Biden para Israel: a adoção de uma política externa previdente

UMA NOVA DOUTRINA PARA A REGIÃO?

Biden para Israel: a adoção de uma política externa previdente

por Bárbara Vasconcellos de Carvalho Motta, Débora Lemos Nascentes e Bruno Taddeo L. de Campos
20 de agosto de 2021
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Para compreender a cautela de Biden, é fundamental analisar as dinâmicas políticas internas dos Estados Unidos e de Israel

Desde que assumiu a Presidência dos Estados Unidos, o democrata Joe Biden enfrenta diversos desafios para cumprir as promessas assumidas na campanha, particularmente em relação ao engajamento externo norte-americano. Dentre eles, está a expectativa da comunidade internacional de que sua administração assuma posicionamentos claros em situações de conflito internacional, considerando a ênfase dada por Biden ao compromisso dos Estados Unidos com a defesa dos direitos humanos. Neste contexto, quais elementos podem justificar a adoção de um tom previdente da atual administração estadunidense perante Israel, sobretudo na última onda de hostilidades entre este e a Palestina, ocorridas entre 6 e 21 de maio de 2021? Para compreender a cautela de Biden, é fundamental analisar as dinâmicas políticas internas dos Estados Unidos e de Israel.

 

As discordâncias no debate norte-americano sobre Israel

Embora as relações bilaterais entre Estados Unidos e Israel tenham sido historicamente marcadas por uma dinâmica de aliança e parceria estratégica, alguns pontos dessa relação passaram a ser postos em questão no atual debate norte-americano, sobretudo em momentos de conflito Israel-Palestina. As diferenças partidárias são um dos principais elementos de discordância. Enquanto os republicanos tendem a reiterar seu sólido apoio a Israel, demandando que a administração Biden faça o mesmo, os democratas buscam cada vez mais se afastar de um posicionamento pró-Israel.

Do lado republicano, iniciativas como a do congressista Jefferson Van Drew, de Nova Jersey, que apresentou resolução no Congresso condenando os ataques perpetrados pelo Hamas, que contou com 121 apoiadores, todos republicanos, são ilustrativas da pressão que integrantes do partido colocam sobre Biden para a adoção de medidas concretas em favor de Israel. Os democratas, por outro lado, pressionam a administração em sentido oposto, defendendo um posicionamento mais incisivo perante Israel, principalmente para que Biden, na ocasião do último embate israelo-palestino, agisse em prol de um cessar-fogo. Essas pressões são ainda maiores na ala progressista do partido, que ganhou relativa força política nas últimas eleições. Durante os dias de crises, por exemplo, o senador Bernie Sanders apresentou uma resolução demandando o bloqueio de US$ 735 milhões em auxílios militares para Israel, medida que não foi acatada.

Embora Sanders seja um senador conhecido por suas posições independentes, os questionamentos da ala progressista do partido democrata reforçam o coro de pressões sobre Biden e são representativos das discordâncias interpartidárias sobre qual tom o novo governo deve adotar em relação a um dos seus mais importantes aliados. Essas diferenças partidárias dificultam, em certa medida, a adoção de um posicionamento mais assertivo de Biden em relação a Israel, o que ajuda a compreender a cautela expressa em sua política externa frente ao último conflito.

Outra fonte doméstica de pressão é a própria sociedade estadunidense. Segundo as recentes pesquisas feitas pela Gallup Poll, enquanto em 2018 50% da sociedade era favorável a pressões dos Estados Unidos sobre a Palestina, contra apenas 27% da população dando suporte a pressões sobre Israel, em 2021 esses números mostram uma sociedade um pouco menos pró-Israel. Atualmente, essa margem se estreita para 34% da população favorável a pressões sobre Israel em oposição a 44% favorável a pressões sobre os palestinos. Ademais, atualmente 52% da população se mostra favorável à criação de um Estado palestino independente.

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Ex-primeiro ministro israelense, Benjamin Netanyahu e Joe Biden, na época vice-presidente dos EUA (Foto: Amos Ben Gershom/ Fotos Públicas)

Israel: novas eleições, novas possibilidades?

