Bolsonaro e a frase que resume a compreensão de proteção social

“Quem quer mais auxílio é só ir ao banco e fazer um empréstimo”

Bolsonaro e a frase que resume a compreensão de proteção social

por Paola Carvalho
4 de junho de 2021
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Em que país do mundo se viu um presidente responder aos indicadores de fome, miséria, desemprego e negativas do auxílio emergencial, com a frase: “quer mais auxílio, vá ao banco pedir empréstimo”?

Jair Bolsonaro construiu um governo de uma tecla só. Sua pauta é negar a pandemia e seus efeitos. Para, com isso, poder se liberar da responsabilidade de criar políticas de proteção para a população. Isso vale para muitas políticas públicas, mas aqui destaco especialmente a vacina e o auxílio emergencial.

Essa agenda ideológica de negação da pandemia e ojeriza de políticas de proteção social nos colocou como últimos da fila para a compra da vacina e cegos aos problemas do auxílio emergencial. Não enxergamos que o número de beneficiários e valores diminuíram de 2020 para cá nem a nossa incapacidade de ouvir os problemas passados pela população, identificando os gargalos criados pelas opções de implementação desde o início.

Vocês já imaginaram criar uma política emergencial com 110 milhões de solicitantes, 68 milhões de pessoas beneficiadas com pelo menos uma parcela e não ter um canal de diálogo ou escuta para a população acessar? Essa foi a opção do governo quando excluiu o Sistema Único de Assistência Social e os mais de 8 mil Centros de Referência de Assistência Social que estão próximos da população mais vulnerável. Assim, destruiu toda e qualquer relação de diálogo, corresponsabilidade e colaboração entre os entes federados.

Se ainda assim o governo federal tivesse criado, mesmo de forma centralizada, um canal de escuta, avaliação e mapeamento dos problemas vividos pelos beneficiários do auxílio emergencial, estaria tudo bem. Dos males, o menor. Mas o único canal, através do número 111, é totalmente digital. A partir da resposta derruba a ligação sem dar orientação do que deve ser feito.

A pandemia que já levou à morte mais de 465 mil brasileiros e brasileiras faz vítimas de todas as idades enquanto a vacinação segue em ritmo lento, pois somente 10,6% da população foi vacinada com as duas doses. Somado a isso o governo se propõe a manter o auxílio emergencial, após quatros meses de suspensão e maior mortalidade, com valores bem inferiores e uma redução de 29 milhões de beneficiários.

O presidente da República, Jair Bolsonaro fala à imprensa (Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil)

Em que país do mundo se viu um presidente responder aos indicadores de fome, miséria, desemprego e negativas do auxílio emergencial, com a frase: “quer mais auxílio, vá ao banco pedir empréstimo”? E Bolsonaro completa a afirmativa maldosa, desumana diria eu, falando que ele não mandou ninguém ficar em casa.

De fato, o presidente nunca garantiu e apoiou as campanhas de distanciamento social. Sempre minimizou o impacto do vírus, defendeu a imunização de rebanho (que poderia atingir já 1 milhão de pessoas), reduziu recursos das políticas públicas e lutou o que pode contra os valores e o tamanho que deveria ter o auxílio emergencial.

Mas o governo comemora o crescimento da economia nos primeiros três meses de 2021, conforme divulgado pelo IBGE, com alta do PIB de 1,2% sobre o trimestre anterior. O que não se fala é que a expansão foi bastante desigual – e seus efeitos não foram disseminados entre a população, deixando de fora especialmente a classe de renda mais baixa.

Em março deste ano, foram 14,8 milhões de brasileiros sem trabalho e ainda sem a ajuda do auxílio emergencial (que só voltou a ser pago, com valores reduzidos, em abril deste ano). Atualmente, milhões de brasileiros seguem sem conseguir garantir o básico.

E o que faz o governo de Jair Messias Bolsonaro, o messias do caos? Fecha os olhos e empurra para o endividamento através dos empréstimos e para o capital privado. Afinal de contas, um governante que não se importa com a vida, jamais vai dar valor e concretizar políticas públicas garantidoras de direitos, cidadania e dignidade.

Paola Carvalho é diretora de Relações Institucionais da Rede Brasileira de Renda Básica, uma das 300 organizações que integram a campanha Renda Básica que Queremos

 



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