Autômatos da informação. - Le Monde Diplomatique

FUTURO DO JORNALISMO

Autômatos da informação.

por Ignacio Ramonet
4 de março de 2011
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Ávidos por reduzir custos, em detrimentos dos jornalistas, grupos de imprensa tradicionais começam a se interessar por esses novos métodos de produção participativa de conteúdos.EssasIgnacio Ramonet

 

Menos de 15% do que os jornais publicam interessa realmente à maioria das pessoas. Duas questões surgem então: Que tipo de informação fornecer?E quando fazê-lo exatamente?
A internet poderia, pela primeira vez, permitir responder a estas questões com a ajuda de algumas novas ferramentas. Entre elas o Google Trends, um serviço que oferece a possibilidade de “saber com que frequência um termo foi digitado no site de busca Google, com a possibilidade de visualizar estes dados por região e por idioma1”. Pode-se assim saber, em tempo real, que temas da atualidade interessam mais, em certo momento, aos internautas. A partir dessas informações, o Google News desenvolveu um serviço agregador de informações on-line gratuito que apresenta automaticamente artigos recolhidos continuamente de inúmeras fontes da web e, em especial, de outros meios de comunicação. 

O grande pioneiro de uma nova fórmula de “artigos sob encomenda” é o site americano Demand Media, criado em 2006. Seu objetivo bastante ambicioso é o de “criar conteúdos que resolvam os problemas, respondam às perguntas, permitam economizar dinheiro, façam ganhar tempo e deixem as pessoas felizes2”. Felicidade virtual!

É muito simples, como explica uma jornalista: “Para determinar quais assuntos devem ser tratados, o algoritmo do Demand Mediaprend calcula os termos mais buscados na internet, as palavras-chave mais procuradas pelos publicitários e a existência ou não de artigos referentes a esse tema na web. Ele pondera o que os internautas querem saber e quanto os anunciantes estão dispostos a pagar para aparecer ao lado desses assuntos. Assim que a pesquisa é identificada pelo algoritmo, os temas a ser tratados são disponibilizados on-line no Demand Studio, a plataforma na qual passam os 10.000 redatores e videomakers free-lancers que fornecem artigos e vídeos à empresa. Basta se inscrever no site do Studio e esperar as encomendas de assuntos – às vezes são 62 mil sugestões num só dia. Eles são pagos por artigo (US$ 10) ou por vídeo (US$ 20)3.”

Demand Media inventou assim, com a industrialização massiva da produção de conteúdos on-line, a informação low cost.  Esse site tornou-se o maior colaborador do YouTube, para o qual ele fornece entre 10 mil e 20 mil vídeos por mês, que geram cerca de 1,5 milhão de páginas vistas por dia… E, fenômeno ainda raro na mídia on-line, o Demand Media é um negócio que funciona: seu faturamento em 2009 foi estimado entre 200 e 300 milhões de dólares.

Com esse mesmo espírito, um dos mais populares portais da rede e grande rival do Google, o Yahoo, criou nos Estados Unidos, em julho de 2010, o site de informações The Upshot, cujos temas são decididos pelas estatísticas de pesquisa dos internautas em toda a rede Yahoo e especialmente em seu site agregador de notícias Yahoo! News4. Em maio de 2010, o Yahoo comprou uma empresa americana especializada na produção de conteúdos low costsob encomenda, a Associated Content. “Seus funcionários revisam mais de 50.000 artigos, imagens, sons e vídeos enviados, a cada mês, por aproximadamente 380.000 colaboradores independentes que produzem todo tipo de artigo sobre os mais variados assuntos5.”

