Brasis no Catar: primeiro carnaval, primeiro pelourinho também - Le Monde Diplomatique

COPA: FUTEBOL E POLÍTICA

Brasis no Catar: primeiro carnaval, primeiro pelourinho também

por Helcio Herbert Neto
30 de novembro de 2022
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Ao som de Gilberto Gil, o pensamento de Darcy Ribeiro reivindica uma inflexão: é preciso propor uma nova concepção de mundo. Novo artigo do especial Copa: futebol e política

Há Brasil por todo lado. Bandeiras nas varandas, estendidas antes do processo eleitoral – com o propósito de incentivar mais um mandato de Jair Bolsonaro na presidência e, como consequência, a intensificação de acenos golpistas. Camisas com cheiro de naftalina, de gente que se encorajou a vestir o uniforme da seleção depois de relutar por anos. Propagandas e mais propagandas, que se utilizam de símbolos nacionais para vender salsichas, cervejas, celulares ou planos de internet.

Isso explica, talvez, por que até agora Copa: futebol e política não tenha conseguido escapar de questões – sociais e esportivas – inteiramente brasileiras. O assombro causado pelos patriotas, ainda acampados à frente de quartéis, e de suas manifestações em vários momentos abertamente supremacistas ou até nazistas não permitiu. As expectativas com os movimentos iniciais do próximo governo, ainda em processo de transição, também não. É hora, contudo, de desviar dessa conjuntura e olhar o arranjo das nações.

Nascido em Gana, Kofi Annan foi o secretário-geral da ONU entre 1997 e 2006. Durante esse tempo, tropeçou em diversas crises: das guerras protagonizadas pelos Estados Unidos às tensões emergentes dos nacionalismos na Europa. Nada disso reduz o feito de ter sido o primeiro negro a ocupar essa cadeira e de ter recebido, em 2001, o prêmio Nobel da Paz por esforços pela erradicação da pobreza e pelo combate à Aids. Morreu em 2018, com um quadro de insuficiência cardíaca.

Quinze anos antes, o secretário-geral não hesitou ao romper a liturgia do cargo e se predispor a tocar conga no salão da Assembleia Geral da ONU, uma semana antes de o espaço receber, para a 56ª sessão, as delegações de quase duzentos países-membros. A intenção era deixar de lado, por ora, o luto por baixas diplomáticas na guerra do Iraque. Aparentemente, o motivo de Annan e os outros três músicos no palco usarem roupas em tons escuros foi esse.

O estímulo para se apresentar ali veio de Gilberto Gil, então ministro da Cultura do Brasil – de novo, o país. A morte do diplomata carioca Sergio Vieira de Mello era uma das causas para o espetáculo histórico. No repertório, “Toda Menina Baiana”, canção do disco Realce de 1979. Hoje imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL), o compositor celebra tragicamente do início dos carnavais ao primeiro índio abatido. Da missa inaugural ao pelourinho. A visão sobre violência e opulência em sua terra são uma resposta provisória, insuficiente e impressionante ao luto.

Uma resposta que comoveu a ONU. A possibilidade de reagir ao drama de um planeta em risco de colapso, frente ao avanço de guerras entre potências bélicas, é a utopia que motivou o aceno do secretário-geral à música brasileira. No estranho contexto em que o novo governo brasileiro é recebido – com o otimismo de democracias liberais do hemisfério norte e de países subdesenvolvidos –, o gesto de Annan deve ser recordado. A apresentação completará duas décadas em 2023, ano da posse de Lula.

No Catar para a Copa do Mundo, Gilberto Gil foi xingado. Na verdade, a sua mãe: mais uma demonstração de misoginia e covardia. Hoje octogenário, o músico circulava por um estádio amparado pela sua mulher, Flora. O casal usava o uniforme da seleção. Curiosamente, o empresário que os hostilizou também. Nada mais ilustrativo da ambivalência desses símbolos nacionais, que podem representar o que há de mais violento ou o que é mais arrebatador.

Além da comemoração 80º aniversário de Gil, 2022 reservou outras tantas celebrações. O extremado bicentenário da Independência é um exemplo. Menos barulhento, os cem anos de nascimento do professor, senador e ministro Darcy Ribeiro mereceram pouca atenção. As vidas do compositor baiano e do escritor mineiro não coincidem somente no trânsito pelo Petit Trianon ou por vestirem o fardão da ABL – o político também entrou para a academia, na década de 1990.

