As dez pragas do capitalismo tardio e a saúde global no século XXI
A convergência entre crises econômicas, sanitárias, geopolíticas e tecnológicas exige não apenas diagnósticos lúcidos, mas respostas éticas, coletivas e sustentáveis
Do colapso sanitário ao autoritarismo digital, o economista Nouriel Roubini alerta para a convergência de múltiplas crises que empurram o mundo para uma nova era de depressão, instabilidade global e ameaças à saúde coletiva
A pandemia de COVID-19 escancarou a íntima ligação entre saúde pública, instabilidade econômica e fragilidade democrática. Para o economista Nouriel Roubini, conhecido por prever a crise financeira de 2008, o que vivemos é apenas o prelúdio de uma crise muito maior, sustentada por dez forças estruturais que ameaçam desencadear uma nova Grande Depressão ao longo da próxima década.
Acompanhei Nouriel Roubini durante sua recente participação no ciclo Fronteiras do Pensamento, em São Paulo, onde reforçou com clareza o que suas análises já vêm indicando: a convergência entre crises econômicas, sanitárias, geopolíticas e tecnológicas exige não apenas diagnósticos lúcidos, mas respostas éticas, coletivas e sustentáveis. Roubini é professor de economia na NYU Stern School of Business, foi economista-chefe do FMI e conselheiro econômico da Casa Branca. Sua leitura, desenvolvida em obras como Megathreats: Ten Dangerous Trends That Imperil Our Future (2022) e diversos artigos no Project Syndicate, descreve um colapso que não é episódico, mas sistêmico. As “Dez tendências mortais”, ou “Dez Ds”, constituem uma verdadeira tempestade perfeita do capitalismo tardio.
Roubini não é especialista em saúde pública, mas sua análise das pandemias como fator de crise econômica é notável. Estudos recentes reforçam que as previsões de Roubini não se limitam ao plano teórico. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 7 milhões de vidas foram perdidas para a COVID-19 em todo o mundo, com colapsos parciais ou totais em sistemas de saúde de mais de 60% dos países. A infodemia, a sobrecarga de informações falsas e contraditórias, prejudicou a resposta pública em ao menos 80 nações. No Brasil, um levantamento do InternetLab e FakeCheck identificou mais de 1 milhão de postagens falsas sobre a pandemia circulando entre 2020 e 2022. A desinformação se aliou à polarização política: o relatório Edelman Trust Barometer (2024) aponta que apenas 42% da população global confia em seus governos, enquanto 24 dos 28 países avaliados registraram crescimento na percepção de polarização extrema. A falha de cooperação internacional também foi evidente: apenas 16% das doses de vacina produzidas nos seis primeiros meses de 2021 foram destinadas a países de baixa renda. Durante os primeiros meses da pandemia, o mundo também enfrentou uma corrida desesperada por máscaras, respiradores e equipamentos básicos de proteção, expondo a ausência de estoques estratégicos e a fragilidade das cadeias logísticas globais. A chamada “guerra dos portos”, com bloqueios, restrições de exportação e concorrência desigual por insumos médicos, revelou o despreparo preventivo até mesmo das maiores potências econômicas.

