Conhecer regiões da África pela literatura: ampliar as referências e reduzir as distâncias
A literatura é um atravessamento entre as lacunas: da criação e do contato. É importante que se possa adquirir ao conhecermos um pouco mais sobre as literaturas africanas — aquelas construídas a partir de saberes que ampliam nossos conhecimentos e perspectivas. E qual foi a última vez que lemos um livro de uma escrita vinda do outro lado do Atlântico — que pode tanto falar sobre nós, mas, sobretudo, sobre o outro?
Nesse mês de maio, comemoramos o Dia da África. A data é um emblema político que simboliza as lutas travadas por regiões do continente africano em busca da autonomia frente ao domínio colonial, para a afirmação da soberania e da valorização da cultura dos mais diversos povos do território. Esse dia é pensado como uma possibilidade de atravessar fronteiras e contribuir com o conhecimento sobre povos e culturas do continente, que por vezes se apresentam tão próximos da sociedade brasileira, mas, ao mesmo tempo, tão distantes.
É sempre bom lembrar que somos pessoas construídas pelas referências que nos são disponíveis — e também pelas ausências daquelas que não conhecemos. A literatura é um atravessamento entre essas lacunas: da criação e do contato. Por isso, gostaria de chamar a atenção para a importância e os ganhos que podemos adquirir ao conhecermos um pouco mais sobre as literaturas africanas — aquelas construídas a partir de saberes que ampliam nossos conhecimentos e perspectivas.
E qual foi a última vez que lemos um livro de uma escrita vinda do outro lado do Atlântico — que pode tanto falar sobre nós, mas, sobretudo, sobre o outro?
Não devemos perder as chances que as frestas abertas nos trazem. Pela literatura, podemos acompanhar uma trama, sermos observadores íntimos e estarmos próximos do cotidiano, da vida das pessoas, seus afetos e desafios. Podemos pensar a literatura dentro de um amplo contexto, que segue outros caminhos — esses que vão além dos estigmas que transformam a África em um lugar refém.
Podemos puxar uma alavanca rumo à restituição de subjetividades, da noção humana que nunca deveria ter sido desviada de pessoas e de elementos que dizem muito sobre nós. O título dado às literaturas africanas não condiz com um reducionismo ou uma essencialização de um continente farto de referências, com experiências multifacetadas e histórias vivas ao longo dos séculos. Ele diz respeito a um lugar político ocupado por uma produção liderada por escritoras e escritores que se deparam, em um sentido global, com os fragmentos imperiosos de um passado mitificado e sujeito à popularização de “histórias únicas”, como nos lembra a autora nigeriana Chimamanda Adichie.

A leitura de um livro é uma interação de mão dupla. É a partir de nós que lemos e interpretamos as palavras ali presentes, em contato com nossos conhecimentos que encontramos as feições dos personagens e integramos a eles um pouco de familiaridade e estranhamento. Também recebemos informações de modo particular: das intimidades aos adereços mais sutis. Sem essa relação, seria quase impossível dar vida à narrativa — e é justamente por esse movimento que cada pessoa lê a história à sua maneira. Convido aos leitores a conhecer diferentes narrativas, ambientadas em distintas regiões do continente africano, para que possamos ampliar nosso leque de referências e compartilhar um espaço comum: o do conhecimento.
Buchi Emecheta – uma expressão da Nigéria
O primeiro livro publicado por Buchi Emecheta, No Fundo do Poço, foi lançado no Brasil pela editora Dublinense, que também traduziu e publicou Cidadã de Segunda Classe, As Alegrias da Maternidade e, o mais recente, Preço de Noiva. As histórias de Emecheta nos levam até a Nigéria e nos instigam a entender um pouco mais sobre identidades, mulheres com dilemas em equilibrar a vida profissional, a vida doméstica e a vida nos espaços públicos, em relações sociais nas quais nem sempre são favorecidas. Mas, como nenhuma história se dá por um único lado, há também os atravessamentos, os desejos e as lutas que sobressaem nos momentos mais difíceis da vida de seus personagens. É difícil ler Emecheta e não se apaixonar pela duradoura e complexa Adah.
Paulina Chiziane – e que tal conhecer mais de Moçambique?
Paulina Chiziane é uma grande referência para a literatura produzida em língua portuguesa e também no continente africano. A autora é pioneira por ocupar, com suas histórias e rigor de reflexão, importantes barreiras que para muitos assemelham-se a algo intransponível. Ganhadora do Prêmio Camões de 2021, tornou-se a primeira mulher negra africana, como ela mesma se refere, a receber o título. A produção de Paulina é densa, e temos sorte de contar com muitas de suas obras publicadas no Brasil. Sua escrita é marcante desde a década de 1980, com a publicação de livros, contos e uma vasta produção de reflexões sobre temas como gênero, relações políticas e sociais, sempre de uma maneira genuína, que traz à tona aspectos culturais de Moçambique. De seus livros, podemos destacar: Balada de Amor ao Vento, Ventos do Apocalipse, Niketche: Uma História da Poligamia e O Alegre Canto da Perdiz. Paulina recentemente inaugurou uma carreira voltada para o mundo musical, cantando em idiomas locais e trazendo mais uma maneira de nos aproximarmos de diferentes formas de expressão, de ver e sentir o mundo.
Assia Djebar – a Argélia com seus protagonismos
Assia Djebar é, sem dúvida, uma das grandes referências da literatura argelina. A Argélia, que se desvela na reflexão do importante intelectual na luta anticolonial Frantz Fanon, repercute na escrita apurada de Djebar, que usa a língua francesa como aliada na explanação de ideias intrínsecas às lutas argelinas e ao grito pela independência — que configurou um dos cenários mais expressivos do embate colonial. O lugar ocupado pelas mulheres naquela sociedade tornou-se tema recorrente em suas obras, com destaque para A Sede (1957), um de seus poucos livros traduzidos para o português, em Portugal.
Nadifa Mohamed – experiências conectadas do Somali
O intercruzamento de referências, do lugar imaginado e da busca pelo passado no presente, são temas complexos que fazem parte da escrita de Nadifa Mohamed. Um olhar para o que se foi, mas que dá tons à construção de subjetividades, aos elementos constitutivos da identidade e a uma rede de pertencimento. Menino Bamba Negra reflete um pouco dessas histórias, de um tempo passado que orienta o olhar para o futuro. Publicado no Brasil em 2022, pela editora Tordesilhas, o livro faz parte de uma narrativa envolvente, com tramas familiares em um contexto de intensas disputas coloniais. O Pomar das Almas Perdidas foi lançado em 2021, pela mesma editora, e nos relata a história dos desafios da vida nas sombras de um governo contemporâneo, na Somália, juntando histórias de mulheres e visões de um mundo nem sempre fácil, mas vivido por pessoas.
Futhi Ntshingila: uma África do Sul por outros olhos
Sem Gentileza é o nome de estreia da autora no Brasil, também publicado pela editora Dublinense. Uma história que carrega consigo os desafios da vida dos menos abastados, que encontram no mundo urbano dificuldades latentes para seguir o dia a dia com direitos e possibilidades. Ambientada pelo sistema do apartheid, que esteve em vigor na África do Sul de 1948 até a década de 1990, a narrativa nos leva aos dilemas de dar andamento a vidas cheias de intempéries, mas com a visão voltada para o futuro, na busca pelo direito à existência e na reivindicação constante de seus modos de sentir e ser. Assim, é possível alargar a concepção de “grandes contos” para tecer essa história.
Núbia Aguilar é Professora de História da África – IH/UFRJ. [email protected]

