QUEM CONTROLA A VISIBILIDADE?

Big techs, eleições e soberania na disputa pelo Brasil

O controle de empresas internacionais sobre a infraestrutura de distribuição das mensagens no meio digital torna a disputa eleitoral ainda mais vulnerável ao intervencionismo externo 

Em 1962, o Brasil realizou suas últimas eleições dois anos antes do golpe de Estado que derrubou o presidente João Goulart e inaugurou uma ditadura de 21 anos. O contexto internacional era marcado pela Guerra Fria, pela Revolução Cubana e pela preocupação dos Estados Unidos, através do espírito da Doutrina Monroe, com a possibilidade de governos latino-americanos se afastarem de sua esfera de influência. 

A eleição daquele ano tornou-se um dos episódios dessa disputa. Organizações como o Instituto Brasileiro de Ação Democrática (Ibad) financiaram campanhas de candidatos anticomunistas, enquanto empresários, setores das Forças Armadas, organizações civis e parte importante dos meios de comunicação participavam da construção de um ambiente político cada vez mais hostil ao governo João Goulart. Dois anos depois, quando os militares avançaram contra o governo constitucional, parte expressiva da grande imprensa apoiou abertamente sua derrubada. O CPDOC da Fundação Getúlio Vargas registra que grande parte do empresariado, da imprensa, dos proprietários rurais e outros setores da sociedade apoiaram ou estimularam a intervenção. Os EUA, por sua vez, acompanharam de perto a conspiração e chegaram a preparar a Operação Brother Sam para oferecer apoio logístico aos golpistas caso encontrassem resistência. 

Jornais como O Globo, Jornal do Brasil, Folha de São Paulo e O Estado de São Paulo, apoiaram a deposição de Goulart. Parte da imprensa não comandou sozinha o golpe, evidentemente, mas participou da produção de sua legitimidade social, ajudando a apresentar a ruptura institucional como uma resposta necessária à suposta desordem política. A relação entre poder político e poder comunicacional não terminaria em abril de 1964, por óbvio. Ao longo da ditadura, a televisão transformou-se no meio de comunicação de massa que conhecemos hoje, apoiada pela construção de uma infraestrutura nacional de telecomunicações e por uma política de integração do território. Foi nesse período que se consolidaram alguns dos maiores grupos de mídia do país. A TV Globo, inaugurada em 1965, é provavelmente o exemplo mais emblemático: passou de uma emissora no Rio de Janeiro a uma rede de alcance nacional e posição dominante no mercado televisivo. 

As big techs não são os jornais dos anos 1960, e a atuação dos Estados Unidos hoje não reproduz integralmente as formas de intervenção da Guerra Fria. Mas existe uma relação que atravessa os dois períodos. Se durante boa parte do século XX o poder dos grandes conglomerados estava relacionado à capacidade de decidir o que seria produzido ou transmitido, tanto em termos editoriais quanto discursivos, as plataformas atuais acrescentaram outra dimensão: o poder de decidir o que será distribuído, para quem e com que intensidade. 

Do poder de produzir ao poder de distribuir 

Vejamos o caso brasileiro: o país está entre as sociedades mais intensamente conectadas às plataformas digitais. Segundo a TIC Domicílios 2025, do CGI.br, 81% dos usuários brasileiros de internet utilizam redes sociais e 92% utilizam serviços de mensagens instantâneas. Entre jovens de 16 a 24 anos, o uso de redes sociais chega a 93%; entre pessoas de 25 a 34 anos, a 94%. Levantamentos internacionais colocam o Brasil entre os países que passam mais tempo em redes sociais, com estimativas próximas de quatro horas diárias entre usuários conectados. Mais importante do que a posição exata em rankings internacionais é a escala do fenômeno: uma parcela expressiva da vida informacional brasileira transcorre dentro de ambientes controlados por plataformas privadas. 

Voltando ao TIC Domicílios, além dos 81% que usam redes sociais, 71% dos internautas brasileiros assistem a vídeos, programas, filmes ou séries pela internet e 62% compartilham conteúdos como textos, imagens ou vídeos. Quando olhamos especificamente para notícias, a transformação se torna ainda mais evidente. O Digital News Report 2026, do Reuters Institute, aponta que os meios tradicionais continuam perdendo espaço como fonte de notícias no Brasil, enquanto o uso de redes sociais permanece elevado. A tendência de longo prazo é de deslocamento de parte do consumo informacional da televisão e dos jornais para smartphones, plataformas sociais, serviços de vídeo e, mais recentemente, sistemas de inteligência artificial. 

