DEVASTAÇÃO URBANA CAUSADA POR CONFLITOS ARMADOS

Reconstruir entre ruínas: o traço sob ataque

Cidades destruídas pela guerra colocam em xeque não apenas a capacidade técnica da arquitetura e do urbanismo, mas também seus fundamentos éticos, políticos e sociais. Diante da devastação, projetar deixa de ser um exercício abstrato e passa a lidar diretamente com perda, memória e sobrevivência coletiva

O desejo de transformar o mundo acompanha a formação de muitos arquitetos e urbanistas. Mais do que projetar edifícios, essa profissão carrega a ambição de melhorar cidades, sistemas urbanos e condições de moradia. Trata-se de pensar a arquitetura como ferramenta social, capaz de alcançar diferentes grupos e realidades. Não se limita à habitação de interesse social, mas busca qualidade espacial para todos. Esse ideal, frequentemente silencioso, molda escolhas acadêmicas e profissionais. É nesse contexto que surgem reflexões sobre reconstrução, memória e responsabilidade histórica.

Durante a graduação em Arquitetura e Urbanismo, o Trabalho Final de Graduação costuma ser um momento decisivo. Conhecido como TFG no Brasil, ele exige do estudante uma tomada de posição teórica e prática. É o instante em que inquietações pessoais se encontram com problemas reais do mundo. Entre as propostas possíveis, algumas se voltam para temas técnicos, outras para questões sociais e políticas. Há também aquelas que dialogam diretamente com conflitos armados e seus impactos urbanos. Foi nesse campo que surgiu a reflexão sobre cidades destruídas pela guerra.

Cidades destruídas pela guerra colocam em xeque não a arquitetura e o urbanismo, mas também seus fundamentos éticos, políticos e sociais
Imagem de edifício civil danificado após ataque russo em Kiev, Ucrânia. Crédito: Shutterstock, foto de @kibri_ho, via ArchDaily. Acesso em 4 jan. 2026.

Entre 2012 e 2016, a cidade síria de Aleppo tornou-se símbolo da devastação urbana causada por conflitos armados. O confronto envolveu forças do regime sírio, liderado por Bashar al-Assad, e grupos opositores, incluindo a Coalizão Nacional e facções islamistas como a Frente Al Nusra. Além das incontáveis vidas perdidas, o embate resultou na destruição de bairros inteiros. Perdeu-se não apenas território, mas memória coletiva e patrimônio histórico. Edifícios emblemáticos foram reduzidos a escombros. A cidade, uma das mais antigas do mundo, teve sua identidade profundamente ferida.

Naquele período, a Inteligência Artificial ainda não se apresentava como ferramenta viável para estudos aprofundados de reconstrução. Mesmo assim, já existia o desejo de pensar alternativas para preservar o partido arquitetônico e a materialidade original dos edifícios atingidos. A proposta era, ainda que de forma teórica, refletir sobre métodos de resgate do patrimônio danificado. Lugares como a Grande Mesquita de Aleppo e os edifícios históricos dos souks (mercados populares) estavam no centro dessas reflexões. O objetivo não era apagar as marcas da guerra. Pelo contrário, buscava-se compreender como integrá-las à reconstrução.

Embora o tema não tenha sido escolhido como foco final do TFG, a inquietação permaneceu. A possibilidade de reconstruir cidades devastadas continuou sendo uma questão aberta. Aleppo passou a representar muitas outras cidades afetadas por conflitos não encerrados. Em diferentes partes do mundo, centros urbanos seguem sob ameaça constante. Bombardeios, instabilidade política e crises humanitárias dificultam qualquer planejamento de longo prazo. Ainda assim, pensar a reconstrução torna-se um ato de resistência.

Os processos de reconstrução em áreas de conflito costumam seguir etapas complexas e simultâneas. Avaliar danos estruturais é apenas o primeiro passo. Em seguida, surgem ações de estabilização, limpeza e leitura da infraestrutura crítica. Redes de água, energia e transporte precisam ser compreendidas antes de qualquer intervenção maior. Paralelamente, há a urgência da reconstrução habitacional. Tudo isso ocorre enquanto o risco de novos confrontos permanece presente.

