‘As instituições estão funcionando normalmente’ - Le Monde Diplomatique

TENDÊNCIAS AUTORITÁRIAS NO TEMPO PRESENTE

‘As instituições estão funcionando normalmente’

por Ricardo Duwe
6 de dezembro de 2018
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Mas são muito frágeis. Depois da implementação de programas sociais e políticas públicas, o cenário político parece estar num ‘lento, gradual e inseguro’ caminho para a institucionalização do autoritarismo. Esse cenário não se configurou do dia para a noite, nem se trata de um dilema exclusivamente brasileiro

O futuro era outro. Em 2012, o Brasil ultrapassou o Reino Unido e se tornou a 6a maior economia do mundo, com estimativas para ser a 5a maior até 2023. Em 2014, o país saía do mapa da fome da ONU, resultado de suas políticas públicas voltadas para o combate deste problema social, as quais passaram a ser citadas como referência internacional. Na época, a taxa de desemprego caiu para 4,3%, o menor índice da história do país. Em 2015, o renomado historiador Carlos Fico, ao dissertar sobre a estabilidade democrática conquistada no Brasil após 1985, afirmou que “ao historiador não cabe fazer predições, mas, para toda a sociedade brasileira, seria uma frustração terrível voltar a viver em regime de supressão de liberdades ou em condições de total descontrole econômico. É difícil imaginar que haja espaço, por exemplo, para golpes militares”.[1]

O Brasil que hoje vemos no espelho não é o mesmo. Em 2018, o país caiu para o posto de 9ª economia mundial; a escassez de alimentos voltou a ser um problema cotidiano para setores menos privilegiados da nossa sociedade, o pode implicar em um retorno ao mapa mundial da fome; o desemprego atinge 11,9% dos brasileiros, de acordo com a última amostra trimestral do IBGE; e o mesmo Carlos Fico revisou seu parecer a respeito da hipótese de um futuro autoritário para o Brasil.

Em post de setembro de 2017 no Facebook, Fico justificou seu receio ao observar um “proselitismo golpista” crescente por parte de civis e militares. Para o historiador, “esses grupos vão crescer alicerçados em promessas salvacionistas, moralistas ou simplesmente violentas e reacionárias”.

“Enfim, a hipótese de solução autoritária explícita referendada pelo establishment (não propriamente um golpe militar clássico) hoje me parece possível. A frase sempre repetida ‘as instituições estão funcionando’ tem um complemento oculto: ‘mas são muito frágeis’”, escreveu.

Perante a possibilidade de o futuro governo tentar implementar projetos de lei que buscam criminalizar movimentos sociais ao tipificá-los como terroristas, ou criar um clima de censura e legitimação de patrulhamento ideológico em sala de aula mediante o movimento Escola Sem Partido, o projeto da Nova República se encontra em risco.

Após atingirmos a implementação de programas sociais e políticas públicas que fizeram jus aos direitos estabelecidos na Constituição de 1988, as atuais movimentações no cenário político parecem se dirigir num sentido que poderia ser definido como um lento, gradual e inseguro caminho para a institucionalização do autoritarismo dentro da nossa cambiante democracia formal. Mas esse cenário não se configurou do dia para a noite, nem se trata de um dilema exclusivamente brasileiro.

Arquivo Nacional

Como morre a Nova República?

Em agosto de 2018, o cientista político Steven Levitsky realizou uma palestra na Fundação Fernando Henrique Cardoso a respeito do futuro da democracia. Coautor de Como morrem as democracias (2018), ao lado de Daniel Ziblatt, Levitsky sugeriu que a estabilidade dos governos democráticos está sendo ameaçada pelo ressurgimento global de movimentos e lideranças políticas autoritárias.[2] Como parte dessa tendência, alertou para os riscos que a vitória de Jair Bolsonaro poderia significar no Brasil e na América Latina.

Para Levistky, as rupturas nas democracias contemporâneas tendem a não se dar mais a partir de um violento golpe de Estado perpetrado por grupos militares, tal como no bombardeio das Forças Armadas chilenas contra o palácio presidencial de La Moneda, em 1973.