Não significa que a televisão ou o jornalismo profissional tenham se tornado irrelevantes. O que mudou foi a existência de um novo intermediário entre o conteúdo e o público. Uma reportagem produzida por um jornal pode ser encontrada por uma busca no Google, aparecer no feed de alguma plataforma da Meta, ser transformada em reel no Instagram, comentada por um influenciador no TikTok, recomendada pelo YouTube ou circular em um grupo de WhatsApp. Em todos esses casos, parte importante da decisão sobre quem encontrará aquela informação não pertence mais à redação que a produziu nem ao usuário que decidiu procurá-la. Pertence exclusivamente à plataforma. 

Durante décadas, as críticas à concentração da mídia estiveram corretamente preocupadas com a propriedade dos meios de comunicação: quem controla as emissoras? Quem possui os jornais? Quantas vozes têm acesso aos grandes meios? Essas perguntas continuam atuais, mas a plataformização da esfera pública exige acrescentar outra: quem controla a visibilidade?

Crédito: Berke Citak/Unsplash

 

Publicar e ser visto 

O debate público sobre redes sociais foi nos últimos anos dominado pela questão do conteúdo, principalmente envolvendo a produção de fake news e desinformação. Na tentativa de impedir a circulação cada vez maior de material erosivo para as relações democráticas, boa parte do campo progressista investiu seus esforços na regulação das plataformas, cobrando a responsabilização das big techs sobre a moderação deste tipo de conteúdo. Apesar dos esforços terem tido resultados palpáveis nos últimos anos, a exemplo da aprovação do ECA digital, parece crescente o sentimento de que as redes sociais estão mais radicalizadas e com mais problemas estruturantes 

A internet que conhecemos hoje é cada vez menos organizada pelas escolhas explícitas dos usuários. O modelo em que alguém segue determinadas pessoas ou páginas e recebe cronologicamente suas publicações foi progressivamente substituído por feeds infinitos de recomendação, que em seu limite tem o objetivo de prever quais conteúdos têm maior probabilidade de manter cada pessoa conectada, a famosa retenção. Reels, shorts e recomendações cada vez mais automatizadas simbolizam uma transformação de como consumimos conteúdo através das redes, agora fortemente selecionado pelas grandes plataformas e seus modelos algorítmicos.  

Vale lembrar que esse sistema não existe no vácuo, respondem a um modelo econômico específico: A maior parte das grandes plataformas depende da capacidade de capturar atenção, acumular dados sobre comportamento e converter essa atenção em receita. Quanto mais tempo permanecemos dentro de uma plataforma, mais oportunidades existem para exibir publicidade e aperfeiçoar sistemas de recomendação e, consequentemente, influenciar e mobilizar nossos afetos e desejos. Sistemas otimizados para engajamento produzem vantagens para conteúdos capazes de gerar respostas emocionais intensas: indignação, medo, surpresa, identificação, conflito. A política aprendeu rapidamente essas regras. 

Atores políticos passaram a produzir conteúdos adaptados às linguagens, temporalidades e métricas das plataformas. O discurso precisa caber no vídeo curto; o conflito precisa gerar comentário; a provocação precisa produzir compartilhamento; o candidato precisa alimentar continuamente o ciclo de atenção. A extrema direita, em especial, demonstrou enorme capacidade de adaptação a esse ambiente. Donald Trump, Jair Bolsonaro, Javier Milei e Nayib Bukele representam experiências políticas diversas, mas compartilham estratégias que reduzem a distância entre liderança e audiência, transformando conflito em elemento permanente de mobilização. 

Na Colômbia, a campanha vitoriosa de Abelardo de la Espriella explorou intensamente vídeos curtos, conteúdos emocionais e confrontantes, com especial destaque na mobilização de influenciadores e redes descentralizadas de amplificação. No Peru, Keiko Fujimori também apresentou uma expressiva vantagem de alcance digital, especialmente no TikTok, em uma eleição decidida por margem muito estreita. 

