"BASTA DE FEMINICÍDIO. QUEREMOS AS MULHERES VIVAS"

Como viver em um país que naturalizou o assassinato de mulheres?

Casos brutais assistidos em 2025 mostram que estamos longe de alcançar equidade de gênero, mas que a solução passa por todos nós e o primeiro passo é a indignação

O final de semana foi tomado por protestos que denunciaram a escala da violência de gênero em diversas cidades do Brasil. A mensagem das ruas, com o lema “Basta de feminicídio. Queremos as mulheres vivas”, desmascara um país que se apresenta cordial aos olhos estrangeiros, mas convive com problemas profundos de ódio, preconceito, machismo e misoginia.

Figuramos como o 5º país com maior número de feminicídios no mundo, de acordo com dados do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH). Apenas El Salvador, Colômbia, Guatemala e Rússia registram índices superiores de assassinatos de mulheres. A disparidade torna-se ainda mais evidente quando comparada a nações desenvolvidas: no Brasil, mata-se 48 vezes mais mulheres do que no Reino Unido, 24 vezes mais do que na Dinamarca e 16 vezes mais do que no Japão ou na Escócia.

Somente em novembro, ocorreram alguns dos casos mais brutais da história recente. No Acre, Josie Silva da Costa, de 42 anos, foi assassinada, na zona rural de Bujari, com um tiro na nuca pelo marido. Em Tocantins, o marido de Maysa Rodrigues Fernandes Cardoso, de 35 anos, confessou ter matado e enterrado a esposa após uma discussão. Em Florianópolis, Catarina Kasten, de 31 anos, foi violentada e morta por um desconhecido a caminho da aula de natação.

A mensagem parece ser uma só: se você é mulher e brasileira, não pode ter desavença com marido, namorado ou noivo. Não pode fazer trilha. Não pode andar na rua após às 22h ou antes das 6h. Não pode sequer trabalhar. Allane de Souza Pedrotti Matos, de 41 anos, e Layse Costa Pinheiro, respectivamente diretora e psicóloga do Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca (CETEF), no Rio de Janeiro, foram mortas por um funcionário após uma desavença de trabalho.

Crédito: Ramiro Furquim/Sul21.com.br

O Brasil também está acompanhando a luta pela vida de Tainara Souza Santos, que teve as pernas amputadas em decorrência de ter sido arrastada por cerca de 1,2 quilômetro. O acusado é identificado como um possível ex-companheiro.

Mesmo em grandes empresas, no trabalho realizado pela Gestão Kairós, já acompanhamos casos de feminicídio entre funcionários que eram cônjuges.

Não estamos testemunhando tragédias isoladas, mas um problema estrutural que atravessa gerações e molda comportamentos de uma cultura que naturaliza a violência contra mulheres e, sobretudo, normaliza a impunidade de homens que se julgam proprietários da vida e do corpo delas.

Nada acontece em uma sociedade sem que isso seja, de alguma forma, aceito ou pactuado por seus cidadãos. Aquilo que não é tolerado por uma sociedade não se sustenta nela. Mas o horror, ao que tudo indica, só tomou conta de metade da população. Poucos homens se manifestam com a contundência necessária diante das atrocidades que testemunhamos. Isso porque o medo, a insegurança e a sensação de ser uma próxima vítima não são marcas do corpo masculino.

É inaceitável falar sobre isso exaustivamente. Portanto, não compactue. Empodere mulheres. Ensine meninos. Invista na sua empresa. Cobre o governo. Escolha bem seus candidatos na próxima eleição. A solução passa, obrigatoriamente, por todos nós. E o primeiro passo é a indignação.

Liliane Rocha é fundadora e CEO da Gestão Kairós, Consultoria de Sustentabilidade e Diversidade. É mestre em políticas públicas, conselheira Deliberativa do Instituto Tomie Ohtake e conselheira consultiva do Pacto de Promoção da Equidade Racial. Autora, LinkeIn Top Voice e detentora oficial no Brasil do termo Diversitywashing.

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