Antenas da sociedade - Le Monde Diplomatique

TELEVISÃO

Antenas da sociedade

por Gabriel Cohn
1 de março de 2013
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Um quarto de século após a Constituição que marcou a nova etapa democrática da vida nacional, a organização do sistema de veículos de comunicação brasileiro é mais marcada pelo gigantismo e pela concentração empresarial do que no início da nova etapaGabriel Cohn

Após pouco mais de seis décadas de existência, a televisão brasileira ostenta condições peculiares: sofisticação técnica, forte presença na cultura, agência de porte na vida econômica e política e – aqui começa o problema – elevada capacidade de manutenção, quando não de consolidação, de um padrão organizacional e de funcionamento construído em grande medida num período marcado pela concentração do poder político e econômico.

A situação tem algo de paradoxal. Um quarto de século após a Constituição que marcou a nova etapa democrática da vida nacional, a organização do sistema de veículos de comunicação brasileiro é mais marcada pelo gigantismo e pela concentração empresarial do que no início da nova etapa. Não há como fugir à evidência de que esse é o grande problema que as políticas da comunicação e da cultura terão de enfrentar com mais força daqui para a frente. Esse é o pano de fundo que dá sentido a todo esforço que fizermos para caracterizar a natureza desse “meio” de comunicação, que há muito deixou de ser meio no sentido de veículo de mensagens para converter-se em meio no sentido de ambiente que fornece enquadramento para a vida das pessoas.

Talvez um bom ponto de partida consista em examinar melhor a capacidade que acabei de atribuir à televisão, a de funcionar como um “ambiente” de vida. Seu nome altissonante esconde a fragilidade de um meio dependente de um sentido direcional como a visão. É nisso que seus afins mais próximos − o rádio, com seu som não direcional, e o cinema, com seus espectadores imóveis − levam vantagem sobre ela. Por maiores que sejam seus avanços técnicos, a TV não tem como dispensar a técnica do rádio e joga boa parte do seu esforço no áudio. A questão é: feitas as pazes com o rádio e o cinema, que já se apresentavam prontos e com perfil bem definido quando a TV nasceu, como ficam as tecnologias mais recentes, às quais ela agora tem de se adaptar, em especial as computacionais? Em especial se considerarmos que essas tecnologias de última geração condensam em si todas as características das anteriores? De certo modo a resposta já foi antecipada: trata-se de uma questão de adaptação mais do que de incorporação ou apropriação, como já ocorrera com o cinema e o rádio. E nisso a televisão tem se revelado um meio técnico altamente eficiente na destreza para fazer uso, como recurso na produção e como plataforma na distribuição, das novas conquistas informáticas. No entanto, ela não se transforma por dentro, no modo como organiza as mensagens que transmite, nem dá sinais de que vá ser incorporada por tecnologias mais recentes. A questão, claro, não é simplesmente fazer parte, mas diz respeito ao papel desempenhado no conjunto, se dominante – como até agora tendeu a ser na relação com os demais veículos no sistema da indústria cultural. Em suma, a televisão será capaz de manter a iniciativa na formatação do espaço simbólico no qual se movem as pessoas – leia-se, seus consumidores? Continuará a atrair e manter consumidores da sua programação, ou seja, continuará a programar amplos segmentos da vida de grandes setores da sociedade? Tudo indica que ela tem poder e flexibilidade para permanecer um bom tempo entre nós, fazendo aquilo que sempre soube fazer, que é captar energias no entorno para devolvê-las organizadas em programas.

O que afinal sustenta a televisão em posição tão firme no complexo de meios de comunicação? A resposta é de ordem organizacional: trata-se do caráter compactamente controlado que ela assumiu no confronto com os outros meios no complexo da indústria cultural ao longo do século XX, com desdobramentos atuais. O cinema e a imprensa já tiveram sua idade de ouro de concentração monopólica, e a lógica do mundo digital também é centrada no controle (e em escala sem precedentes), mas sob outras formas.

A boa e velha indústria cultural − o sistema de meios interdependentes e intercomunicantes sob gestão empresarial tendencialmente monopolista e com um ramo do complexo dando o tom para o conjunto − tem na televisão seu último bastião.

Não nos esqueçamos de que a questão básica não é a relação da televisão com o poder político e econômico (se é complementar, subalterna, independente ou outra), mas sim a da televisão como estrutura de poder na relação com as demais instâncias da sociedade. Isso tudo não é estranho àqueles que a controlam; a abertura do sistema televisivo é especialmente difícil também por outras razões, sendo a mais evidente a escala dos investimentos envolvidos.

Avanços na tecnologia da comunicação não envolvem a substituição dos meios mais antigos pelos mais novos. Estes simplesmente incorporam ao seu padrão próprio os recursos fornecidos pelos anteriores. Imprensa, rádio, cinema, televisão e redes digitais seguem essa linha. Mas a entrada no complexo das comunicações de novos ramos exige uma reconfiguração que necessariamente afeta aquele cuja posição era solidamente central.

Por mais que se revele capaz de incorporar traços básicos do universo on-line, a televisão fica exposta ao novo padrão de “divisão do trabalho” que se cria com a expansão do sistema, formado por uma imprensa ultraconcentrada e apta a não só selecionar como a “carimbar” os eventos ditos importantes, atribuindo-lhes marcas de fácil identificação, como “mensalão”.