De acordo com o politólogo, neste alvorecer do século XXI, as democracias correm o risco de morrer de forma gradativa, como se fossem lentamente desaparecendo. O enfraquecimento delas fornece as bases materiais para que o autoritarismo encarnado em figuras como Bolsonaro se apresente como uma alternativa viável, e mesmo legítima do ponto de vista formal. Este teria sido o roteiro do surgimento de governos que atualmente flertam com práticas autoritárias e promovem violações de direitos humanos mediante os aparatos repressores do Estado, como Maduro na Venezuela, Erdoğan na Turquia, Duterte nas Filipinas, Ortega na Nicarágua e Trump nos EUA.

Buscando oferecer algum mecanismo para que as pessoas possam se precaver de lideranças autoritárias, Levitsky e Ziblatt adotaram como inspiração as ideias do sociólogo espanhol Juan Linz e elaboraram um teste que seria capaz de indicar se determinado político estaria ou não comprometido com valores democráticos baseado nos seguintes questionamentos:

 

  1. O indivíduo rejeita, em palavras ou atos, regras fundamentais da democracia?
  2. Põe em dúvida a legitimidade de seus oponentes?
  3. Tolera ou incentiva a violência política?
  4. Admite ou propõe restringir liberdades civis?

 

Na palestra, Levistky afirmou ter realizado o teste com todos os presidenciáveis nas eleições brasileiras de 2018. Foi taxativo no resultado: o único candidato que foi considerado uma ameaça para a democracia brasileira foi Bolsonaro.

Jair Bolsonaro na votação do impeachment da presidenta Dilma Rousseff. Ao declarar seu voto, homenageou o torturador Brilhante Ustra. Marcelo Camargo/Agência Brasil

 

Democracias começam a morrer, diz o autor, quando partidos políticos, elites econômicas e demais poderes institucionais passam a naturalizar figuras notoriamente autoritárias. Apostam na popularidade desses líderes, relativizam seu caráter violento e antidemocrático a partir de interesses de curto prazo e erram grosseiramente ao pensar que podem controlar proto-ditadores a partir do momento que chegam ao poder, pois, no longo prazo, eles tendem a concretizar suas ameaças à democracia.

Este foi o equívoco histórico dos liberais italianos perante Mussolini. Foi também o erro dos conservadores alemães perante Hitler. De uma parcela da elite política brasileira, como JK, Ulysses Guimarães e Carlos Lacerda, ante os militares golpistas de 1964. Mais recentemente, de republicanos estadunidenses ante Trump. E poderá ser o erro de empresários, investidores e políticos de direita e centro-direita ante Bolsonaro.

Há quem questione, inclusive, se ainda estamos vivendo sob um Estado Democrático de Direito. Para o autor Rubens R.R. Casara, por exemplo, a realidade brasileira seria melhor definida pela ideia de Estado Pós-Democrático: a democracia fica reduzida meramente à sua concepção formal, desprovida de conteúdo e substância.[3] Isso permitiria e estimularia o crescimento do pensamento autoritário, ao passo que práticas autoritárias podem se fundir com a democracia formal caso seja do interesse dos grupos dominantes.

Tal realidade forma um tipo de “sujeito autoritário” próprio da pós-democracia. O autor define esse sujeito a partir dos seguintes termos: 1) aceita abrir mão da liberdade para fundir-se com algo (seja um movimento, um grupo, uma instituição, etc.) ou alguém a fim de adquirir a força que julga necessária para resolver seus problemas; 2) mostra-se submisso a poderes ou instituições externas, mas, simultaneamente, quer dominar os outros e eliminar os diferentes.

Apesar de conter elementos muito importantes que alertam para a necessidade de reflexão em torno da desestruturação da democracia no mundo contemporâneo, considero excessivamente pessimista a leitura de Casara. Acredito que, mesmo que sob constante tensão e ameaças, o Estado Democrático de Direito no Brasil ainda se mantém razoavelmente fiel a seu projeto originário de 1988. Todavia, sua proposta de “sujeito pós-democrático” merece atenção, pois parece descrever com propriedade certas características de grupos radicais que ganham força na sociedade brasileira – e delineia o que poderemos enfrentar num futuro próximo.

É inegável que projetos neste sentido vem ganhando corpo e legitimidade nos últimos anos. Para compreender melhor este fenômeno, considero apropriado realizar um recuo histórico até um grande momento de inflexão na nossa história recente: as marchas de junho de 2013.