Esses dados evidenciam como a ausência de coordenação, o desmantelamento da confiança pública e a vulnerabilidade dos sistemas de saúde contribuíram diretamente para o agravamento dos efeitos da pandemia e confirmam os padrões de risco antecipados por Roubini. Além disso, a hesitação vacinal aumentou significativamente no mundo, com surtos recentes de sarampo nos Estados Unidos e de poliomielite em áreas com baixa cobertura vacinal. Segundo dados da OMS, a cobertura global da terceira dose da vacina DTP (difteria, tétano e coqueluche), considerada um indicador-chave da confiança vacinal, caiu de 86% em 2019 para 81% em 2021, o menor nível desde 2008. No Brasil, o índice de vacinação contra poliomielite entre crianças menores de um ano caiu de 96% em 2015 para 70% em 2021, gerando alertas de risco de reintrodução da doença. A saúde mental coletiva também se deteriorou: a OMS estima que os transtornos de ansiedade e depressão aumentaram em mais de 25% globalmente após a pandemia. A própria organização alerta que, se não houver resposta adequada, esse número pode crescer ainda mais até 2030, tornando-se uma das principais causas de incapacitação no mundo segundo projeções recentes. A insegurança diante de políticas contraditórias, o crescimento das perseguições a minorias, os fluxos migratórios forçados e a intensificação de conflitos regionais compõem um cenário de instabilidade crônica, que reforça os riscos apontados pelo economista or Roubini e exige respostas coordenadas, humanas e sustentáveis. Em artigos como “The Coming Doom Loop”, publicado na Foreign Affairs (2023), ele aponta medidas fundamentais para mitigar os efeitos tanto sanitários quanto econômicos:
- Resposta rápida e coordenada com lockdowns, distanciamento social e uso de máscaras;
- investimentos robustos em infraestrutura de saúde pública;
- aceleração do desenvolvimento e distribuição de vacinas;
- coordenação internacional e apoio a países em desenvolvimento;
- garantia de cadeias de suprimento para medicamentos e equipamentos;
- suporte econômico e proteção social ampla, evitando colapsos de demanda;
- comunicação pública transparente para manter a confiança social.
Para Roubini, pandemias não são meras interrupções temporárias: assim como observado em crises sanitárias anteriores, como a epidemia de SARS em 2003 e a pandemia de H1N1 em 2009, esses eventos expõem e aceleram fragilidades já existentes nos sistemas socioeconômicos e de governança institucionais. A pandemia de COVID-19, portanto, não foi a origem, mas sim um catalisador da crise estrutural que já vinha se formando.
E quais seriam os “Dez Ds” como indicadores da depressão estrutural? Na análise de Roubini, o sistema global está sendo corroído por dez vetores interdependentes:
- dívidas, déficits e inadimplência (debts, deficits and defaults): níveis insustentáveis de endividamento público e privado, impulsionados por déficits fiscais monetizados, que ameaçam a solvência de estados e corporações.
- bombas demográficas (demographic time bombs): o envelhecimento populacional, especialmente em países desenvolvidos, pressiona sistemas de saúde e previdência social já colapsados.
- riscos deflacionários (deflationary risks): a baixa produtividade, desemprego estrutural e a queda nos preços das commodities provocam estagnação prolongada, mesmo com políticas monetárias expansionistas.
- desvalorização monetária (debasement of currency): em meio a choques negativos de oferta e déficits persistentes, a perda do valor das moedas corrói o poder de compra e a confiança.
- disrupção digital (digital disruption): a automação e a inteligência artificial substituem empregos humanos, acentuando a desigualdade e a polarização social.
- desglobalização (deglobalization): tensões comerciais, relocalização de indústrias e protecionismo enfraquecem cadeias produtivas globais, inaugurando uma nova era de regionalização econômica.
- reação à democracia (democracy backlash): a desigualdade crescente, a perda de empregos e o ressentimento social alimentam regimes populistas, autoritários e xenófobos.
- rivalidade estratégica duopolística (duopolistic strategic rivalry): a nova Guerra Fria entre EUA e seus aliados versus o eixo China-Rússia-Irã-Coreia do Norte ameaça a estabilidade geopolítica e o multilateralismo.
- rivalidade digital (digital rivalry): tecnologias emergem como instrumentos de poder nacional. A fragmentação digital entre blocos rivais torna o ciberespaço um novo campo de batalha.
- desastres humanos e ambientais (deadly disasters): pandemias, mudanças climáticas e crises ecológicas criam estados falidos, guerras civis e migrações em massa, ampliando o caos global.