A televisão vem se revelando capaz de manter seus traços básicos – isso apesar de uma mudança mais funda do que parece, que é a substituição do “eletrodoméstico” receptor por equipamentos mais ágeis −; combina uma radiofonia dispersa, mas muito presente e com alto grau de disseminação e inculcação de temas e conteúdos, e uma ampla e multifacetada rede digital com sinais de crescente concentração e controle; e busca reorientar seu espaço nisso.

Uma das mais antigas e persistentes críticas à televisão consiste em vê-la como tendo sobre seus consumidores efeitos “alienantes” em relação à realidade circundante, ao cercá-los por um mundo que, nos termos de programa célebre, é “fantástico”. Na realidade, a tendência observada é no sentido de um realismo por vezes linear e brutal, mas, no conjunto, matizado de modo muito peculiar. Isso não resulta de alguma intenção aberta, mas decorre da própria posição de ponta ocupada por ela no complexo da comunicação, em especial na sua dimensão econômica. Longe de estar desatenta aos grandes movimentos da sociedade e de desviar a atenção deles, a televisão, mais do que qualquer outro meio, empenha-se em detectar as tendências emergentes e em capturá-las ao seu modo na programação. Nesse sentido, nada tem de marcadamente “conservadora”. Se quisermos brincar com os termos, ela é “leninista”. Está sempre um passo, mas nunca mais do que um passo, à frente das massas. Nisso, ela tem foco específico: capta os sinais da emergência de novos grupos no mercado e imediatamente os projeta na programação, ganhando com isso a iniciativa na definição social das suas novas identidades, desde logo como consumidores (de tudo, incluindo programação de TV). Mulheres, idosos (para não falar das indefectíveis crianças) e grupos étnicos de todo tipo são capturados nesse processo que não é de ajuste puro e simples ao mundo que já está dado, mas de preparação (seletiva) àquilo que se anuncia para vir. Reacionária? Não. Simplesmente conservadora? Também não. Prospectiva e atuante com relação às tendências que reforçarão o cenário no qual ela prospera? Sim, e nisso reside o principal segredo de sua vitalidade e longevidade.

Entretanto, o traço característico mais importante da televisão revela-se na decisiva conversão, que se deu ao longo da sua história, de meio no sentido de veículo de mensagens e programas para meio no sentido de ambiente de vida, de atmosfera em cujo interior se movem os homens. A imprensa nunca fez isso, nem se propôs a tanto. (É verdade que um grande filósofo escreveu, há dois séculos, que a leitura dos jornais é “a oração da manhã do homem moderno”. Mas esse autor, Hegel, era protestante: para ele essa “oração” era crítica e reflexiva, formadora de opinião própria – bem longe, portanto, da imprensa monocórdia e do avassalador “jornal nacional” da TV).

O cinema sempre soube preservar a condição de evento com significado próprio, fora da rotina. E o rádio, que a rigor tinha mais condições de preencher a condição de enquadramento ambiental (como mais de um déspota soube apreciar), acabou sendo atropelado pela própria televisão. É verdade que, sem o adestramento prévio das audiências propiciado pelo rádio, a televisão teria tido sérias dificuldades para se alojar no cotidiano. Trata-se de linguagem bem mais complexa e específica do que parece à primeira vista, com uma estética própria, que se manifesta em especial na publicidade. Quando, nos anos 1970, um programa infantil norte-americano de sucesso, Vila Sésamo, usava recursos desenvolvidos nas mensagens de propaganda comercial com intuito educativo (não vamos discutir aqui se por acaso existe uma televisão não “educativa”), não faltou quem comentasse que o programa tinha um ponto de notável sucesso, que simplesmente consistia em ensinar às crianças a técnica de ver TV.

A televisão é envolvente, mas de modo incompleto, insaturado. Não é tão envolvente quanto o som radiofônico nem tão direcional quanto a imagem cinematográfica. Podemos respirar, então: esse ambiente televisual sempre terá lacunas, pontos de fuga. Seus consumidores sempre terão como encontrar outros ares para respirar. Contudo, isso nada tem de espontâneo ou de automático. Muita coisa tem de mudar, na cultura e na sociedade, começando pelo sistema educacional, para que o fôlego do cidadão deixe de ser virtual.

A questão é sua organização como centro de poder econômico e político mais do que cultural. E aqui entramos no jogo aberto dos interesses, das reivindicações e da capacidade de organização – um jogo que mal começou a ser jogado entre nós. É de suspeitar que esse jogo será finalmente ganho pelo lado que melhor souber se mover simultaneamente nas duas dimensões envolvidas, a da natureza da televisão enquanto forma de comunicação e a do alcance de sua organização empresarial. Saber fazer isso sempre foi a grande vantagem dos detentores e controladores do sistema no qual a televisão se insere.

Do ponto de vista dos que buscam mudanças em profundidade nesse cenário, o truque consistiria em articular entre si, em “pôr em fase” os limites do meio e os do complexo empresarial. Isso envolveria operar simultaneamente no lado do consumo e no da produção (o que, de passagem, levaria a mobilizar juntos tanto a “clientela” quanto os “profissionais” como cidadãos). Fiquemos atentos ao próximo episódio.

Gabriel Cohn é Professor emérito da Faculdade de Filosofia da USP.



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