 

2013, o ano que não terminou

Para o filósofo Vladimir Safatle, as manifestações de 2013 podem ser compreendidas como um movimento que se inicia com demandas heterogêneas (contra o reajuste da passagem de ônibus, melhoras nos serviços públicos nas áreas da saúde e educação, aplicação de medidas mais efetivas no combate à corrupção, etc.), e que, em grande medida, demonstraram fortes críticas anti-institucionais, não somente contra o governo de Dilma Rousseff, mas também contra os poderes governamentais e os partidos políticos.

Em entrevista recente, Safatle afirmou: “Desde O 18 de Brumário de Luís Bonaparte do Marx, a gente sabe que toda revolta popular produz um sujeito político emergente capaz de ser o ator de transformações sociais e um sujeito reativo. Sempre foi assim. Não tem uma revolta popular em que você não abra uma possibilidade de transformação”. Sobre 2013, destacou o crescimento de um sujeito reativo na sociedade brasileira que passou a pedir mais “ordem” após manifestantes adotarem medidas mais radicais, como incendiar o Palácio do Itamaraty, em Brasília, ou depredar a Prefeitura de São Paulo.

Ao concluir seu argumento, Safatle considera que as manifestações de 2013 foram uma oportunidade histórica perdida para os setores progressistas, que não souberam dialogar e canalizar as demandas dos manifestantes, optando por não intensificar canais de participação direta nas decisões políticas, nem buscando construir propostas em prol de um ideário mais radical de soberania popular. Para o filósofo, isso permitiu que esse sentimento anti-institucional encontrasse diálogo no campo da extrema-direita, setor disposto a legitimar as vozes que diziam ser “contra tudo isso que está aí”.

A meu ver, Safatle demonstra uma leitura demasiadamente otimista em relação às possibilidades de diálogo das frentes de esquerda, diante de manifestantes com demandas tão difusas e formas de organização tão fragmentárias e pouco hierarquizadas. Mas sua leitura é assertiva em relação aos termos em jogo e às consequências políticas práticas do encontro entre o sentimento anti-institucional e a extrema-direita.

Em 2010, Bolsonaro foi eleito deputado federal com 120 mil votos. Em 2014, quase quadruplicou a marca: foi o deputado federal mais votado do Rio de Janeiro, com 464 mil votos. Desde 2013, Bolsonaro, seus filhos e seus aliados (Zema, Witzel, Janaína Paschoal, Comandante Moisés) souberam como nenhum outro grupo surfar a onda anti-institucional.

Arquivo EBC

A democracia nunca foi destino, sempre foi travessia

O fracasso da candidatura de Fernando Haddad ao tentar mobilizar uma frente democrática no segundo turno deixou evidente o quão fragmentado está o pacto político da redemocratização brasileira.

O aceno do petista às demais lideranças democráticas demonstrou-se tardio, além de insuficiente para que tais personagens colocassem suas rivalidades políticas de lado e apoiassem plenamente a empreitada de uma frente democrática. Nada disso se concretizou. Os cacos do pacto da redemocratização seguem espalhados pelo chão.

Mas a história ensina que os momentos de crise também podem ser momentos de travessia. O presente, afinal, tudo contém: uns buscam inspiração num passado autoritário; outros, defensores da democracia, buscam encontrar legitimidade no passado democrático.

Volto ao começo e a Carlos Fico, que nos lembra que as conquistas da Nova República não foram possíveis somente a partir da chegada de um determinado governo ao poder. Mas sim com a consolidação de um regime democrático estável, e que, a despeito de suas falhas, ao se observar a história do país, é possível considerá-lo o período com a mais vívida interlocução entre participação popular (movimentos sociais, grupos civis organizados, sindicatos, etc.) e canais institucionais típicos de uma democracia representativa.

E, como todo processo de travessia, ele requer coragem. Que sirva de exemplo o gesto de coragem de Ulysses Guimarães: a promulgação da Constituição de 1988, que marcou a transição de fato para a democracia. Citado nas páginas de História do Brasil Contemporâneo, de Fico, o discurso histórico de Guimarães não teve meias-palavras. Imprimiu na história a seguinte frase: “Quando, após tantos anos de lutas e sacrifícios, promulgamos o estatuto do homem, da liberdade e da democracia, bradamos por imposição de sua honra: temos ódio à ditadura, ódio e nojo”!

Arquivo Nacional/Correio da Manhã

 

 

*Por Ricardo Duwe, historiador e doutorando em História na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Realiza pesquisas na área de História Política, História Contemporânea e Brasil Republicano, com ênfase em culturas políticas, eleições, partidos políticos e ditadura militar

 



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