Aura de líder austero, espectro recorrente em Mundiais, ronda Tite

COPA: FUTEBOL E POLÍTICA

Aura de líder austero, espectro recorrente em Mundiais, ronda Tite

por Helcio Herbert Neto
25 de novembro de 2022
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Presença de Daniel Alves deixa à luz a face mais irredutível do treinador. Flávio Costa, técnico brasileiro em 1950, simboliza a linhagem de comandantes autoritários. Acompanhe no novo artigo do especial Copa: futebol e política

Arranhadas pelos galhos, castigadas pelo clima e exaustas pelos meses de perseguição, as tropas do Exército não conseguiram deter a insurgência liderada por Luís Carlos Prestes e Miguel Costa na década de 1920. Os revoltosos, que se levantaram contra as desigualdades e a corrupção, chegaram ao Paraguai após escaparem da perseguição do Estado brasileiro. Entre os algozes frustrados estava um futuro treinador da seleção.

Flávio Costa representa o personagem do técnico austero, que é frequente nas campanhas brasileiras em Copas do Mundo. Em 1950, o treinador estava no limite do gramado quando o Brasil foi derrotado pela seleção uruguaia no Maracanã – partida que tirou o troféu dos anfitriões. Décadas antes, era mais um dos soldados na caçada contra a Coluna Prestes. Menos agressivo, Tite se depara com a aura de comandante severo no Catar.

A marcha atravessou o país durante os trêmulos anos 1920 – período definido por tensões econômicas e sociais. Apesar de ser um ponto constante de discussões, a Coluna é frequentemente considerada a expressão mais à esquerda das insurreições que definiram aquela década. Estudante do Colégio Militar no Distrito Federal, Flávio Costa foi induzido a participar da repressão ao movimento capitaneado por Prestes.

Em suas memórias, descreveu como foi a experiência de ter participado da missão contra os rebelados. Depois, o treinador teve aspirações políticas. Antes do primeiro Mundial realizado no Brasil, alimentava a esperança de conseguir uma cadeira no Legislativo pelo Partido Trabalhista Brasileiro (PTB). Com o fracasso esportivo, essa possibilidade ruiu. Uma de suas marcas era a conduta espartana na relação com o elenco.

Flávio Costa lembra passado militar no livro O futebol no jogo da verdade. (Foto: Reprodução | Arquivo Pessoal)

A edição de 1950 da Copa é paradigmática. A identificação daquela derrota com o insucesso do projeto nacional do Brasil é constante. As versões sobre o impacto do título uruguaio são diversas e eloquentes. Nesse sentido, o rígido comandante da campanha não é desimportante. Além de treinador, Costa foi comentarista esportivo e participou da principal mesa redonda dos anos 1960: a Grande Resenha Facit da TV Globo.

Depois da aposentadoria, costumava reivindicar o pioneirismo no comentário esportivo em radiodifusão. Suas atividades nos momentos iniciais do rádio amador justificariam, de acordo com o próprio treinador, esse reconhecimento. O fato é que Flávio Costa inaugurou uma mitologia que tem desdobramentos até hoje. Ao longo das décadas, nas conquistas da seleção, o encanto pelo guia implacável foi uma constante.

Sem a dimensão monumental de uma perseguição por rincões inóspitos, a permanência de gestos ríspidos e declarações duras diz muito sobre o Brasil. Ajuda na compreensão da reincidência do autoritarismo no país e das suas consequências mais sombrias. Zezé Moreira, em 1966; Mário Jorge Lobo Zagallo, em 1970; e Luiz Felipe Scolari, em 2002, podem ser vistos como variações dessa tendência, cada um com suas particularidades.

Deriva disso a crença de que apenas com um comando marcadamente autoritário a vitória é viável. Há, é evidente, exceções: Vicente Feola, em 1958; e Carlos Alberto Parreira, em 1994 – ambos mais comedidos. É verdade também que, no tetracampeonato nos Estados Unidos, o treinador estava acompanhado pelo verborrágico Zagallo. O técnico do tricampeonato no México era o assistente de Parreira naquela altura.

Em 2018, Tite se aproximava desse comportamento mais moderado, embora com forte apelo messiânico. Impunha, nas suas declarações, o principal obstáculo para a formação de um personagem público mais popular e carismático. Neologismos para explicar opções táticas e reiteradas menções a termos da fisiologia caracterizavam um esforço para justificar a condição de técnico da seleção mais vitoriosa da história dos Mundiais.

O léxico foi mantido – assim como o tom de sermão de seita pagã. Para esta edição, contudo, houve uma mudança considerável. A manutenção de seu filho na equipe técnica, criticado por endossar mensagens preconceituosas, não advogou pela imagem de líder compreensivo. Antes, a contratação de Matheus Bacchi já havia sido alvo de críticas por nepotismo. Foi a convocação de 2022, contudo, o que mais reforçou essa transformação.

A presença de Daniel Alves na seleção deixa à luz a face mais irredutível do treinador. Depois de uma carreira vitoriosa, o jogador vive um semiamadorismo, interrompido pelas convocações. Em 2021, o desafio foi a conquista da medalha de ouro em Tóquio – cumprido com rigor. Em 2022, a meta é mais ousada. Os acenos para que Vinicius Jr.. único brasileiro que figura entre os melhores jogadores do planeta, seja valorizado no torneio atenuam a proximidade com esse espectro de tirano.

O atacante do Real Madrid esteve na mira de comentários racistas e xenófobos, mas conseguiu organizar uma mobilização digital por respeito pela cultura negra e pelo Brasil. Entretanto, a intransigência de Tite não é um sinônimo de associação à extrema direita. Nos últimos quatro anos, o treinador foi colocado no centro do embate com o bolsonarismo. Inicialmente, por manifestar desconforto com a realização da Copa América no Brasil em 2021, antes de uma imunização mais abrangente da população.

A reação gerou pressões em Brasília pela saída do técnico. Os escândalos de assédio sexual na Confederação Brasileira de Futebol (CBF) deslocaram o foco para a gestão de entidade e Tite permaneceu no cargo. Mais recente, a negativa de visitar o Palácio Planalto em caso de título no Catar incomodou a campanha para reeleição de Bolsonaro. A declaração destoou do coro de jogadores bolsonaristas, encabeçado pela maior celebridade da seleção: Neymar.

Raramente criticado pelo treinador, o atacante havia prometido se encontrar com o candidato com a taça na mão depois da conquista no Oriente Médio. Recluso, o presidente da República não tem mantido agendas públicas – mais um dificultador para o encontro esperado por Neymar. Antes do segundo turno das eleições, o próprio Daniel Alves também declarou voto para o candidato da situação. A dúvida mais forte é sobre a possível recepção da delegação depois da posse de Lula para o terceiro mandato na presidência.

A visita, com a mudança de governo, deixaria ainda mais explícito um antagonismo: na paisagem de Brasília, Tite, ladeado por representantes do novo governo, escancararia a oposição à extrema direita com o troféu da Copa do Mundo a tiracolo. Dificilmente o gesto seria acompanhado por Neymar ou outros bolsonaristas. Sem a intensidade do passado, o comandante rigoroso permanece no centro do debate sobre futebol e política.

 

Helcio Herbert Neto, jornalista e filósofo, é doutor pelo Programa de Pós-Graduação em História Comparada da UFRJ e mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFF. Pesquisador do campo da cultura popular, é autor do livro Conte comigo: Flamengo e democracia, lançado em 2022.

 

Paixão das multidões, negócio bilionário, fator de mobilização social: o futebol é arrebatador. E, a cada quatro anos, as melhores seleções nacionais se reúnem e deixam ainda mais em evidência todas essas disputas políticas. Em 2022, a Copa do Mundo do Catar traz à tona um planeta cindido, após o período mais severo da pandemia, e tensionado pela emergência da extrema direita. Até o final do torneio, Le Monde Diplomatique Brasil publica semanalmente os artigos do especial Copa: futebol e política – perante o assombro que, em um momento tão crucial, o mais catártico dos esportes provoca.


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