As veias abertas do Brasil: trabalho e pulsão de morte
Existe uma longa história escondida atrás da palavra trabalho. Ela atravessa impérios, plantações, fábricas, escritórios e plataformas digitais; atravessa também os corpos daqueles que, para viver, precisam vender o próprio tempo. Embora frequentemente apresentado como virtude, realização ou destino, o trabalho carrega marcas de violência que remontam às origens da sociedade capitalista e permanecem visíveis nas formas contemporâneas de exploração. Em tempos de exaustão generalizada, talvez seja necessário olhar novamente para essa história e perguntar quem realmente se beneficia dela
“A pobreza não está escrita nas estrelas”.
Eduardo Galeano
I
O século gira como um cachorro lento: demora cem anos para morder o próprio rabo e depois repete. Repete. Repete. 2026 é mais uma dolorosa mordida – somos o cão e os dentes do cão e o rabo mordido do cão e o sangue secular empapando os nossos nomes. Giramos juntos o turbilhão da morte. Parece ser este o trabalho imposto pelos donos do mundo: todos os dias, derrotar o pensamento; e, com ele, a inteligência.
Nos poemas de Trabalhar cansa (1936), Cesare Pavese retoma as vidas mordidas pelo grande cachorro do século XX: camponeses, prostitutas, ladrões, pobres, bêbados e outros desvalidos da sociedade. Nas palavras de Frantz Fanon (1961), são os condenados da terra: pessoas que precisam criar uma coincidência – dura e precária – entre o trabalho e a própria vida. Ainda não fui preso por regimes fascistas e, oficialmente, não me condenaram por comunista. Entretanto, como nos personagens daqueles poemas, sei que na minha carne também cravaram os dentes do trabalho. Comecei aos 14 anos, num sacolão da região metropolitana de Belo Horizonte. A minha lembrança mais nítida dessa época é a alegria paterna ao saber que enfim o filho seria produtivo, enfim deixaria de espetar as mandíbulas nas costas do pai. Nos anos seguintes, o trabalho me obrigou a estudar à noite, o mínimo possível para conseguir um diploma do Ensino Médio.
Alguma percepção de anormalidade surgiu desde o início da minha Carteira de Trabalho e Previdência Social, este livro de estreia que escrevi a muitas mãos. O que era apenas uma intuição consolidou-se muitos anos – e diplomas – depois. Entre 2015 e 2016, fui professor de Leitura e Escrita de Textos Acadêmicos no Instituto de Ciências Econômicas e Gerenciais da PUC Minas. Na época, o departamento incentivava que os semestres fossem organizados em torno de temas específicos, com o objetivo de evitar que a universidade se transformasse em mais um espaço de asfixia do pensamento. Era uma boa estratégia.
Em um desses semestres, escolhi o trabalho como tema central. Ao investigar a origem da palavra – porque professor aprende mais do que ensina – descobri que uma de suas possíveis raízes está no tripalium, instrumento de suplício utilizado na Antiguidade para punir condenados ou escravos fugitivos. Tratava-se de uma estrutura de madeira formada por três estacas: duas cruzadas em X e uma terceira fincada verticalmente no chão. Semelhante a um asterisco, ela servia para imobilizar a pessoa durante castigos que podiam variar de chicotadas à morte na fogueira.
Com o passar do tempo, a ideia associada ao tripalium teria sido vinculada ao esforço extremo, ao sofrimento e ao sacrifício, dando origem, segundo essa interpretação etimológica, ao conceito de trabalho. Talvez daí venha uma noção tão persistente e difundida: a do trabalho como forma de tortura.
II
Faz tempo que a história universal coincide com a história do trabalho. A ação de transformar recursos para sobreviver foi empurrando o mundo no tempo, estabelecendo os seus cimentos no espaço e instituindo ordens sociais que, com o surgimento da Modernidade, passaram a ser chamadas de civilização – um significante que não envelheceu e cujo significado Friedrich Nietzsche (1873) expandiu ao propor a categoria de edifício da civilização: camadas e camadas de regras, códigos e deveres que cimentam a vida social (os direitos, é claro, chegaram tarde).
Eduardo Galeano escreveu As veias abertas da América Latina (1971) não apenas para provar que a nossa história coletiva não pertence às narrativas europeias. O escritor uruguaio fez muito mais: com palavras, ergueu diante de nós essas veias destroçadas e o seu – o nosso – sangue ainda quente jorrando no horizonte. Cada leitura dessa obra é incômoda, tanto pela sua verdade odiosa quanto pelas consequências da rapinagem colonial, que segue roubando a nossa paz.
