Crianças e adolescentes: sinais para ficar atento à saúde mental

SETEMBRO AMARELO

Crianças e adolescentes: sinais para ficar atento à saúde mental

por Renata Ishida
9 de setembro de 2022
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Uma cultura que coloca a felicidade como imperativo pode ser angustiante demais, principalmente para crianças e adolescentes que estão em fase de desenvolvimento emocional

Setembro chegou e, desde 2015, no Brasil, ele tem sido um mês dedicado a prevenção do suicídio e, consequentemente, acaba sendo uma oportunidade para falarmos mais amplamente sobre Saúde Mental.

Pode parecer estranho a persistência na temática em alguns meios de comunicação, mas um assunto que continua sendo um tabu na sociedade precisa ter espaço para desfazer seus estigmas, oportunizando caminhos de cuidado para quem precisa.

Mas por que é tão difícil falar sobre saúde mental? Muitas vezes, as pessoas têm receio de não serem compreendidas ou não serem levadas a sério. Ou ainda de serem rotuladas como fracas ou sentimentais.

E por que ser sentimental seria uma ofensa? Arrisco dizer que, para muita gente, a saúde mental está relacionada a uma sensação de bem-estar, e esta, por sua vez, vem associada à imagem de alguém alegre, sorrindo e cheio de disposição. Em outras palavras, ainda existe uma aproximação entre saúde mental e felicidade. E é aí que mora o grande perigo, porque uma não é sinônimo da outra.

Uma cultura que coloca a felicidade como imperativo pode ser angustiante demais, principalmente para crianças e adolescentes que estão em fase de desenvolvimento emocional. Imagina se não pudéssemos ficar tristes numa situação de perda ou com medo diante de uma situação de risco?

A vida nos apresenta diversos desafios, frustrações e surpresas, e, com isso, são esperados momentos de tristeza, de raiva, de medo, entre outros. É por meio dessa diversidade de sentimentos que podemos compreender melhor o que acontece no mundo e como as coisas nos afetam. Sentir, e mais do que isso, reconhecer e acolher os sentimentos, é a possibilidade de aprender e se desenvolver. É assim que construímos as ferramentas necessárias para passar pelos obstáculos da vida.

Essa construção se dá em relação com o outro. Dessa forma, a figura de um adulto, seja um educador ou familiar, como alguém que legitima os sentimentos, escuta sem julgamentos e respeita é fundamental para um desenvolvimento emocional potente. A disponibilidade para escuta não significa ter resposta para tudo, mas sim fazer-se presente e proporcionar um espaço seguro.

Saber que é possível ter espaço para falar e sentir-se apoiado e compreendido, mesmo quando a condução do adulto for ter que colocar algum limite, além de ser um dos principais pilares para a manutenção da saúde mental, também aumenta a probabilidade de identificarmos um possível adoecimento de forma precoce. Mas como saber que isso está acontecendo?

Vários comportamentos podem ajudar a acender um sinal de alerta. Alguns deles são: mudança repentina de humor, mudança de hábitos alimentares, isolamento social, baixo rendimento escolar, baixa autoestima, agressividade, agitação psicomotora, autolesão, faltas frequentes, alteração no sono e apatia.

Foto: Unsplash

Mas, como em cada pessoa a experiência é diferente, esses três pontos podem ajudar na identificação de situações que exigem mais atenção: a persistência dos sintomas (a questão foi pontual ou tem sido frequente e repetitiva?); o prejuízo na vida (que consequências esse mal-estar ou comportamento está trazendo?); e o sofrimento (qual é a intensidade do sofrimento).

Ao constatarem alguns sinais, é muito válido que as famílias procurem um especialista, mas também, e principalmente, estejam abertas à possibilidade de que o “tratamento” seja para elas e não necessariamente para as crianças. Lembremos que “cuidar de quem cuida” não pode ser apenas um slogan, mas sim uma prática.

Não sugerimos que as famílias realizem diagnósticos, mas sim que possam ouvir os sentimentos das crianças e adolescentes, legitimando-os. E isso não acontece apenas no mês de setembro. Que bom! Afinal, cuidar da nossa saúde é (ou deveria ser) uma prática cotidiana e sem fim.

 

Renata Ishida é gerente pedagógica de conteúdo do LIV e psicóloga clínica.



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