As bravatas do bolsonarismo e as exportações brasileiras para a China

OBSERVATÓRIO DA ECONOMIA CONTEMPORÂNEA

As bravatas do bolsonarismo e as exportações brasileiras para a China

por Giorgio Romano Schutte e Reinaldo Campos
17 de junho de 2020
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Existe a imagem errada de uma China que se especializou em manufatura para se tornar a fábrica do mundo e, em troca, importa produtos agrícolas, seguindo assim a máxima de especialização no comércio internacional. Na realidade, porém, a China investiu muito para aumentar a produção e a produtividade no setor agrário. Acompanhe no novo artigo do Observatório da Economia Contemporânea

Em meio à turbulência com a saída de capitais de curto prazo da economia nos últimos tempos, a balança comercial brasileira se manteve relativamente estável. Em grande parte, devido à persistência das exportações para a China, que chegaram, em maio, a representar 40% do total nacional,frente a um patamar de 35% no mesmo mês do ano passado. Os destaques continuam sendo a soja, o petróleo e o minério de ferro. O bom desempenho do setor primário também camuflou mais uma vez a contínua perda dos industrializados na pauta exportadora.

A pergunta que surge é até que ponto essa relação é sustentável diante das crescentes manifestações pouco amistosas por parte de autoridades do governo brasileiro em relação ao país asiático. As contradições entre os discursos político-ideológicos à la Trump e a realidade de uma crescente simbiose na relação econômica entre o Brasil e a China podem refletir uma deliberada ambiguidade ou uma esquizofrenia com potencial disruptivo.

Há algum tempo, a própria representação chinesa no Brasil, por meio da sua Embaixada, critica as gratuitas ofensas, mas sem qualquer consequência prática. No dia 22 de maio deste ano, o renomado jornal South China Morning Post publicou um artigo a respeito da necessidade da China diminuir sua dependência de importações de soja dos EUA e do Brasil, considerando que as relações com ambos teriam piorado muito. A reportagem menciona a necessidade de se apostar em uma política de diversificação de fontes, mencionando Rússia e países integrantes da Iniciativa Cinturão e Rota (Belt and Road Initiative), também conhecida como Nova Rota da Seda. Nesse contexto, o prof. Li Wei da Universidade Renmin de Beijing citou explicitamente as infundadas críticas do governo brasileiro às políticas adotadas pela China para conter a pandemia do novo coronavírus.

Mas qual é exatamente o grau de interdependência que se criou em torno da soja entre Brasil e China?

Existe a imagem errada de uma China que se especializou em manufatura para se tornar a fábrica do mundo e, em troca, importa produtos agrícolas, seguindo assim a máxima de especialização no comércio internacional. Na realidade, porém, a China investiu muito para aumentar a produção e a produtividade no setor agrário.

Dados compilados pela FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura, em português) mostram que, com uma população bem acima de um bilhão de habitantes, a China tornou-se a partir de 2016 não somente o maior consumidor, mas também o maior produtor de alimentos em termos de volume. No caso dos cereais, o país aumentou sua produção anual de 249 milhões de toneladas, em 1978, para 610 milhões, em 2018. Considerando a produção por habitante, os números continuam impressionando: de 259,6kg/hab/ano em 1978 para 437,4kg/hab/ano em 2018. No mesmo período, a participação da População Economicamente Ativa (PEA) empregada na agricultura recuou de 70,5% para 26,9%. Esses números refletem políticas agrícolas persistentes ao longo dos anos priorizando o uso intenso de tecnologias, aumento da área irrigada, uso intensivo de fertilizantes e aumento da capacidade de geração e consumo de energia nas áreas rurais. Isso foi fundamental para que a China pudesse alcançar o conhecido crescimento econômico nas últimas três décadas.

Acontece, entretanto, que houve uma deliberada política de focar na expansão da produção de milho, trigo e arroz, estagnando a produção de soja, como se observa na tabela a seguir.

 

Tabela 1 – Produção e importação de açúcar, arroz, milho, soja e trigo, em milhões de toneladas, pela China. Comparação entre 1995 e 2018

Ano Trigo Milho Arroz Soja
  Prod.   Imp. Prod.   Imp. Prod.   Imp. Prod.   Imp.
1995 102,2 12,4 112 3 126,9 0,8 13,50 0,8
2018 126,8 4,50 222,6 4,65 140,8 4,9 15,95 98,5
Fonte: elaboração própria baseada em dados da FAO/STAT (2019), OCDE (2019)

 

Assim, a China buscou e conseguiu uma autossuficiência de cerca 95% no caso de trigo, milho e arroz, mantendo a dependência de importação coeficientes mínimos. Já a produção de soja cresceu apenas marginalmente, gerando, em consequência, uma explosão das importações desta oleaginosa.

Tal aumento drástico das importações de soja reflete a expansão da produção pecuária chinesa, que dobrou entre 1990 e 2018, de 448,56 milhões de toneladas para 197,77 milhões de toneladas de carnes de boi, suínos, aves, ovinos peixes e leite conforme dados publicados pela OCDE. As expectativas futuras apontam para a continuidade desse aumento do uso da soja, ligada a uma mudança no padrão de consumo do mercado interno chinês, priorizando carnes, aves, ovos, produtos lácteos e óleos,em detrimento dos cereais tradicionais. Esse movimento é fruto do crescimento da renda e do processo de urbanização do país.

Qual motivo levou a China a deliberadamente escolher importar soja, tendo em vista deque se trata, em verdade, de uma oleaginosa de origem chinesa?

O simples motivo é que cultura da soja ocupa extensas faixas de terra, consome muita água e aloca pouca mão de obra.  Há de se lembrar que a China, com quase 20% da população mundial, detém somente 8% das terras aráveis (cerca de 122 milhões de hectares) e 5% da água potável do planeta. Ainda assim, o país consegue produzir 95% dos alimentos que consome. A escolha por importar soja faz parte dessa equação. Por isso, a soja sozinha representava, em 2018, 74% da tonelagem total de grãos importada pelo país.

Se a China fosse produzir a soja que importou em 2018, precisaria ter, pelo menos, 40 milhões de hectares (considerando sua produtividade média) a mais de terra do que tem hoje, algo em torno de 33% de sua área arável, sem contar a quantidade extra de água necessária, da ordem de 171 trilhões de litros (considerando consumo de 1.800 litros de água para produzir um quilo de soja). Fica evidente que a China não tem condições em curto prazo de diminuir sua dependência das importações maciças de soja.

O que a China fez, de outro lado, foi montar uma enorme capacidade de processamento de soja com mais de 90 milhões de toneladas/ano para, com isso, gerar renda e emprego internamente. Para tanto, o país prioriza importara oleaginosa em grãos, em detrimento de óleo e farelo, conforme se verá em seguida.

 

Quem produz soja?

Conforme pode ser observado na tabela 2, a produção de soja está altamente concentrada nas Américas, nos EUA e no Cone Sul, em particular o Brasil.

 

Tabela 2 – Produção de soja por país e participação no total mundial em 2018 (em milhões de toneladas e %)

País Produção Em %
EUA 123,66 35,5
Brasil 117,89 33,8
Argentina 37,79 10,8
China 14,19 4
Índia 13,79 3,95
Paraguai 11,05 3,1
Canadá 7,27 2
Mundo 348,71 100
Fonte: FAOSTAT

Dados referentes a safra 2019/2020 mostram que houve uma diminuição da produção nos EUA. Como consequência, o Brasil se tornou pela primeira vez o maior produtor mundial, com cerca de 120 milhões de toneladas de soja, contra 96 milhões de toneladas dos EUA.  Tal redução da produção norte-americana já é, em parte, reflexo dos atritos entre a China e os EUA. Se antecipando a uma possível queda da demanda chinesa, houve um movimento de substituição produtiva para o milho, que, nos EUA, é utilizado também para a produção de etanol.

Ao assumir a dependência da importação da soja pela China, o Brasil entrou em uma trajetória de incremento da produção, justamente para atender a essa demanda, dedicando grande parte da sua área cultivada para este fim. De acordo com dados do Conab a exportação de 66 milhões de toneladas corresponde a quase 20 milhões de hectares plantadas. E, segundo a Embrapa a área cultivada no Brasil está na casa de 65,91[1]milhões de hectares, a área destinada a soja soma 53%, e a área destinada a soja que vai para a China 30% do total.