Em todos os casos a direita mostrou capacidade de transformar as regras de visibilidade das plataformas em vantagem política, ao passo que a atuação de influenciadores, publicidade de terceiros, contas coordenadas e conteúdos produzidos por IA tornou mais opaca a fronteira entre mobilização espontânea e propaganda eleitoral. O algoritmo não é um ator político no sentido convencional, e muito menos neutro nessa história. 

A Justiça Eleitoral parece reconhecer essa questão. Para as eleições de 2026, o TSE passou a exigir planos de conformidade de plataformas com mais de 5 milhões de usuários ativos mensais no Brasil ou que possuam impacto significativo sobre a circulação de conteúdo político-eleitoral. A regulamentação alcança não apenas publicação e compartilhamento, mas explicitamente a distribuição, recomendação e impulsionamento de conteúdo político. O objetivo da regulação deixou de ser somente o conteúdo e passou a incluir sua circulação. Trata-se de um avanço importante, mas também revela a dimensão do problema: pela primeira vez, ficou explícito que a integridade eleitoral não depende apenas de saber o que foi publicado, seja o conteúdo fake news ou desinformação. 

O Mensageiro e suas mensagens 

Big techs possuem interesses econômicos e políticos próprios. Fazem lobby, disputam regulações, recorrem à Justiça, financiam associações, constroem narrativas públicas sobre legislação e alteram unilateralmente suas políticas de moderação, publicidade e recomendação. Uma empresa de tecnologia pode ser simultaneamente dona da infraestrutura, formuladora das regras de funcionamento daquele ambiente, fiscalizadora dessas regras, e interessada diretamente no resultado de disputas regulatórias conduzidas pelos governos eleitos. 

A dimensão material dessa transformação também aparece nas campanhas. Em setembro de 2026, dados das prestações de contas eleitorais mostravam a Meta como o maior fornecedor individual das campanhas brasileiras até então, com R$46,5 milhões recebidos, aproximadamente 5% dos cerca de R$1 bilhão já declarado ao TSE pelos candidatos. 

As principais plataformas que organizam a esfera pública digital brasileira são controladas por corporações estrangeiras, em sua maioria estadunidenses. Em julho de 2025, por determinação do governo Donald Trump, o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) abriu uma investigação contra práticas brasileiras com base na sua legislação comercial. Entre os temas investigados estavam explicitamente o comércio digital e medidas brasileiras que afetariam grandes plataformas. Na abertura do procedimento, o representante comercial afirmou estar respondendo ao que classificou como ataques brasileiros às empresas estadunidenses de mídia social. 

Em junho de 2026, o USTR concluiu que determinadas práticas brasileiras eram “não razoáveis” e prejudicavam ou restringiam o comércio dos EUA. Entre as justificativas apresentadas estavam decisões de tribunais brasileiros determinando remoção de conteúdos políticos e suspensão de perfis em plataformas estadunidenses. Em julho, o governo Trump transformou a investigação em ação comercial e impôs tarifa de 25% sobre determinados produtos brasileiros. A decisão não dizia respeito apenas às plataformas, mas demonstrou concretamente que decisões brasileiras sobre a governança de empresas digitais podem ser incorporadas aos instrumentos de pressão econômica da maior potência mundial. 

Nos anos 1960, influenciar o debate público brasileiro significava financiar organizações, candidatos e propaganda, estabelecer alianças com elites locais e disputar espaço em jornais, emissoras de rádio e, ainda de forma incipiente, na televisão. Hoje, plataformas digitais estrangeiras não precisam necessariamente conquistar espaço dentro da infraestrutura comunicacional brasileira, nem usar de artifícios escusos neste processo, isso porque elas já controlam uma parcela dessa infraestrutura e decidem os rumos que essa arquitetura toma. Meta, Tik Tok, Telegram, Alphabet ou X não precisam produzir um telejornal para exercer poder sobre a esfera pública. Seu poder está na infraestrutura que determina qual informação, qual influenciador, qual candidato, qual meme, qual denúncia e qual mentira chegará a cada usuário, em que ordem, frequência e contexto. 