A preservação do patrimônio histórico, nesse contexto, assume um papel central. Não se trata apenas de conservar edifícios antigos, mas de proteger símbolos de identidade coletiva. Mesmo fragmentos remanescentes carregam valor histórico e emocional. Tecnologias como escaneamento a laser e modelagem digital permitem registrar com precisão o que restou. Esses recursos possibilitam integrar partes originais a novas estruturas. Assim, o passado não é eliminado, mas reinterpretado.

Entretanto, a reconstrução de edifícios históricos envolve debates éticos profundos. Uma das principais questões é se uma edificação deve ser totalmente reconstituída ou mantida como ruína. Para alguns, a réplica do original representa continuidade cultural. Para outros, a ruína preservada funciona como testemunho permanente da violência sofrida. Não há resposta única ou universal. As decisões dependem do significado simbólico do bem e da vontade da comunidade local.

Diretrizes internacionais ajudam a orientar essas escolhas. A Carta de Veneza, de 1964, é um dos documentos mais importantes nesse campo. Ela estabelece princípios que priorizam a autenticidade e o respeito ao valor histórico dos monumentos. Segundo o documento, intervenções devem ser reconhecíveis e não devem falsificar a história. O traçado original e os elementos remanescentes devem ser preservados sempre que possível. Essas diretrizes continuam sendo referência global.

Apesar disso, quando se observa o campo normativo da preservação patrimonial, salta aos olhos uma lacuna incômoda. Não há, até o momento, um documento internacional que ofereça diretrizes claras e operacionais para a reconstrução patrimonial em contextos de entremeio ou pós-guerra. Tanto a Carta de Veneza quanto a Carta de Riga, referências centrais na conservação do patrimônio histórico, limitam-se a princípios amplos, como evocar, interpretar, restaurar ou reconstruir formas do passado, sem enfrentar a complexidade concreta das cidades feridas por conflitos armados, onde a urgência, a instabilidade e o trauma coletivo impõem decisões que vão muito além da técnica.

Em alguns casos, a reconstrução assume a forma de reabilitação arquitetônica. Nessa abordagem, estruturas antigas são incorporadas a edifícios com novas funções. O objetivo é garantir uso contínuo e sustentabilidade econômica. Museus, centros culturais e equipamentos públicos surgem a partir dessas intervenções. As marcas do passado permanecem visíveis. Dessa forma, memória e funcionalidade coexistem no espaço urbano.

Conflitos atuais reforçam a relevância desse debate. Na guerra entre Ucrânia e Rússia, ataques aéreos intensos continuam atingindo cidades ucranianas. Mesmo diante desse cenário, moradores de Kiev têm se mobilizado para preservar edifícios históricos. A restauração tornou-se um ato simbólico de resistência cultural. Recuperar fachadas e telhados é também afirmar identidade nacional. A arquitetura passa a ser linguagem política.

De acordo com reportagem publicada pelo jornal The Guardian em dezembro de 2025, grupos de voluntários lideram essas iniciativas[1]. Pessoas como Lesia Danylenko coordenam a recuperação de casas centenárias. Um exemplo citado é um edifício art nouveau de 1906, no distrito de Shevchenkivskyi. Pequenas conquistas, como instalar uma nova porta, são celebradas coletivamente. Festas de rua marcam essas vitórias cotidianas.

Para esses moradores, restaurar um prédio vai além da estética urbana. É uma forma concreta de afirmar que a cidade continua viva. Mesmo sob a ameaça constante de mísseis e drones, a rotina é reinventada. A reconstrução simboliza permanência diante da destruição. Trata-se de manter uma sensação de normalidade possível. A arquitetura, nesse contexto, torna-se gesto de coragem. No entanto, nem todas as ameaças ao patrimônio vêm das bombas. Ativistas em Kiev denunciam que interesses imobiliários e corrupção também aceleram a destruição de edifícios históricos.

