Cinco conflitos entrelaçados - Le Monde Diplomatique

A ENGRENAGEM DO TERROR

Cinco conflitos entrelaçados

por Pierre Conesa
7 de dezembro de 2015
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O entusiasmo quase unânime dos líderes políticos pela “guerra” traduz um grave desconhecimento da realidade do terreno. Decidido em 2014, depois da tomada de Mossul e na emoção suscitada pelas decapitações, o engajamento militar ocidental acrescenta uma quinta camada a uma sobreposição de conflitos que inflamam o terriPierre Conesa

Em 1979, a Revolução Iraniana instaurava um regime político oficialmente “islâmico”, mas na realidade exclusivamente xiita. Ela revivia assim uma lenta sedimentação, na qual o conflito ancestral entre sunitas e xiitas representa a primeira camada. Quando, depois da tomada de poder em Teerã, o aiatolá Ruhollah Khomeini pediu uma gestão coletiva dos locais santos do islã, o desafio se mostrou insuportável para a Arábia Saudita. Um ano antes de encontrar a morte perto de Lyon, depois dos atentados de 1995 na França, o jovem jihadista Khaled Kelkal declarava ao sociólogo alemão que o interrogava: “O xiismo foi inventado pelos judeus para dividir o islã”.1 Os wahabitas sauditas têm o velho hábito de massacrar os xiitas, como testemunha desde 1802 a tomada de Kerbala (hoje no Iraque), que se traduz pela destruição de santuários e túmulos, entre eles o do imã Hussein, e o assassinato de diversos habitantes.

 

Essa “guerra de religião” esfacela atualmente sete países da região: Afeganistão, Iraque, Síria, Paquistão, Líbano, Iêmen e Bahrein. Ela surge esporadicamente no Kuwait e na Arábia Saudita. Na Malásia, o xiismo está oficialmente banido. Na escala planetária, os atentados mais aleatórios, como os cometidos durante as peregrinações, matam dez vezes mais muçulmanos do que não muçulmanos, e os três países mais atingidos são Afeganistão, Iraque e Paquistão. A oumma, a comunidade dos crentes, que os salafistas jihadistas pretendem defender, recobre hoje um gigantesco espaço de enfrentamentos religiosos. Nesse contexto, compreendemos por que Riad mobiliza bem mais facilmente seus aviões e suas tropas contra os hutis do Iêmen, assimilados aos xiitas, do que para prestar socorro ao regime pró-xiita de Bagdá. Não entendemos por que os ocidentais deveriam tomar partido nessa guerra, e com que legitimidade.

 

A segunda guerra é a dos curdos para se tornarem mestres de seu destino, em particular contra o Estado turco. Ela surgiu em 1923, nos escombros do Império Otomano, com o Tratado de Lausanne, que dividia o Curdistão entre os quatro países da região: Turquia, Síria, Iraque e Irã. As diversas revoltas que abalaram o Curdistão turco entre 1925 e 1939 foram todas esmagadas por Mustafa Kemal Ataturk. Desde os anos 1960, todos os levantes, na Turquia, no Iraque e no Irã, foram afogados no sangue, diante da indiferença da comunidade internacional. Desde 1984, essa guerra causou mais de 40 mil mortes na Turquia, onde 3 mil vilarejos curdos foram destruídos, com um custo estimado em cerca de US$ 84 bilhões.2

 

Ninguém deveria se surpreender com o fato de que Ancara tenha deixado afluir os candidatos jihadistas para as duas principais forças nas quais eles se reconhecem, a Frente Al-Nusra e a Organização do Estado Islâmico (OEI), já que elas combatem os curdos do Iraque e principalmente da Síria, muito próximos dos da Turquia. Principal ameaça para Ancara, o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) continua classificado como grupo terrorista pela União Europeia e pelos Estados Unidos, e não pode receber ajuda militar ocidental. Único país da região a pertencer à Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) e a ter a capacidade de modificar a situação militar no campo, a Turquia acabou por se unir à coalizão. Mas ela concentra seus meios na retomada dos enfrentamentos com o PKK e não vê com bons olhos os curdos do Iraque e da Síria que conquistam uma independência de fato.

 

Terceira guerra em andamento: a que divide os islamitas entre si desde a Guerra do Golfo (1990-1991) e ainda mais desde as revoltas árabes. A rivalidade mais conhecida opõe a Irmandade Muçulmana, apoiada pelo Catar, e os salafistas, apoiados pela Arábia Saudita, no Egito, na Líbia e na Tunísia. Mais nova é a concorrência entre, por um lado, a Al-Qaeda e suas derivações e, por outro lado, os companheiros de Abou Bakr al-Baghdadi, o chefe da OEI. Ao longo dos primeiros meses de 2014, estes últimos sobrepujaram a Frente Al-Nusra, filial local da Al-Qaeda na Síria, ao custo de mais de 6 mil mortes.3 A proclamação do “califado” suscitou diversas passeatas. Os combatentes estrangeiros da OEI provêm de uma centena de países. Ao designar Al-Baghdadi como seu inimigo principal, os países ocidentais orientam de maneira decisiva a mobilização dos jihadistas para seu lado.

 

Enfim, uma das guerras mais assassinas, que fez cerca de 250 mil mortos e milhões de refugiados, é a conduzida pelo presidente sírio, Bashar al-Assad, contra todos os seus oponentes.

 

Quinze no Iraque, cem no Iêmen

 

A batalha à qual se entregam os ocidentais aparece como um novo episódio de uma guerra muito mais antiga, com uma autojustificativa histórica insuportável para as populações da região. Seria preciso voltar aos Acordos de Sykes-Picot e à partilha colonial da região entre a França e o Reino Unido sobre as ruínas do Império Otomano? Seria preciso retornar a Winston Churchill, então secretário de Guerra do Reino Unido, mandando destruir cidades e vilarejos curdos – bombardeados com o gás químico iperita – e matar dois terços da população da cidade curda de Souleimanye, ou reprimindo violentamente os xiitas iraquianos entre 1921 e 1925? Como esquecer a Guerra Irã-Iraque (1980-1988), na qual ocidentais e soviéticos apoiaram o agressor (Bagdá) e impuseram um embargo ao agredido (Teerã)? Barack Obama é o quarto presidente norte-americano a enviar bombardeiros ao Iraque, país já ferido por 23 anos de ataques militares ocidentais. Desde o fim da invasão norte-americana (2003-2011), cerca de 120 mil civis foram mortos.4 Em 2006, a revista médica The Lancet estimava o número de mortes imputadas à guerra em 655 mil, uma catástrofe demográfica se somarmos as 500 mil mortes causadas pelo embargo internacional, entre 1991 e 2002. Segundo as palavras da ex-secretária de Estado Madeleine Albright, em 12 de maio de 1996, no canal CBS, isso “valia a pena”.

 

Hoje, por que os ocidentais intervêm contra a OEI? Para defender princípios humanistas? É possível duvidar disso quando constatamos que três países da aliança continuam a praticar a decapitação, a lapidação e a cortar as mãos dos ladrões: o Catar, os Emirados Árabes Unidos e – muito acima dos dois primeiros – a Arábia Saudita. A liberdade religiosa? Ninguém ousa exigi-la de Riad, onde um tribunal de segunda instância acaba de condenar à morte um poeta palestino por apostasia.5 Trata-se então de impedir os massacres? A opinião árabe tem dificuldade em acreditar nisso quando, dois meses após os 1,9 mil mortos pelos bombardeios israelenses em Gaza, que haviam deixado as capitais ocidentais estranhamente indiferentes, a decapitação de três ocidentais bastou para levá-los a atacar o norte do Iraque. “Mil mortos em Gaza, e ninguém faz nada; três ocidentais degolados, e mandam o Exército!”, denunciava um site salafista francófono.

 

Pelo petróleo, então? A maior parte dos combustíveis da região vai para os países da Ásia, totalmente alheios à coalizão. Para estancar o afluxo de refugiados? Mas, neste caso, como aceitar que os riquíssimos Estados do Golfo não acolham nenhum? Para proteger os “direitos humanos” defendendo a Arábia Saudita? Riad acaba de demonstrar sua concepção inovadora desses direitos ao condenar Ali al-Nimr, um jovem manifestante xiita, a ser decapitado e crucificado para que depois seu corpo fosse exposto publicamente até apodrecer.6

 

No plano militar, as contradições são ainda mais evidentes. Hoje, apenas os aviões ocidentais realmente bombardeiam a OEI. Os Estados Unidos empregam cerca de quatrocentos aviões, e a França, uns quarenta, dentro da operação “Chammal”, com a chegada do porta-aviões Charles de Gaulle.7 A Arábia Saudita dispõe de cerca de quatrocentos aviões de combate, mas só utiliza uns quinze no Iraque, ou seja, o mesmo que a Holanda e a Dinamarca reunidas. Por outro lado, no Iêmen, cerca de uma centena de aviões sauditas participam dos bombardeios da coalizão dos dez países árabes sunitas contra os hutis (xiitas), organizada por Riad. Dez países árabes contra os xiitas do Iêmen, cinco contra a OEI: estranho desequilíbrio! E é realmente contra os hutis que Riad mobiliza todas as suas forças, e não contra a Al-Qaeda na Península Arábica (AQPA), da qual se reivindicava pertencente Cherif Kouachi, o autor dos atentados contra o Charlie Hebdo em Paris. O antigo diretor da CIA David Petraeus qualificava a organização como o “ramo mais perigoso” da nebulosa de mesmo nome, e ela tomou o controle de Aden, a segunda maior cidade do Iêmen.

 

A partir de agora, a OEI atingiu três objetivos estratégicos. Em primeiro lugar, ela aparece como defensora dos sunitas oprimidos na Síria e no Iraque. Suas vítimas são em 90% dos casos muçulmanas. No Afeganistão, no Iraque, na Síria e no Paquistão, as vítimas dos atentados são primeiro os xiitas, depois os “maus muçulmanos” – em particular os sufis – e os representantes dos regimes árabes e, em último lugar somente, membros de minorias religiosas ou ocidentais.