A aproximação entre parte da elite tecnológica estadunidense e a ultradireita, nesta dimensão, simboliza um alerta grave sobre os ataques às estruturas democráticas que sustentam nossa sociedade. A aliança eleitoral em torno de Donald Trump encontra correspondência em um universo ideológico que, há anos, questiona abertamente a democracia liberal e apresenta a concentração de poder como solução para aquilo que considera a ineficiência das instituições democráticas. Peter Thiel, fundador da Palantir e um dos primeiros grandes investidores do Facebook, escreveu ainda em 2009, que já não acreditava que “liberdade e democracia são compatíveis”. Desde então, sua atuação política se tornou mais direta: foi o primeiro grande empresário do Vale do Silício a apoiar Donald Trump, em 2016, e utilizou capital econômico e político para impulsionar figuras como J. D. Vance, atual vice-presidente dos Estados Unidos, e sua principal aposta para o legado de Trump no futuro próximo. 

Thiel, assim como outros donos das grandes plataformas, parecem se aproximar cada vez mais das ideias tecnocráticas da extrema direita, com um de seus principais organizadores na figura de Curtis Yarvin, influenciador que escreveu durante anos sob o pseudônimo Mencius Moldbug e se tornou uma das maiores referências da chamada Dark Enlightenment. Yarvin considera a democracia um sistema ineficiente e destrutivo e propõe substituí-la por uma forma de governo tecnocrático. Para além dessas figuras, essa convergência ideológica ajuda a compreender uma transformação mais ampla na cultura política de setores da tecnologia, o universo ideológico de Yarvin e das big techs parece estar se organizando no entendimento que eles não precisam mais trabalhar paralelamente ao poder do Estado, mas sim, incidir sobre ele através de suas infraestruturas tecnológicas de poder, das quais dependem os setores de comunicação, defesa, inteligência artificial, dados e serviços públicos. 

Quem controla as condições pelas quais uma sociedade enxerga a si mesma? 

Letícia Cesarino acredita que para sair dessa cilada com as grandes plataformas não há caminho único definido. Exige dedicação não só do governo, mas também das universidades e da sociedade civil, ocupando a vanguarda para construir outras tecnologias. “Os nossos bancos de dados nacionais estão em nuvens dessas grandes empresas, espalhados pelo mundo. A Europa já está criando esses mecanismos para manter dentro de casa seus dados mais estratégicos”, lembra Letícia. 

A União Europeia, nesse contexto, tem sinalizado um caminho possível, mobilizando esforços conjuntos e obtendo avanços relevantes na consolidação de marcos regulatórios em escala regional. Inclusive no âmbito da soberania digital, para reduzir a sua dependência tecnológica e responsabilizar as plataformas pelo espaço público que operam. É o caso do Digital Services Act (DSA), uma tentativa que estabelece obrigações de transparência, auditoria de algoritmos para além da moderação de conteúdo e criação de redes de dados independentes. Enquanto parte fundamental da esfera pública brasileira depender de infraestruturas privadas estrangeiras, haverá uma assimetria estrutural entre a capacidade nacional de estabelecer regras e a capacidade das plataformas de organizar o ambiente no qual essas próprias regras são debatidas. 

Sessenta e quatro anos separam as eleições de 1962 das eleições de 2026 no Brasil. As tecnologias de comunicação mudaram radicalmente. Mas a sanha das elites nacionais em perpetuar seu poder, aumentar sua concentração econômica e não abrir mão de seus privilégios sempre permaneceu. E o controle dos meios de comunicação sempre funcionaram como trunfo para alimentar um conservadorismo que legitima até mesmo um golpe de estado. Ainda que, na atualidade, esse controle esteja também nas mãos de empresas internacionais que definem não só a narrativa produzida, mas toda a infraestrutura invisível que escolhe o que ganha alcance, o que desaparece do fluxo e quais vozes conseguem atravessar a disputa pela atenção.  

 

Gabriela Rosa é Mulher trans e Bacharel em Comunicação Social – Midialogia pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Trabalha na área de audiovisual e sustentabilidade. Associada do Intervozes e atualmente trabalha na área de sustentabilidade do coletivo.  

Aline Souza é jornalista, escritora, pesquisadora de futuros e impacto social e integrante do Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social.  

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