Capachos europeus - Le Monde Diplomatique

TRUMP HUMILHA PARIS, LONDRES E BERLIM

Capachos europeus

por Serge Halimi
4 de junho de 2018
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Nossos infindáveis moinhos de orações concluíram desse episódio que seria preciso haver mais da Europa. Mas, quanto mais esta se expande e se institucionaliza, menos resiste às ordens norte-americanas.

As súplicas e as manifestações de afeto de três dirigentes europeus – Emmanuel Macron, Angela Merkel e Boris Johnson – que foram adular Donald Trump não serviram para nada: o presidente dos Estados Unidos respondeu humilhando-os. Ele os ameaça com represálias comerciais e financeiras se não violarem o acordo que eles mesmos fecharam há três anos com o Irã. Como os Estados Unidos mudaram radicalmente de posição sobre o assunto, seus aliados são obrigados a se alinhar. Aos seus olhos, Paris, Londres e Berlim são coisa pequena, muito menor, em todo caso, que Riad ou TelAviv.

“Sempre temos vontade de bater em um homem que condena a si mesmo para quebrar em mil pedaços o pouco de dignidade que lhe resta”, escreveu Jean-Paul Sartre em Les Chemins de la liberté [“Os caminhos da liberdade”]. Sua observação também vale para os Estados – os da União Europeia, por exemplo. Macron proclama sua recusa em falar “com uma arma apontada para a cabeça” e Merkel lamenta que Washington torne as coisas “ainda mais difíceis” no Oriente Médio. Mas nem um nem outro parecem dispostos a responder de outra maneira a não ser com lamentos. E as grandes empresas europeias entenderam a quem deveriam obedecer, a partir do momento em que até mesmo o envio de um e-mail transitando por um provedor norte-americano ou o recurso ao dólar em uma transação com o Irã as expõem a multas extravagantes (ler artigo na p. 30).

Assim que foi anunciada a exigência de Trump, a Total – ex-Companhia Francesa de Petróleo – anulou seus projetos de investimento na República Islâmica do Irã. O presidente Macron tentava no mesmo momento preservar o acordo com Teerã, mas deixava claro: “Digo com todas as letras: não vamos sancionar ou contrassancionar as empresas americanas. […] E não vamos obrigar as empresas [francesas] a ficar [no Irã]; isso é a realidade da vida no mundo dos negócios. O presidente da República francesa não é o CEO da Total”.1 Que obedece, por consequência, às ordens da Casa Branca.

Nossos infindáveis moinhos de orações concluíram desse episódio que seria preciso haver mais da Europa.2 Mas, quanto mais esta se expande e se institucionaliza, menos resiste às ordens norte-americanas. Em 1980, os nove membros da Comunidade Econômica Europeia tomavam posição a respeito do Oriente Médio em acordo com as aspirações nacionais do povo palestino; em 14 de maio passado, por outro lado, quatro Estados da União (Áustria, Hungria, República Tcheca e Romênia) estavam representados na inauguração da Embaixada dos Estados Unidos em Jerusalém, no momento em que as Forças Armadas israelenses executavam dezenas de civis em Gaza. Mais – se podemos dizer: dos 28 membros atuais da União Europeia, onze invadiram o Iraque ao lado das tropas norte-americanas.

A União Europeia não para de dificultar seus critérios de convergência. Ela se esquece sempre de um, que Trump acaba de lembrar: a necessidade, para seus aderentes, de serem independentes e soberanos.

 

*Serge Halimi é diretor do Le Monde Diplomatique.



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