O grupo americano AOL lançou em 2010 o Seed.com, que recebe artigos de jovens aprendizes do jornalismo, da literatura e da fotografia, abordando assuntos extremamente variados (lazer, saúde, esportes, animais domésticos, novas tecnologias, economia e finanças, viagens, política) para divulgá-los em inúmeros sites especializados (Daily Finance, Styletist.com, AOL Travel, Moviefone, Wow.com, AOL Food etc.). Conforme explica o ex-repórter doThe New York TimesSaul Hansell, um dos responsáveis do Seed.com, “trata-se simplesmente de retomar o modelo do jornalismo free-lancer como ele sempre existiu e torná-lo muito mais eficaz6.”

A Populis, de origem italiana, é a plataforma líder europeia, cujo audacioso slogan proclama: “Quando a criação de conteúdo encontra a ciência da Web”. Ela alega ter mais de 18 milhões de visitantes por mês. Seus responsáveis criaram um banco de dados de cerca de 16 milhões de temas de interesse tanto para os internautas quanto para eventuais anunciantes, cujas publicidades seriam veiculadas juntamente com os artigos. Tais artigos são escritos por redatores free-lancers, amadores apaixonados por um assunto específico, que sabem escrever corretamente e cujos currículos são solicitados pelo site. O valor da remuneração varia de 5 a 150 euros, dependendo do tamanho do artigo e da qualidade do texto.

Na França, o Wikio, portal de indexação de fluxo de informação, atrai cerca de 3 milhões de visitantes por mês. Seu site LesExperts.com apresenta artigos – especialmente da vida cotidiana7 – estabelecidos com base em assuntos votados pelos internautas. Sua ambição é propor cerca de 100 mil artigos por mês, redigidos por um exército de blogueiros com remuneração fixa no momento da aceitação do artigo, acrescida de um adicional variável dependendo da audiência do artigo, das receitas publicitárias e da competência do blogueiro.

Já a revista on-line canadense Suite101 (www.suite101.fr) não paga seus colaboradores free-lancers. Destina-lhes as chamadas receitas publicitárias somente se os banners de publicidade, vendidos a preços muito competitivos e divulgados com os artigos, forem clicados pelos internautas. Contudo, uma pesquisa americana sobre a economia on-line demonstrou em 2010 que 79% dos leitores de informação na web nunca, ou raramente, clicam em uma publicidade8.

Ávidos por reduzir custos, em detrimento dos jornalistas, grupos de imprensa tradicionais começam a se interessar por esses novos métodos de produção participativa de conteúdos. Assim, o grupo de imprensa alemão Hubert Burda Media, proprietário de 186 revistas em uma dezena de países, adquiriu entre 35% e 40% do capital do site Suite101.

Essas “fábricas de informação” podem competir com a mídia tradicional ou com os sites on-line mantidos por jornalistas profissionais? Os artigos (curtos, fáceis e consensuais) que eles oferecem focam a vida prática, a melhor qualidade de vida cotidiana, os conselhos do tipo autoajuda, as recomendações em matéria de saúde, dinheiro, emprego, lazer, viagens… Esses sites de conteúdos low cost procuram especialmente grandes volumes de audiência para vender publicidade a baixíssimo custo e apostar na “economia do clique”.

Presidente e fundador da Populis, Luca Ascani acredita que seu site pode, no entanto, se revelar complementar: “Na internet, 20% a 25% da informação consumida origina-se da mídia tradicional; 60% a 65% origina-se de pesquisas e cerca de 20%, dos conteúdos compartilhados via redes sociais. Tentamos cobrir estas três áreas e trazer respostas adequadas9.”

O grupo americano The Washington Post Company, editor do célebre jornal, adquiriu, em julho de 2010, o iCurrent, que oferece aos usuários a consulta de um “jornal adaptado a seus centros de interesse.” Ele é concebido automaticamente pelo conjunto dos conteúdos de 27.000 sites de imprensa e blogs disponíveis ao usuário, que podem aperfeiçoar suas buscas10. Essa perspectiva assusta especialmente Bill Keller, diretor do The New York Times: “Eu não deixaria o futuro da informação nas mãos do Google11”.

Ignacio Ramonet é jornalista, sociólogo e diretor da versão espanhola de Le Monde Diplomatique.



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