A conjuntura geopolítica recente também reforça a atualidade dos alertas de Roubini. O retorno do trumpismo como força política relevante nos Estados Unidos e suas políticas econômicas nacionalistas e tarifárias contribuem para a intensificação da desglobalização e da instabilidade financeira internacional. Em artigo anterior publicado no a revista Le Monde Diplomatique Brasil, analisei as conexões entre o trumpismo, os transtornos de oposição e desafio (TOD) e o colapso da liderança democrática, reforçando a importância de interpretar esses fenômenos como parte de uma crise ética e política global. O anúncio recente de novas e impactantes tarifas, o tarifaço trumpista, e o uso da política externa como arma econômica evidenciam a previsibilidade e a coerência entre os “Dez Ds” e os eventos em curso, em especial os riscos associados à desglobalização, à rivalidade estratégica e ao backlash democrático.
Essas tendências não afetam todas as regiões da mesma forma. Na América Latina, e especialmente no Brasil, os “Dez Ds” se materializaram simultaneamente nos últimos anos: pandemia mal gerida, polarização política, militarização do discurso público, desmonte de políticas sociais, cortes na ciência e saúde, desinformação digital e crise ambiental. O sul global tornou-se o terreno mais fértil para a aceleração das ameaças interseccionais previstas por Roubini, com vulnerabilidades econômicas, institucionais e sanitárias agravadas por um modelo de desenvolvimento historicamente desigual.
No caso brasileiro, por exemplo, entre 2019 e 2022, o investimento federal em saúde caiu cerca de 20% em termos reais, comprometendo a capacidade de resposta do SUS durante a pandemia e aprofundando desigualdades regionais. Durante a pandemia, a educação brasileira vivenciou um colapso profundo: segundo o IBGE/INEP, o Brasil registrou cerca de 178 dias de escolas fechadas em 2020, o maior período de interrupção escolar no mundo e as avaliações do Inep mostraram que a proporção de crianças de 7 anos sem capacidade de leitura saltou de 15% para 34% entre 2019 e 2021, refletindo perdas educacionais e aumento da desigualdade. Além disso, conforme reportado em julho de 2025, o Ministério da Educação suspendeu a compra de livros didáticos de ciências, geografia e história para o ano letivo de 2026, priorizando apenas português e matemática, o que pode deixar cerca de 30 milhões de alunos da rede pública sem materiais essenciais no início do próximo ano letivo.
Do prognóstico à ação: o que propõe Roubini? Apesar do tom sombrio de suas previsões, Roubini o economista apresenta um conjunto de diretrizes para enfrentar a crise com alguma resiliência. São recomendações que combinam medidas emergenciais e reformas estruturais:
- Políticas monetárias acomodatícias e estímulos fiscais anticíclicos;
- Investimentos em inovação, educação e sustentabilidade;
- Reestruturação de dívidas insustentáveis, evitando colapsos bancários;
- Fortalecimento de redes de proteção social, especialmente para os mais vulneráveis;
- Regulação mais firme dos mercados financeiros, coibindo especulação e fraudes;
- Coordenação internacional para enfrentar riscos globais como pandemias e mudanças climáticas;
- Reforma dos sistemas financeiros e tributários para maior transparência e equidade.
Diante da encruzilhada do século XXI, Roubini não oferece soluções fáceis. Seu alerta ecoa perspectivas críticas contemporâneas, ainda que em tom mais sombrio. Autores como economista ítalo-americana, professora na University College London, Mariana Mazzucato, que defende um Estado inovador e estratégico; Thomas Piketty, economista francês, que propõe reformas redistributivas para combater a desigualdade global como impostos progressivos globais sobre grandes fortunas; Amartya Sen, filósofo e economista indiano, Nobel de economia, cuja abordagem sobre capacidades humanas reforça a justiça social como critério ético de desenvolvimento; ou Kate Raworth, economista britânica com sua proposta de economia do donut que integra limites planetários e bem-estar humano e assegura justiça social, oferecem caminhos alternativos ou complementares às análises de Roubini.