Algumas demolições ocorrem sob justificativas falsas. Autoridades públicas, muitas vezes, não intervêm. A guerra fragiliza mecanismos de proteção institucional. O patrimônio fica duplamente vulnerável. Muitos defensores do patrimônio hoje estão ausentes. Alguns foram deslocados, outros estão na linha de frente do combate. Há também aqueles que perderam a vida. Ainda assim, novos grupos assumem essa responsabilidade. Casas restauradas passam a abrigar centros culturais e espaços comunitários. Mesmo sem cessar-fogo, a reconstrução segue acontecendo. A cidade resiste em fragmentos.

Situação semelhante ocorre em outras regiões do mundo. No Sudão, a guerra iniciada em abril de 2023 devastou áreas inteiras do país. O conflito envolve o Exército Sudanês e as Forças de Apoio Rápido. A capital, Cartum, foi profundamente afetada. Edifícios públicos e residenciais ficaram em ruínas. A população civil enfrenta condições extremas. Após mais de dois anos de confrontos, surgiram os primeiros esforços de reconstrução. Trabalhadores e voluntários começaram a remover escombros. Árvores caídas são reerguidas e redes elétricas, reparadas. Trata-se de um processo lento e perigoso. Muitas áreas ainda apresentam bombas não detonadas. O risco é constante para quem atua no local.

Segundo reportagens internacionais, a campanha de reconstrução em Cartum é liderada por órgãos governamentais e grupos de jovens voluntários[2]. A prioridade inicial são hospitais, escolas e serviços públicos. A intenção é restabelecer condições mínimas de funcionamento da cidade. Mesmo com recursos limitados, a mobilização é significativa. A reconstrução surge como esperança coletiva.

Esses exemplos revelam que reconstruir em meio à guerra é possível, embora extremamente complexo. Arquitetura e urbanismo assumem papéis que vão além do técnico. Eles se tornam instrumentos de memória, identidade e resistência. Cada edifício recuperado representa uma escolha política e cultural. Não se trata de esquecer o passado, mas de enfrentá-lo. O espaço construído guarda essas narrativas.

Diante desse cenário, pensar métodos ágeis, econômicos e eficientes de reconstrução torna-se urgente. Tecnologias contemporâneas ampliam possibilidades de atuação. Ao mesmo tempo, decisões devem respeitar valores históricos e sociais. A boa arquitetura, quando acessível, contribui para a reconstrução do tecido urbano e humano. Em cidades feridas pela guerra, projetar é também um ato de cuidado. É a tentativa de impedir que a destruição seja definitiva.

É nesse vazio normativo que emergem as experiências reais de reconstrução, revelando que o processo não é apenas arquitetônico, mas profundamente humano. Reconstruir em meio à guerra exige coragem, envolve tensão constante e convoca escolhas coletivas sobre o que merece ser protegido e transmitido. Trata-se de preservar não apenas edifícios, mas a materialidade da cultura, da sociabilidade e da memória urbana. Entre ruínas e novas estruturas, a arquitetura se afirma como campo de resistência e cuidado, insistindo em manter aberta a possibilidade de futuro mesmo quando o presente permanece ameaçado.

 

Lucas Silva Pamio é mestre em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho. Atua como pesquisador, arquiteto e artista visual.

 

 

[1] HARDING, Luke. Saving Kiev’s heritage: a city rebuilding itself in the shadow of war. The Guardian, 28 dez. 2025. Disponível em: https://www.theguardian.com/world/2025/dec/28/Kievs-heritage-rebuilding-shadow-of-war. Acesso em: 01 jan. 2026.

[2] Sudaneses lutam para reconstruir capital devastada pela guerra. Folha PE, 4 meses atrás. Disponível em: https://www.folhape.com.br/noticias/sudaneses-lutam-para-reconstruir-capital-devastada-pela-guerra/432672/. Acesso em: 01 jan. 2026.

 

Leia mais sobre o tema: