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ECONOMIA/CHINA

Controle da matéria-prima e tecnologias em disputa

por Olivier Zajec
1 de novembro de 2010
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Com a indústria de alta tecnologia e a chamada indústria verde cada vez mais dependentes dos metais de terras raras, usados em lasers, telefones celulares, telas de cristais líquidos etc., a China mostra seus tentáculos no mercado ao se tornar sua maior exportadora mundialOlivier Zajec

A expectativa era de que isso ocorreria primeiro nas explorações a céu aberto da Mongólia interior ou nas minas profundas do bush australiano. Mas foi no meio dos nevoeiros do Mar da China Oriental que a problemática dos chamados metais de “terras raras” – esses metais de elevado valor tecnológico agregado – irrompeu mais uma vez no noticiário. Em 7 de setembro de 2010, um barco pesqueiro chinês que arriscava arrastar suas redes em águas territoriais japonesas foi cercado pela guarda costeira. Ele tentou fugir e acabou batendo em um navio militar nipônico. A tripulação foi presa. O incidente ocorreu perto do arquipélago dos Senkaku. Espalhadas a 170 km ao nordeste de Taiwan, essas oito ilhas quase desertas pertencem a Tóquio, mas Pequim reivindica sua soberania sobre elas desde os anos 1970. No passado, as exigências tinham um tom comedido; agora, passaram ser proferidas de modo mais áspero, o que reflete a progressiva igualdade das relações de força asiáticas entre uma China em ascensão, que se sente apertada em suas águas pouco profundas, e um Japão na defensiva.

Considerando a escalada diplomática que provocou, a colisão revela a extensão do repertório coercivo chinês em relação a uma área altamente estratégica para Pequim. A detenção do capitão do barco chinês, prorrogada por uma decisão do tribunal japonês em 19 de setembro, levou o Ministério das Relações Exteriores a ameaçar que “se o Japão mantiver essa atitude imprudente, ele provará a amargura de sua própria fruta”. De Pequim a Xangai, quer fossem eles incentivados, quer espontâneos, os protestos “patrióticos” e as queimas de bandeiras nipônicas se multiplicaram. Até que “a fruta amarga” fez finalmente sentido, por volta do dia 20 de setembro, sob a forma de suspensão das exportações de terras raras chinesas rumo aos portos japoneses. Não houve anúncio oficial mas, de Hong Kong a Tóquio, passando por Londres, aqueles que lidavam com matérias-primas confirmaram: os carregamentos foram atrasados e até mesmo bloqueados. O efeito foi espetacular. Ao transpor a queda de braço para o terreno dos recursos energéticos, Pequim evidenciou uma vulnerabilidade do Japão e de muitas outras potências interessadas nesses preciosos minérios.

As terras raras integram um grupo de 17 metais de propriedades únicas, utilizadas cada vez mais maciçamente na indústria de alta tecnologia. Lasers, telefones celulares, telas de cristais líquidos, entre outros, contêm esses metais e, do iPhone às novas funções desempenhadas pelas mais recentes gerações de terminais de “conexão de massa”, baseiam-se em parte nas propriedades desses elementos. As novas indústrias “verdes” também enfrentam essa dependência: baterias de veículos híbridos, painéis solares ou turbinas eólicas são dependentes desses metais (neodímio, lutécio, disprósio, európio, entre outros), que também se revelam promissores para o refino do petróleo. Por fim, a indústria de defesa usa esses metais para sistemas tão cruciais quanto os dos mísseis de cruzeiro, das munições teleguiadas, dos radares ou das blindagens reativas.

 

Cresce a demanda

A demanda mundial por esses metais vem crescendo em mais de 10% ao ano. Em uma década, a produção passou de 40 mil para 120 mil toneladas/ano. As indústrias estadunidenses, japonesas e europeias já não podem mais prescindir deles. Em geral, quanto mais inovador (resistente, leve, de tamanho reduzido, “ecologicamente compatível”) é um modelo industrial, maior sua dependência das terras raras. O Japão é um caso emblemático dessa tendência: sozinhas, as baterias dos veículos híbridos Prius da Toyota necessitam de 10 mil toneladas de terras raras por ano para serem montadas. De modo geral, o desenvolvimento da indústria “verde” poderia causar um aumento da demanda mundial da ordem de 200 mil toneladas/ano: centenas de quilos de terras raras entram na composição de uma só turbina eólica de grande dimensão.