A interlocução entre essas abordagens amplia o campo interpretativo e reforça a urgência de respostas estruturais, sustentáveis e cooperativas, contribuindo para uma educação crítica voltada à cidadania global. Seu alerta é duro: se não forem enfrentados com coragem e cooperação, os “Dez Ds” nos conduzirão a uma depressão prolongada, marcada por desemprego, conflito e colapso ambiental. A pandemia, nesse cenário, foi apenas o começo.
A crise da COVID-19 expôs não apenas fragilidades biológicas, mas falhas políticas, éticas e civilizacionais. As próximas pandemias, como alertam a OMS e diversos epidemiologistas, não são uma possibilidade distante, mas uma certeza em preparação. O custo de ignorar os sinais –– humanos, ambientais e econômicos –– é alto demais.
Diante disso, o desafio colocado não é apenas econômico, mas civilizatório, pois envolve consequências diretas sobre as democracias, a convivência social e as futuras gerações, que já vivem os efeitos de crises interconectadas como a desinformação, o colapso ambiental e o enfraquecimento das instituições públicas. Trata-se de repensar as bases do sistema global, substituindo a lógica da maximização do lucro pela sustentabilidade social e ecológica. Nesse contexto, reconstruir sistemas públicos de saúde, como o Sistema Único de Saúde (SUS) no Brasil, sob a lógica do bem comum, torna-se uma urgência inegociável, sobretudo frente ao avanço de modelos privatistas, tecnocráticos e excludentes. Para enfrentar as crises futuras, é necessário adotar estratégias práticas como a criação de reservas nacionais de insumos médicos essenciais, o fortalecimento de redes internacionais de vigilância sanitária, a valorização da ciência e da comunicação pública confiável, além de garantir financiamento estável para sistemas universais de saúde.
A cooperação internacional, baseada em princípios de solidariedade e justiça global, também deve ser uma prioridade, assegurando que países em desenvolvimento não fiquem novamente à margem em futuras emergências sanitárias. Igualmente importante é a construção de uma governança mundial mais robusta e transparente, com mecanismos multilaterais de compliance e coordenação efetiva entre nações, prevenindo respostas fragmentadas e ineficientes. O risco de não fazê-lo é mergulhar em uma crise sem retorno, com consequências humanas, ambientais e civilizacionais de escala irreversível.
Em tempos de reconstrução, não é apenas o investimento em saúde que deve ser ampliado, mas também o compromisso com uma educação integral, crítica e voltada à cidadania global. Desde as salas de aula e centros de pesquisa até os gabinetes políticos e fóruns multilaterais, o compromisso com o bem comum precisa deixar de ser um discurso e tornar-se uma prática concreta. Pois, como lembra a tradição da saúde pública, prevenir é sempre mais eficaz, e mais justo, do que remediar.
A recente decisão do governo brasileiro de suspender a compra de livros didáticos de história, geografia e ciências para o ano letivo de 2026 evidencia o risco de uma visão tecnocrática e utilitarista da educação, que ignora o papel dessas disciplinas na formação de sujeitos conscientes, capazes de compreender contextos históricos, geopolíticos e ambientais, justamente os saberes essenciais para enfrentar os ‘Dez Ds’ de Roubini. Trata-se de uma distopia cada vez mais palpável, que poderá se concretizar se não houver um pacto global por justiça sanitária, responsabilidade política e resiliência planetária.
Rubens Harb Bollos é médico e mentor. É mestre e doutor (Ph.D) em Ciências pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) e Pós Doutor em Biologia do Desenvolvimento (USP/ICB). É também counsellor biográfico formado pela E.L.Estudos Biográficos/General Anthroposofical Section (Suiça) e em Transformação de Conflitos, pela Cátedra para Estudos de Paz da UNESCO (Innsbruck University,Austria). É analista reichiano clinico-corporal pelo IBAR/SIAR (Itália) e professor convidado da Fundação Dom Cabral. É presidente-fundador da Associação Brasileira de Medicina Personalizada e de Precisão.