Além do debate interno nos Estados Unidos, a configuração política de Israel também impacta a definição dos rumos da política externa de Biden para o país, sobretudo pela necessidade de se afastar da estreita relação estabelecida entre Trump e Netanyahu. Recentemente, Israel passou por decisões importantes como a realização, em março, da quarta eleição em menos de dois anos, ocasionada principalmente pela crise política e pela dificuldade em compor uma maioria. Após os conflitos entre Israel e Hamas, ocorreu um acordo inesperado entre opositores para a formação de uma nova coalizão, a qual retirou do poder Benjamin Netanyahu e o seu partido, Likud, após doze anos.

O novo governo encabeçado pelo nacionalista Naftali Bennet, com direito a uma coalização que une distintos espectros políticos, não se distancia diametralmente de Netanyahu, estando, inclusive, mais à direita que seu antecessor. Nesse sentido, embora a formação de um novo governo que afaste Netanyahu coloque Biden, a princípio, em uma posição mais confortável, as posições políticas de Bennet podem dificultar a relação com o democrata. De todo modo, o primeiro movimento é de uma certa aproximação entre o presidente estadunidense e o novo primeiro-ministro israelense. Após tomar posse, Biden levou cerca de três semanas para realizar sua primeira ligação a Netanyahu. Para Bennet, por outro lado, a ligação desejando “calorosas felicitações” demorou menos de três horas. Ademais, após dois dias da saída de Netanyahu do poder e da consequente ascensão de Bennett, Biden nomeou Thomas Nides como novo embaixador em Jerusalém. Essa morosidade de mais de seis meses para nomear um novo embaixador é simbólica principalmente por ter ocorrido imediatamente após a formação do novo governo, fortalecendo o argumento de que Biden, visando manter-se longe da herança do trumpismo, afastou-se também de uma relação com Netanyahu.

Assim, ao passo que o presidente do Likud não é mais o primeiro-ministro, a relação com o novo ocupante do cargo tende a ser mais próxima, favorecendo uma comunicação mais ativa entre Israel e Estados Unidos. Todavia, os dois governos passam por um período de consolidação, de modo que, para Bennett, é imprescindível conservar a aliança feita entre os vários partidos para se manter no poder. Netanyahu, agora como líder da oposição, já declarou que fará de tudo para impedir que o governo de Bennett garanta sua governabilidade. Já para Biden, é de suma importância lidar com as divergências internas, legitimando seu governo doméstica e internacionalmente. Nesse sentido, a nova configuração política israelense não deve afastar Biden da sua atual política externa previdente, principalmente na ocasião de conflitos entre Israel e Palestina, até encontrar o momento oportuno de definir a doutrina Biden para a região.

No entanto, permanece o questionamento sobre por quanto tempo Biden conseguirá sustentar o tom de cautela. Além das relações especiais, consolidadas há décadas, o fato de Israel ser cumulativamente o país que mais recebe auxílios financeiros dos Estados Unidos pode ser um fator que dificulte a manutenção dessa política externa previdente. Isso porque o fornecimento de tais recursos pode ser interpretado como uma forma de parcialidade ao munir Israel de maiores capacidades frente aos palestinos. A eclosão do último conflito nas fronteiras de Israel ilustra esse dilema. Se, por um lado, Biden coloca os direitos humanos como prioridade em sua política externa, acenando para a ala mais progressista e mais pró-direitos do povo palestino de seu partido, por outro, a mudança de governo em Tel Aviv, que a princípio poderia ser definidora dos contornos da política externa dos EUA para Israel, e a subida de um chefe de governo mais à direita, mantêm em suspenso o nível de influência que dinâmicas bilaterais terão na política externa do democrata.

 

Bárbara Motta é professora do Departamento de Relações Internacionais da Universidade Federal de Sergipe (UFS) e pesquisadora do Grupo de Estudos de Defesa e Segurança Internacional (GEDES);

Débora Lemos Nascentes é graduada em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Uberlândia;

Bruno Taddeo L. de Campos é graduando em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Uberlândia.



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