A tabela 3 mostra a expansão em toneladas da exportação de soja brasileira entre 2000 e 2018. Revela também como o Brasil se encaixa na política chinesa de priorizar a importação de soja não-processada. A participação de óleo e farelo caiu para menos 0,5%, advindo de um patamar já baixo, de 7,31%. Observa-se, portanto, que o processo de primarização da pauta exportadora brasileira se deu até dentro do complexo da soja.

 

Tabela 3 – Exportação brasileira de soja em grãos, farelo e óleo para a China, em milhares de toneladas 2000-2018

Ano Óleo de soja Farelo de Soja Soja em grãos % de Óleo + Farelo em relação a Soja em grãos
2000 63.049 67.389 1.783.628 7,31
2005 365.310 5.000 7.131.040 5,19
2010 935.964 19.064.458 4,91
2015 205.246 1.600 40.925.507 0,51
2018 229.025 89.053 68.556.624 0,46
Fonte: Ministério da Economia/Comex. Elaboração própria

 

Se, de um lado, a produção de soja no Brasil se tornou peça chave para as políticas de segurança alimentar e contribuiu para a estabilidade social da China desde o início dos anos 2000, de outro, se tornou o principal produto de exportação do Brasil, representando hoje, sozinho, mais de  20% do total, como pode ser visto na tabela 4.

 

Tabela 4 – % da soja no total das exportações do Brasil

2011 2013 2015 2017 2019 2020 jan-maio
9,4% 12,8% 14,6% 14,6% 14,5% 22,4%
Fonte: Ministério da Economia/Comex. Elaboração própria

 

Nos primeiros 5 meses de 2020, em meio a uma pandemia, houve um avanço na exportação de soja, chegando a 34,97 milhões de toneladas (+37 % com relação ao mesmo período no ano passado) das quais 73% destinadas à China. Por felicidade dos exportadores, a demanda mundial, puxada pela China, segurou os preços em dólar e fez os ingressos em reais aumentaram. Entre o início de fevereiro e o de junho, o preço de um saco de 60kg do grão se manteve estável em torno de US$ 18,70, mas aumentou em reais de R$ 79,5 para R$ 100,8[2]. Assim, enquanto parte do bolsonarismo se junta às críticas a China, uma parte da base que o ajudou eleger agradece ao antigo Império do Meio.

Tal processo de interdependência dos dois países teve início no ano 2000, quando a China ingressou na Organização Mundial do Comércio (OMC).Naquele momento, o mercado chinês absorvia apenas 5,5% do total da soja produzida no Brasil. Com o passar dos anos, em 2019, chegou a consumir 50,3% da safra brasileira. Há, portanto, uma relação simbiótica que não apresenta qualquer sinal de afrouxamento. Assim, o Brasil não teria a quem vender seus produtos se a China tivesse problemas em suas compras; a China, por sua vez, enfrentaria dificuldades se o Brasil reduzisse sua produção.

Tudo indica, no entanto, que a China está bastante confortável com essa relação. A tabela 5 mostra o aumento da participação brasileira nas importações totais chinesas.

 

Tabela 5 – Origem da soja importada pela China de 2015 a 2018

2015 2016 2017 2018
Brasil 50,7% 44,7% 55,5% 80,9%
EUA 35% 43,5% 34% 9,88%
Argentina 11,4% 8,7% 6,6% 3,97%
Canadá 1,5% 2,2% 2,1% 3,88%
Uruguai 0,92% 0,5% 1,36%
Rússia 0,38% 0,38% 0,72%
Fonte: https://oec.world/en/profile/country/chn/#trade-products
Obs: o ano de 2018 foi atípico para a exportação dos EUA

 

Estando a produção do cereal concentrada nos EUA e no Brasil, a Chinatem poucas chances de diversificar, em curto prazo, seus principais fornecedores. Na verdade, o que se verificava é que a chamada “guerra comercial” entre as duas potências estava gerando oportunidade para a produção brasileira. Ao mesmo tempo, a perspectiva do acordo comercial firmado no início deste ano entre as duas superpotências, chamado de Fase 1, apontava para o contrário: um compromisso da China em aumentar a importação de soja dos EUA em detrimento do Brasil. Ou seja, a lógica é que os exportadores de soja do Brasil tivessem vantagem em conflitos comerciais entre a China e os EUA. Mas isso tudo de forma limitada, porque, evidentemente, o Brasil ou o Cone Sul como um todo não teriam como substituir a produção dos EUA.