A biografia pindorama também coincide com a história do trabalho, mas com uma peculiaridade importante: “a história do subdesenvolvimento da América Latina integra, como já foi dito, a história do desenvolvimento do capitalismo mundial” (Galeano, 1971: 19). É neste quadro que a escravidão deve ser entendida como a primeira experiência massiva de trabalho e de capitalismo global. Foi pela espoliação dos povos negros e indígenas que se levantou a inominável acumulação de mão de obra (forçada) e de recursos pelos quais Espanha e Portugal não pagaram, bem como os lucros pornográficos obtidos por aquelas monarquias. Para melhor explicar a dimensão mercantil do projeto colonial, Eduardo Galeano chamou-a de acumulação originária – o conceito fala por si.

III
Como nada escapa à roda dentada do capitalismo, o trabalho, é muito transformado em produto, agora é vendido como pulsão criativa: você pode fazer o que gosta, a sua profissão pode dar prazer; seja livre e dono do seu negócio; se você realmente quer, você consegue. Por que não?
Por que não? Eu respondo: não, porque esse é um privilégio de pessoas ricas que, via de regra, não trabalham (nos sentidos etimológico e concreto da palavra); não, porque, embora possível, essa será sempre a exceção das exceções; não, porque o trabalho escravo é um projeto que atravessa as eras históricas, persiste da Antiguidade à Pós-Modernidade; não, porque trabalhar cansa e, enquanto viver for o equivalente a trabalhar para o enriquecimento alheio, a vida seguirá sendo cansativa. E, ao contrário do que a grande boca neoliberal anuncia, a suposta pulsão de vida gera pulsão de morte, essa força que “leva o sujeito a se colocar repetitivamente em situações dolorosas” (Roudinesco & Plon, 1998: 631). Os condenados da terra brasilis de ontem e de hoje trabalham para viver e, ao mesmo tempo, morrem de trabalhar. Esse ouroboros é o motor das forças pulsionais destrutivas que causam o mal-estar coletivo, sobretudo depois de jornadas extenuantes e mal remuneradas.
Posso elencar muitos outros motivos para demonstrar por que não podemos aceitar a romantização do trabalho: a reforma trabalhista aprovada por Javier Milei na Argentina, a assimetria salarial assentada em desigualdades de gênero, raça e classe, o custo de vida sempre por cima das possibilidades salariais, a vida estrangulada por todos os lados. Muitas pessoas perdem um pedaço do bolo para que poucas levem a maior parte – esta é a regra mais básica do capitalismo. No caso do Brasil e de outros países que foram colonizados, a exploração de recursos minerais e a escravização dos povos africanos e originários potencializaram essa regra mercantil e fizeram da Europa aquilo que ela é hoje: um conjunto de nações fundadas sobre a riqueza que não produziram, com um orgulho estratosférico e uma patética relevância política em 2026. Além disso, a Europa é também responsável por alimentar o cachorro do século XXI com visitinhas ao campo de golf dele na Escócia ou concessões frente ao assassinato de milhares de inocentes. Enquanto isso, o cachorrão ladra e morde a carne do mundo – é por isso que as veias seguem em franca abertura. Parece que o único trabalho possível, agora, é estancar tanto sangue.
Paulo Geovane e Silva é poeta, escritor, editor, tradutor e psicanalista. Tem doutorado em Literaturas de Língua Portuguesa e mestrado em Literatura Brasileira e Comparada, ambos pela Universidade de Coimbra. Acaba de lançar o poemário Luz doméstica pela Editora Diadorim. Publica poemas, contos, crônicas e ensaios em revistas brasileiras e internacionais. Reside e trabalha em Madri.
Referências
GALEANO, Eduardo. As veias abertas da América Latina. Trad. Sergio Faraco. Porto Alegre, L&PM: 2018 [1971].
NIETZSCHE, Friedrich. Sobre a verdade e a mentira no sentido extra-moral. Trad. Tim Newcomb. São Paulo, Livraria Press: 2024 [1873].
PAVESE, Cesare. Trabalhar cansa. Trad. Maurício Santana Dias. São Paulo, Companhia das Letras: 2022 [1936].
ROUDINESCO, Elisabeth; PLON, Michel. Dicionário de Psicanálise. São Paulo, Zahar: 1998.