Raras, essas substâncias não o são no sentido estrito. Segundo o US Geological Survey, Pequim não teria mais do que 40% a 50% das reservas mundiais. Concentrações confirmadas de terras raras foram encontradas em muitos outros países, dos Estados Unidos à Austrália passando pelo Canadá, Cazaquistão e Vietnã. Nessas condições, por que tanta sensibilidade em relação a essa questão, principalmente no Japão? Porque em 2010, 97% das 125 mil toneladas de óxidos de terras raras extraídas anualmente da superfície do planeta são chinesas. Um monopólio quase absoluto. E bastante recente. Desde a descoberta, em 1927, das suas imensas jazidas, em Bayan Obo, até meados dos anos 1960, os chineses não haviam se interessado muito na vantagem competitiva que elas lhes proporcionavam. A produção estava então dominada pelos Estados Unidos. Foi durante o governo de Deng Xiaoping, com o “Programa 863” de 1986, que Pequim optou por uma estratégia de longo prazo, que visava desenvolver o domínio perene da exploração das terras raras, da extração à fabricação de produtos semiacabados, passando pela separação e transformação dos materiais de base.

Alguns observadores avaliam que a China poderia reorientar progressivamente sua política das terras raras, de uma estratégia da dependência para a estratégia do estrangulamento. Dentro dessa hipótese, Pequim reduziria progressivamente o volume das suas exportações. E isso com dois objetivos. De um lado, forçar uma subida dos preços e, com isso, rentabilizar seu monopólio de fato (o neodímio foi cotado em US$ 32 mil a tonelada em agosto de 2010, o que representou um aumento de 60% em um ano). De outro, para reservar suas terras raras para a incrementação tecnológica da produção industrial autóctone. Isso porque, após produzir terras raras “brutas” ou produtos semiacabados, e delas assegurar-se o monopólio, a China ambiciona fabricar daqui para a frente produtos acabados de maior valor agregado, tendo como meta uma atividade totalmente integrada. Escorada numa quase interrupção das exportações desses minérios, a combinação daria a ela um trunfo estratégico considerável.

Ao contrário do que afirmam certos relatórios que insistem no maquiavelismo industrial de Pequim, esse movimento não tem sido minuciosamente pilotado pelos hierarcas do Comitê Central. Isso porque a estratégia de “incrementação tecnológica” vai ao encontro de uma explosão do crescimento e do consumo chineses, que vai acelerando o processo e obriga a China a abastecer prioritariamente seus próprios industriais, sem dúvida mais rapidamente e mais brutalmente do que ela gostaria. Portanto, foi por efeito de um conjunto de razões complementares, ao mesmo tempo desejadas (estratégia de influência política, ambições industriais) e não desejadas (crescimento do mercado interno de consumo) que a China reduziu efetivamente 40% de suas exportações de terras raras nos últimos sete anos e anunciou em julho de 2010 que essas últimas voltariam a retroceder em mais de 70% no segundo semestre de 2010, para 8 mil toneladas contra cerca de 28 mil toneladas no mesmo período no ano passado.

 

Monopólio

Sem disporem de outra solução, os fabricantes estrangeiros de produtos de alta tecnologia teriam de transferir seus centros de produção para a China para garantir acesso perene aos componentes de base. Muitos deles já o fizeram. Segundo certos analistas, um dos desdobramentos seria pior ainda: com o objetivo de estender a qualquer custo seu monopólio, Pequim estaria incentivando seus industriais a assumir o controle capitalista das poucas companhias estrangeiras que lidam de perto (mineradoras australianas, metalúrgicas canadenses) ou de longe (transformadoras europeias) com a atividade das terras raras.

Em 2009, a China Investment Corp adquiriu 17% da Teck Resources Ltd, uma companhia mineradora muito importante no Canadá. Na Austrália, a “agressividade” chinesa no setor, com a tentativa de tomada de controle da Lynas Corporation, foi rechaçada pelas autoridades de Camberra no final de 2009, o que não impediu, no mesmo ano, outra empresa chinesa de adquirir 25% de um produtor local de terras raras, a Arafura Resources Ltd. Até mesmo a Mountain Pass, principal jazida “dormente” norte-americana de terras raras, por pouco não passou a ser controlada por uma sociedade chinesa: em 2005, pouco após o fechamento dessa mina californiana, a China National Offshore Oil Corporation (CNOOC) deu entrada a uma oferta para adquirir a companhia petroleira estadunidense Unocal. Não havia nenhuma relação aparente, a não ser o fato de que a Unocal, por intermédio da Molycorp que ela adquirira em 1978, era de fato e de direito a proprietária da Mountain Pass. A Unocal finalmente permaneceu estadunidense em consequência de uma bronca do Congresso e da opinião pública em torno da questão da autonomia petroleira dos Estados Unidos. Por pouco, não matou dois coelhos com uma só cajadada (petróleo mais terras raras) com essa oferta. De modo mais geral, Pequim andou demonstrando sua aptidão em estruturar de modo sofisticado uma estratégia de conjunto, baseada na sua ação de alavanca sobre os mercados, nas suas riquezas minerais, na sua força de dissuasão capitalista e na unicidade de decisão do seu executivo. Mas o seu trunfo principal poderia ser, mais simplesmente, a inexistência de uma coordenação das políticas de autonomia energética dos atores ocidentais.

