ORDEM INTERNACIONAL

Brasil: parceiro imprescindível da Alemanha na América Latina

Guinada com a política de Donald Trump acendeu um alerta global, colocando em risco conquistas democráticas antes consideradas consolidadas 

Desde 20 de janeiro 2025, o presidente Donald Trump está desestabilizando a ordem internacional que estruturava o mundo para a Alemanha e a Europa – uma ordem que permitiu aos Estados Unidos e aos seus aliados saírem vitoriosos da rivalidade com a União Soviética, e cuja posição vantajosa foi utilizada para ampliar seu poder político e econômico. Do ponto de vista da Europa e dos Estados Unidos, a democracia liberal avançava, a sociedade civil ampliava suas possibilidades para reivindicar e moldar uma sociedade mais democrática, justa e ecológica, para todas as pessoas, sem discriminação e violência. Essa ordem internacional também permitiu a ascensão de novas potências econômicas, como Coreia do Sul, Taiwan e China.  

A guinada recente com a política trumpista, no entanto, acendeu um alerta global: até mesmo os pilares dessa ordem estão sujeitos a retrocessos, colocando em risco conquistas democráticas antes consideradas consolidadas sob a forma de partidos políticos e movimentos sociais. Temos assistido o avanço de movimentos políticos antidemocráticos e de extrema direita não apenas na Alemanha e no Brasil, mas em todos os continentes. Movimentos que questionam o respeito aos direitos humanos e o conceito dos três poderes, negam a crise climática e a Agenda 2030 acordada no Rio de Janeiro em 2012. 

Nesse contexto, manter o G20 como um fórum de diálogo e cooperação entre o Norte e o Sul Global é fundamental para evitar que as incertezas econômicas e políticas comprometam sua atuação. Embora a presidência brasileira do Grupo tenha promovido iniciativas importantes que refletem a capacidade do fórum de defender interesses públicos globais, é importante que os governos democráticos participantes resistam à tentação de utilizar esse espaço para avançar seus próprios interesses. 

 

No enfrentamento a essas ameaças, o Brasil tem sido um parceiro democrático imprescindível para a Alemanha na América Latina, não somente pelos investimentos econômicos no país, mas também, pelas cooperações sociopolíticas e culturais. Ambos compartilham o interesse em defender e fortalecer as Nações Unidas e suas organizações para resistir aos ataques antidemocráticos. Os dois países concordam que é imprescindível respeitar o direito internacional nos tratados de Genebra, o fortalecimento da Corte Internacional de Haia e do Tribunal Penal Internacional. 

O Brasil é um dos poucos países onde a Fundação Heinrich Böll tem conseguido desenvolver um trabalho com liberdade e pluralidade – uma condição que, infelizmente, vem se tornando cada vez mais rara no cenário internacional. Temas globais importantes, como a luta contra a fome, as mudanças climáticas e a destruição das florestas e outros biomas, são inseparáveis da defesa da democracia. É urgente construir um futuro mais justo e atrativo para todos, sustentado por democracias resilientes e inclusivas. 

Imme Scholz é co-presidente da Fundação Heinrich Böll. 

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