 

Além disso, a OEI conseguiu deslegitimar a Al-Qaeda e seu ramo local na Síria, a Frente Al-Nusra. Os chamados do sucessor de Osama bin Laden, Ayman al-Zawahiri, notificando Al-Baghdadi para se submeter à sua autoridade, traduzem uma impotência patética. O somatório das deserções no seio dos grupos jihadistas mostra a nova dinâmica criada pela OEI.

 

Califa deverá desafiar a Arábia Saudita

 

Por fim, a OEI se tornou o inimigo número um do Ocidente. Este deu início a uma “cruzada” contra ela, sem dizer esse nome, mas que pode facilmente ser apresentada como tal pelos propagandistas do jihad. A operação norte-americana “Inherent Resolve” (“Determinação Absoluta”) reúne principalmente doze países da Otan (mais a Austrália), e a aliança restabelecida com a Rússia reforçará ainda mais o caráter de “frente cristã” que a propaganda da internet sabe utilizar tão bem. Segundo uma petição on-line assinada por 53 membros do clero saudita, os ataques aéreos russos visavam “combatentes da guerra santa na Síria” que “defendem a nação muçulmana em sua totalidade”. E, se os combatentes forem vencidos, “os países do islã sunita cairão todos, uns após os outros”.8

 

A contraestratégia militar dos sauditas não deixa nenhuma ambiguidade no ar: ela é essencialmente orientada em sua luta contra os xiitas. Riad, como as outras capitais do Conselho de Cooperação do Golfo, não pode considerar a OEI a principal ameaça, sob pena de se ver contestada por sua própria sociedade. A intervenção militar saudita no Bahrein em 2012 visava quebrar o movimento de contestação republicano, principalmente xiita, que ameaçava a monarquia sunita dos Al-Khalifa. No Iêmen, a operação “Tempestade Decisiva”, lançada em março de 2015, visava restabelecer o presidente Mansur al-Hadi, deposto pela rebelião huti. Evidentemente, para Riad está fora de questão enviar sua infantaria contra a OEI enquanto 150 mil homens são empregados na fronteira com o Iêmen.

 

No entanto, o próximo objetivo da OEI deveria ser conquistar a legitimidade religiosa de seu “califa”, que se autodenominou “Ibrahim (Abrahão) al-Muminim (“comandante dos crentes”, título da época abássida) Abu Bakr (nome do primeiro califa) al-Baghdadi al-Husseini al-Quarashi (nome da tribo do Profeta)”. Uma verdadeira competição foi iniciada contra a outra potência que pretende encabeçar a oumma e representar o islã: a Arábia Saudita está sendo de agora em diante contestada no terreno. Para ganhar, Al-Baghdadi deve desafiar o “defensor dos locais santos”. Podemos então pensar que no fim, uma vez que todas as zonas xiitas forem reduzidas, o “califa” vai mirar a Arábia Saudita.

 

Quais são as prováveis consequências para a Europa? Depois dos refugiados afegãos, iraquianos e sírios, ela deve rapidamente ver a chegada dos refugiados do Iêmen. País mais populoso do que a Síria, ele não pode evacuar seus habitantes para os países fronteiriços, todos membros da coalizão que o bombardeia. Desde 2004, a guerra já fez mais de 340 mil deslocados, dos quais 15% vivem em campos, segundo o Escritório de Coordenação nos Casos Humanitários das Nações Unidas. Além disso, o Iêmen acolhe 246 mil refugiados, 95% deles somalianos. Os países do Conselho de Cooperação do Golfo mostrarão o mesmo egoísmo que durante o êxodo sírio, quer dizer, nenhum lugar oferecido aos refugiados. Resta então a Europa.

 

Compreendemos melhor por que a aliança faz uma guerra para a qual não pode fixar um objetivo estratégico claro: cada um de seus aliados está em conflito com outro. As intervenções no Iraque, na Síria, no Mali ou no Afeganistão se parecem com o tratamento de metástases; o câncer salafista tem seu lar nos países do Golfo, protegidos pelas forças ocidentais. Pode-se destruir a OEI sem reforçar outros movimentos jihadistas, o regime de Al-Assad ou Teerã? A guerra será longa e impossível de ganhar, pois nenhum dos aliados regionais enviará tropas ao solo, o que poderia ameaçar seus próprios interesses.

 

A estratégia ocidental, fundada nos bombardeios e na formação de combatentes locais, fracassou na Síria e no Iraque, assim como no Afeganistão. E esse fracasso traduz o caráter fundamentalmente exógeno dos objetivos europeus e norte-americanos nas crises internas ao mundo árabo-muçulmano. Quanto mais o engajamento militar se acentuar, mais o risco terrorista vai aumentar, ante o enfrentamento previsível e destruidor que deveria por fim opor a OEI e a Arábia Saudita. Será que essa guerra é “nossa”?

Pierre Conesa é antigo alto-funcionário da Otan. Autor, entre outros, de Mécaniques du chaos: bushisme lifération et terrorisme, editora L’aube, La Tour d’Aigues, 2007.



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