COP 30 evidencia a permanência de hierarquias coloniais
Episódio envolvendo a fala de Friedrich Merz revela o contraste entre a centralidade amazônica no clima e a visão eurocêntrica que ainda orienta decisões globais
Ao longo dos últimos dias em Belém, durante e após a COP 30, um discurso público ganhou destaque por ilustrar o que a pesquisadora Cida Bento denomina pacto da branquitude: a tendência de transformar experiências e referenciais do Norte global em parâmetro universal, enquanto territórios, culturas e modos de vida não brancos são desqualificados ou exotizados. Esse pacto opera silenciosamente, naturalizando hierarquias e produzindo a impressão de que apenas determinadas regiões do mundo estariam aptas a conduzir decisões consideradas civilizatórias.

O episódio mais emblemático ocorreu após o retorno da comitiva alemã. Em um discurso em Berlim, o chanceler Friedrich Merz relatou que, ao perguntar aos jornalistas que o acompanhavam no Brasil quem gostaria de permanecer em Belém, “nenhum levantou a mão”, acrescentando que todos teriam ficado “felizes por voltar daquele lugar”. As declarações foram registradas por veículos como AP News e Euronews. O comentário, embora formulado como uma anedota, provocou reação imediata tanto no Brasil quanto na Alemanha, sendo amplamente interpretado como depreciativo em relação à cidade.
No mesmo discurso, Merz descreveu a Alemanha como “um dos países mais bonitos do mundo”, estabelecendo um contraste simbólico que não é neutro. Ao opor a Amazônia a um ideal de beleza e excelência europeia, reinscreve a lógica analisada por Bento: a reafirmação das referências do Norte global como universais e a conversão de territórios amazônicos em espaços de desconforto ou inadequação.
É nesse ponto que a contribuição teórica de Rosa Luxemburgo – filósofa, economista e uma das principais intelectuais marxistas do início do século XX – se torna decisiva. Em A Acumulação do Capital, Luxemburgo examina os mecanismos pelos quais o capitalismo europeu se expandiu subordinando – e destruindo – formas sociais classificadas, sob o olhar colonial, como “inferiores” ou “atrasadas”. Sua análise mostra como a expansão imperialista dependeu da deslegitimação desses povos e de seus territórios.
Embora Bento e Luxemburgo utilizem conceitos distintos e pertençam a épocas diferentes, ambas convergem no que há de estrutural: a hierarquização que coloca o Norte global como norma e trata os territórios do Sul como periféricos, insuficientes ou incapazes. Essa lógica se reproduz, hoje, tanto nas políticas econômicas que moldam relações internacionais quanto nos discursos simbólicos que definem quais espaços e quais povos são reconhecidos como sujeitos políticos plenos.
Nesse sentido, a fala do chanceler alemão não é um incidente isolado, mas um sintoma de uma estrutura persistente. Trata-se da mesma forma histórica de ver o mundo que atribui centralidade intrínseca à Europa e reserva ao Sul global o lugar de cenário – jamais o de protagonista – mesmo quando o epicentro material da crise climática se encontra, justamente, nos territórios que ele desqualifica de maneira implícita.
Por isso, é fundamental reafirmar o óbvio: os povos da Amazônia não dependem de validação externa. Suas cidades, formas de organização social e modos de existir possuem autonomia, história, conhecimento e autoridade política para ocupar – e liderar – debates globais.
A COP 30 apenas tornou visível aquilo que seus povos sustentam há séculos: a Amazônia não é periferia de nada – é a espinha dorsal do futuro climático do planeta.
*Katarine Flor é jornalista e coordenadora de comunicação na Fundação Rosa Luxemburgo, atuando em projetos voltados à justiça social, ao direito à cidade e à democratização da comunicação no Brasil. Especialista em Comunicação Organizacional pela Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), é coautora nas coletâneas Mobilidade antirracista e Politizando Clima. Coordenou a comunicação do relatório “Em nome do clima: mapeamento crítico”. Diretora do documentário “Mineração, Lucro e Devastação – a farsa da transição energética”.