Há de se observar ainda que o Brasil se tornou também peça chave na política de importação de petróleo da China, a maior importadora mundial deste combustível. A participação do Brasil no total das importações chinesas aumentou de 2% em 2014 para quase 8% em 2019. Assim, o Brasil, neste caso, está disputando o terceiro lugar, com Angola e Iraque, atrás de Arábia Saudita e Rússia. Na pauta exportadora brasileira para a China petróleo já superou o tradicional minério de ferro.

Some-se a essas duas relações comerciais as oportunidades que o Brasil oferece para o investimentos produtivos chineses em diversas áreas, em particular energia e infraestrutura, e se chegará à inevitável conclusão: tudo indica que a China sabe que, no caso do Brasil, as retóricas anti-China não têm base entre os setores econômicos nem entre os atores sociais, ao contrário do que ocorre em relação aos EUA.

Assim, as chances de a retórica agressiva do governo Bolsonaro contaminar as relações econômicas e comerciais entre Brasil e China são mínimas, inclusive porque se trata de um padrão de relacionamento que agrada àqueles que convivem bem com a primarização da economia brasileira, ou seja, àqueles que mandam na política econômica do atual governo.

A curto prazo, por conseguinte, tudo indica que os exportadores de soja do Brasil não têm com que se preocupar. Um acirramento do conflito EUA-China vai resultar em ganhos marginais em volume e preço; uma eventual implementação do Acordo da Fase 1 gerará uma perda igualmente marginal. Há de se considerar, ainda, que, como foi explicado, a perspectiva é de um aumento do total da demanda chinesa.

Dito isso, é de se presumir, por outro lado, que a China não esteja confortável com tamanha dependência, e que, a médio prazo, buscará diversificar a origem da importação de soja, estimulando com capital e tecnologia a produção em outros países asiáticos, africanos e até da Europa do Leste.

 

Giorgio Romano Schutte é professor Associado Universidade Federal do ABC e membro do Observatório da Política Externa e da Inserção Internacional do Brasil (OPEB).

Reinaldo Campos é doutorando em Economia Política Mundial da UFABC.

 

[1]Nesse total não estão contabilizadas as pastagens. Há de se observar ainda que a mesma área que está  com soja no verão pode ter trigo, milho, girassol, aveia ou outra cultura no inverno.

[2] Preços referentes à soja de Paraná . Fonte: Cepea/Esalq.

 

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O Observatório da Economia Contemporânea tem como foco a discussão da economia nas suas várias dimensões; estrutural e conjuntural, empírica e teórica, internacional e doméstica. Sua ênfase, porém, será na política econômica, com acompanhamento aprofundado da conjuntura internacional e da economia brasileira no governo Bolsonaro. Fazem parte do Observatório, economistas e cientistas sociais, professores e pesquisadores de diversas instituições, listados a seguir: Alex Wilhans, Alexandre Barbosa, André Calixtre, André Biancarelli, Angelo Del Vecchio, Antonio Correa de Lacerda, Bruno De Conti, Carolina Baltar, Claudio Amitrano, Claudio Puty, Clelio Campolina, Clemente Ganz Lúcio, Cristina Penido, Daniela Prates, David Kupfer, Denis Maracci Gimenez, Elias Jabbour, Ernani Torres, Esther Bermeguy, Esther Dweck, Fabio Terra, Fernando Sarti, Giorgio Romano, Guilherme Magacho, Guilherme Mello, Isabela Nogueira de Moraes, Ítalo Pedrosa, João Romero, Jorge Abrahão, José Celso Cardoso, José Dari Krein, Luiz Fernando de Paula, Luiz Gonzaga Belluzzo, Marcelo Manzano, Marcelo Miterhof, Marcos Costa Lima, Marta Castilho, Maryse Farhi, Nelson Barbosa, Paulo Nogueira Batista Jr., Pedro Barros, Ricardo Carneiro, Tânia Bacelar e William Nozaki.



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