 

EUA em alerta

Hoje, não se fala em outra coisa nos Estados Unidos senão em terras raras. Entre 1995 e 2010, outra dimensão entrou na equação: a arrebentação do poderio militar da China. Uma série de estudos e análises dedicados às “rare earths” floresceu em Washington com uma nítida aceleração da frequência e da seriedade dos alertas. Particularmente envolvido com a questão, o Pentágono vem se dedicando a exercícios destinados a sensibilizar os parlamentares e o executivo do seu país. No campo da defesa, o National Defense Authorization Act para o ano fiscal de 2010, em sua seção 843, ordena expressamente ao GAO (General Accountability Office, o tribunal de contas estadunidense) de estudar o lugar ocupado pelas terras raras na cadeia de equipamentos logísticos e de capacitação do ministério da defesa. A lista é extensa – munições teleguiadas de precisão, lasers, sistemas de comunicação, sistemas de radar, aviônica, equipamentos de visão noturna ou ainda satélites – e está fadada a ampliar-se: os dispositivos em desenvolvimento nos laboratórios industriais de defesa quase sempre comportam terras raras.

O ministério da defesa revelou que nos últimos anos havia dado por falta de certos componentes à base de terras raras (em particular, o lantânio, o cério, o európio e o gadolínio), o que provocou atrasos em certos programas militares. Já em 2003, a força aérea, fortemente envolvida nos programas secretos e nas tecnologias de ruptura (comunicação, furtividade), havia manifestado sua preocupação alertando para a sua dependência dos ímãs de forte potência à base de neodímio. Pilotada pelo ministério da defesa, uma “ampla revisão” das dependências das terras raras dos Estados Unidos – relativa a 24 sistemas de armas de importância decisiva para o Pentágono – deveria supostamente estar concluída no final do mês de setembro ou no começo de outubro de 2010.

 

Reação tardia

O esforço já vem tarde. E pode-se perfeitamente imaginar que a China, por sua vez, já tenha lançado o equivalente dessa “revisão” para avaliar quais poderiam ser hoje os meios de pressão discretos à sua disposição para atrapalhar o fornecimento de um ou outro elemento particularmente fundamental para as tecnologias de ruptura nas quais se baseia a dianteira militar estadunidense. O que seria bastante “legítimo”, se nos referirmos aos princípios de Sun Ze. Para os tomadores de decisões do Capitólio, “a vontade dos chineses de limitar as exportações irá acarretar num problema de competitividade para os Estados Unidos. De um lado, nós temos de garantir nosso abastecimento, e de outro, permitir o desenvolvimento das minas de terras raras no nosso solo. Os Estados Unidos não podem depender por completo das importações chinesas”.

O know-how e a cultura industrial foram perdidos no espaço de poucos anos, mas serão necessárias várias dezenas de anos para fazer renascer tudo isso, em muitos casos porque a perícia humana correspondente evaporou. É verdade, os Estados Unidos irão finalmente reabrir Mountain Pass, em 2011. É verdade, a Toyota agora passou a comprar suas terras raras no Vietnã e em outros lugares, lançando mão de parcerias de longo prazo, enquanto o ministério japonês da indústria investe nas minas do Cazaquistão e do Canadá. É verdade, a francesa Rhodia vem firmando seus laços com a Austrália, que desponta cada vez mais como um fornecedor alternativo em relação ao monopólio chinês. Mas será necessário que a crise econômica não impeça esses países e atores privados de sustentar investimentos de longo prazo. Nada é menos certo.

A menos que um voluntarismo estratégico forte e desconectado das leis de mercado acabe vingando, a verdade é que os industriais norte-americanos, europeus e japoneses dependerão mais e mais dessas substâncias e, portanto, dos componentes de base “chineses” que delas constituem o fluxo ultramajoritário. A Europa? Em 17 de junho de 2010, um relatório da Comissão disparou um sinal de alarme em relação ao estado crítico para a sua economia do abastecimento de 14 matérias-primas. Nele, as terras raras figuravam em lugar de destaque. Como evitar os erros do passado, assegurar uma relativa autonomia de abastecimento para a Europa e evitar perder competências nesses setores estratégicos? Longe das ilhas Senkaku, os antigos operários da falecida companhia Magnequench, nos confins de Indiana, sem dúvida têm uma opinião interessante sobre o assunto.

Olivier Zajec é encarregado de estudos da Companhia Européia e Inteligência Estratégica (Paris).



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