehud Olmert, ex-Primeiro-Ministro de Israel, disse, recentemente: “O que estamos fazendo em Gaza agora é uma guerra de devastação: matança indiscriminada, ilimitada, cruel e criminosa de civis. É o resultado de uma política governamental – ditada de forma consciente, perversa, maliciosa e irresponsável. Sim, Israel está cometendo crimes de guerra”[16].
O fim a utopia internacional
Para além da Palestina, foram sete países atacados por Israel em menos de um ano. Enquanto o mundo testemunha apático a radicalização do colonialismo sionista, o regime de Telavive avança no limbo deixado pelo estado terminal da segurança coletiva. E enquanto tudo isso toma parte, a população israelense, segundo dados divulgados em recentes pesquisas de opinião, mergulha na radicalização sionista. Segundo dados do Instituto Democracia de Israel, 79% dos israelenses judeus afirmam não se sentirem “incomodados” com os relatos de fome e sofrimento em Gaza. Já entre os israelenses árabes, 86% se dizem “muito incomodados”, ressaltando o profundo corte étnico da sociedade israelense. Outro estudo, encomendado por Tamir Sorek, professor da Universidade da Pensilvânia, atestou que 82% dos israelenses judeus concordam com a expulsão completa dos palestinos de Gaza[17].
O fim do sonho do Estado Palestino marca o fim da utopia internacional do pós-guerra. Esse emaranhamento marcou expectativas de internacionalistas durante décadas, e não é apenas uma coincidência trágica que a existência da Questão Palestina coincida com a das Nações Unidas. Considerado o mais persistente contencioso da política internacional desde 1945, a “questão árabe-israelense” evoluiu para consolidar um projeto colonial que expõe tardiamente as vísceras da civilização ocidental, e a esperança de sua resolução na solução de dois Estados parece enterrada.
Em perspectiva histórica, é impossível dissociar as duas coisas. A morte da utopia de um Estado Palestino significa a morte da utopia de uma comunidade internacional capaz de garantir algum direito humanitário. Por isso, é razoável dizer que a Questão Palestina é a grande questão de nosso tempo, e de sua resolução dependem os horizontes da Humanidade. O problema remonta ao colonialismo, e, se não parece tangível efetivar o princípio abstrato da segurança coletiva apenas por seu devir, a luta anticolonial deve ser tomada como fronteira possível de superação concreta da violência no ambiente internacional.
O fim da Palestina é a desolada rubrica da falência das utopias do século XX, e deixa uma última pergunta, sem perspectiva de resposta: o que vai parar Israel?
João Rafael Gualberto de Souza Morais é historiador, doutor em Ciência Política e professor no Instituto de Estudos Estratégicos da UFF.
REFERÊNCIAS
MEARSHEIMER, John. The false promise of international institutions. nternational Security , Winter, 1994-1995, Vol. 19, No. 3 (Winter, 1994-1995), pp. 5-49.
PAPPÉ, Ilan. A Limpeza Étnica da Palestina. São Paulo: Sundermann, 2016.
SAID, Edward W. A questão da Palestina. São Paulo: UNESP, 2012.
[1] https://www.jewishvoiceforpeace.org/2025/05/21/israels-final-solution-for-palestinians/
[2] https://www.aljazeera.com/features/2019/3/18/the-mixed-legacy-of-golda-meir-israels-first-female-pm
[3] PAPPÉ, Ilan. A Limpeza Étnica da Palestina. São Paulo: Sundermann, 2016.
[4] https://diplomatique.org.br/colonialismo-terrorismo-violencia-palestina/
[5] https://x.com/MiddleEastEye/status/1927452872330936367
[6] https://piaui.folha.uol.com.br/a-ideia-parece-ser-eliminar-os-palestinos/
[7] https://www.aljazeera.com/news/2022/5/11/shireen-abu-akleh-israeli-forces-kill-al-jazeera-journalist
[8] https://www.theguardian.com/world/2025/sep/12/israeli-ex-commander-confirms-palestinian-casualties-are-more-than-200000?CMP=Share_AndroidApp_Other
[9] https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/guerra-da-ucrania-ja-deixou-mais-de-12-mil-civis-mortos-diz-onu/
[10] https://www.dw.com/pt-br/associa%C3%A7%C3%A3o-de-acad%C3%AAmicos-diz-que-israel-comete-genoc%C3%ADdio-em-gaza/a-73840417
[11] https://piaui.folha.uol.com.br/a-ideia-parece-ser-eliminar-os-palestinos/
[12][12] https://www.populismstudies.org/professor-bartov-making-life-impossible-in-gaza-is-a-deliberate-strategy-of-slow-moving-genocide/
[13] https://www.lemonde.fr/en/opinion/article/2024/10/29/amos-goldberg-what-is-happening-in-gaza-is-a-genocide-because-gaza-does-not-exist-anymore_6730881_23.html
[14] https://www.middleeasteye.net/news/top-genocide-scholars-unanimous-israel-committing-genocide-gaza-investigation-finds
[15] https://www.theguardian.com/world/2025/may/06/hamas-israel-hunger-war-in-gaza
[16] https://www.theguardian.com/world/2025/may/27/former-israeli-pm-ehud-olmert-says-his-country-is-committing-war-crimes
[17] https://www.dw.com/pt-br/como-os-israelenses-veem-a-guerra-em-gaza-e-a-situa%C3%A7%C3%A3o-dos-palestinos/a-73609453