Darcy Ribeiro com indígenas da etnia Urubu-Kaapor, em 1949 (Foto: Reprodução | Fundação Darcy Ribeiro)

A multiplicidade da vida de Darcy defende outro Brasil. Enquanto antropólogo, conheceu a vastidão das culturas que compartilham o solo delimitado, institucionalmente, pelo país. À frente de políticas públicas, instigou os limites do conservadorismo brasileiro. Dessas experiências, extraiu a esperança de ver nascer das mesmas terras por onde andou uma nova Roma, lavada em sangue índio e negro. Ou seja: uma nação capaz de transgredir os projetos escravocrata e etnocida.

Os dois não simbolizam o sonho de um Brasil justo, mas vivenciaram a mais intensa potencialidade do país no amplo panorama internacional. Não há projeções idealizadas. A participação de Darcy nos governos João Goulart, no Brasil, e Salvador Allende, no Chile, iluminam essas práticas – sem falar em realizações como o Sambódromo do Rio de Janeiro ou os CIEPs. A música de Gil e a apresentação no salão da Assembleia Geral da ONU são contundentes e não exigem mais explicações.

A relação da dupla com o futebol é forte, embora não seja central em suas respectivas obras. Nos anos 1990, Darcy se demonstrava inquieto perante esse esporte, em um país cada vez mais urbano e violento. Sua curiosidade se voltava também para como o jogo com a bola nos pés despertava paixões e mobilizava revoltas. Décadas antes, Gil já se levantava contra o autoritarismo dos dirigentes esportivos na música Meio de campo.

Anos de resistência democrática em movimentos populares, círculos acadêmicos e redes digitais fizeram com que gerações de brasileiros associassem a política a um comportamento reativo e obstinado. Essa é a realidade atual. A conduta trouxe o país para o patamar de agora e de fato superou cenários infinitamente mais macabros. O pensamento de Darcy, ao som de Gilberto Gil, reivindica uma inflexão: é preciso propor algo novo, para a transformação das cidades do país e para uma nova concepção de mundo.

A experiência de Casimiro, a habilidade de Vinicius Jr. e o carisma de Richarlison são deixados de lado – os insultos em Lusail interrompem qualquer conversa sobre o bom começo dos convocados por Tite no Mundial. Ir a fundo nesse episódio é a única saída para entender o lugar com o qual o Brasil de hoje se conforma, no cenário internacional. É igualmente uma alternativa para imaginar qual papel pode vir a desempenhar.

Quando ataca um representante inequívoco dessa altivez brasileira, o compatriota desbocado fratura a fantasia de país coeso. A atitude não é aleatória, mas uma tentativa deliberada de conter a criatividade que é capaz de despertar atenção do mundo. Diante das expressões de ignorância, a Copa do Catar berra para o planeta a necessidade de subverter hierarquias globais. Nessa tarefa, o Brasil – ou o que sobrou dele – deve ser central. O futebol permite essas transgressões.

Para esse canto do Atlântico Sul, os dilemas climáticos são ainda mais decisivos: a manutenção da Amazônia e de outros biomas é primordial. A convivência na diversidade cultural, em evidência no mundo com a proximidade gerada pela tecnologia, é uma condição sem a qual o Brasil não existe como nação. O combate ao racismo e à violência contra povos originários também. Por esses motivos e pelo fato de ser um laboratório para novas formas de autoritarismo, o país é desafiado. E pode apresentar uma resposta.

 

Helcio Herbert Neto, jornalista e filósofo, é doutor pelo Programa de Pós-Graduação em História Comparada da UFRJ e mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFF. Pesquisador do campo da cultura popular, é autor do livro Conte comigo: Flamengo e democracia, lançado em 2022.

 

Paixão das multidões, negócio bilionário, fator de mobilização social: o futebol é arrebatador. E, a cada quatro anos, as melhores seleções nacionais se reúnem e deixam ainda mais em evidência todas essas disputas políticas. Em 2022, a Copa do Mundo do Catar traz à tona um planeta cindido, após o período mais severo da pandemia, e tensionado pela emergência da extrema direita. Até o final do torneio, Le Monde Diplomatique Brasil publica semanalmente os artigos do especial Copa: futebol e política – perante o assombro que, em um momento tão crucial, o mais catártico dos esportes provoca.



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