Crônica de um sonho jamaicano - Le Monde Diplomatique

SER ARTISTA E ESCAPAR DA POBREZA

Crônica de um sonho jamaicano

por Romain Cruse
5 de novembro de 2012
compartilhar
visualização

Poucos jamaicanos acreditam que o novo plano de ajuste estrutural atualmente em negociação com o Fundo Monetário Internacional (o 14º desde 1977) vai tirá-los da pobreza. A indústria fonográfica desperta mais esperanças – até aceitar todos os sacrifícios para tentar atingir a glóriaRomain Cruse

(O cantor Elephant Man durante apresentação em Nova York)

Mocassins impecáveis, calça clara, camisa imaculada e boné branco, Courtney é um desafio ambulante à poeira da capital, uma das mais quentes e secas do Caribe. Em Kingston, é possível ser pobre edigno. O swag– a aparência – conta ainda mais quando se quer ser, um dia, uma estrela do dancehall (ver box).

Esse termo, que em sentido literal significa “pista de dança”, designa um gênero musical que surgiu nos anos 1980. De maneira mais geral, trata-se de um sinônimo de “música jamaicana”, englobando, por extensão, todas as práticas ligadas à sua produção e consumo, do estilo de roupa aos grupos de dança, passando pelo sound system.1 Courtney canta; ele se prepara para gravar uma nova música.

Tendo como família apenas uma tia que vive do outro lado da cidade, sem dinheiro no banco, com um trabalho que lhe garante 12 mil dólares jamaicanos (R$ 270) a cada quinze dias2 para fazer a manutenção dos jardins das mansões da burguesia de Beverly Hills, Courtney não está perto da glória. Seu salário o coloca na média do país. Ele paga o aluguel, as contas, compra comida – mas raramente os três ao longo do mesmo mês. À imagem de centenas de jamaicanos, o jovem passa boa parte do tempo livre numa das dezenas de estúdios de gravação existentes na cidade: como diz o provérbio, “ninguém fica rico trabalhando”, e a música constitui o atalho mais óbvio para uma vida menos miserável, pelo menos para os que se mantêm afastados das armas e das gangues.

Fazer sucesso, muito rápido, gravando um hit: a esperança se alimenta do percurso de um punhado de estrelas saídas do gueto – Mavado, Elephant Man, Beeni Man, Vybz Kartel etc. – cujos cachês ultrapassam às vezes R$ 100 mil por show. Pode-se vê-los passear pela Hope Road, a principal avenida da capital, dirigindo carros conversíveis alemães, e a imprensa local alardeia suas aventuras. Mas, para a grande maioria das pessoas, o dancehallcontinua sendo a música que acompanha a lida do dia a dia, nas mil e uma atividades do setor informal (45% do produto nacional bruto [PNB] e dois terços da população envolvida), na indústria do turismo ou nas zonas francas (o setor terciário representa cerca de 30% da produção de riqueza real do país).3

Para circular entre o estúdio de gravação, os jardins dos bairros chiques e seu apartamento, Courtney pedala uma velha mountain bike vermelha, que ele freia com a sola do sapato na roda traseira. Situado ao pé da colina de Wareika, seu quarto faz parte de uma pequena “guarnição”, bairros pobres controlados por gangues ligadas aos partidos políticos da Jamaica. Estamos na zona leste da cidade, no coração de um emaranhamento de bastiões desse tipo, que floresceram sobre o que restava dos belos bairros construídos na época da independência, em 1962. Concebidos para a classe média, os imóveis foram abandonados há muito tempo por sua população original. Divididos em quartos, eles são hoje ocupados pelos que não têm meios de ir para outro lugar, mas puderam escapar das favelas construídas na zona oeste de Kingston em torno do lixão, em Riverton ou no manguezal, em Seaview, por exemplo. Os muros que rodeiam as avenidas são pintados com as efígies do herói nacional Marcus Garvey,4 do lendário Bob Marley, do ex-primeiro-ministro socialista Michael Manley (no poder de 1972 a 1980, depois de 1989 a 1992) e de alguns chefes de guarnição locais, os Dons.

O quarto de Courtney é grande o suficiente para abrigar uma cama coberta por um colchão de espuma, uma velha geladeira, uma pequena televisão, um aparelho de som hi-fi e uma grande bacia destinada a recolher as goteiras mais importantes do teto. Cortinas rosa com flores escondem as venezianas de metal que permanecem constantemente fechadas. O fio de eletricidade pirateado atravessa o quarto em diagonal, carregado de alguns cabides com roupas. Uma tomada isolada grosseiramente com fita preta pende na parede, permitindo o funcionamento permanente de um ventilador com controle remoto. A luz se acende ao rosquear a lâmpada, a porta se fecha colocando um pedaço de caneta no gancho reservado ao cadeado. No resto da cidade, a simples menção do nome de um desses bairros suscita um gesto de desdém e medo: o clientelismo político, o tráfico de drogas e a luta pelo controle da extorsão dos comércios da capital encheram essas guarnições de armas de guerra. Os membros das gangues se matam e as armas se encontram nas mãos de jovens adolescentes, os gunbwoy

Monday morning blues, bills to pay and the youth want shoes, another Monday morning blues, it’s not easy leaving downhere in the ghetto, everyday is another trial, don’t you know…5 Courtney aprendeu a cantar na igreja. Ele aperfeiçoou sua arte ao longo dos anos, sem realmente pensar a respeito. Com um timbre de voz de soul norte-americano, ele cantarola de manhã, arrumando os sapatos, os hinos melancólicos do gueto. À noite, diante da passagem de uma jovem que ele considera bonita, improvisa em patwa, o crioulo jamaicano, num tom mais atrevido. Um amigo o acompanha batendo a rítmica característica do dancehall com duas garrafas.

A cena acontece diante do pequeno bar do bairro. Na indiferença geral, uma menina de uns 10 anos carrega um galão de água, o corpo retorcido para o lado da mão livre. Um pouco mais acima, crianças com a pele brilhante, torso nu, brincam de polícia e bad bwoy(“bandido”), com pistolas de madeira. Uma estudante de uniforme revista os bolsos do irmão menor imitando os modos violentos dos squadies (policiais). O menino tem as mãos contra a parede e as pernas separadas enquanto a irmã lhe tateia os bolsos e administra golpes fortes atrás da cabeça. De repente, as crianças debandam. Um silêncio pesado enche a rua. Dois jipes do Exército patrulham lentamente a rua esburacada, abrindo caminho para um cortejo de cinco viaturas de polícia. O comboio é protegido por trás por dois veículos militares, com armamento pesado e atirador no teto. A polícia jamaicana foi formada pelos colonos britânicos para impedir os pobres de se revoltar. Meio século depois da independência, ela protege os ricos jamaicanos das gangues que essa mesma burguesia criou para conservar o poder: as gangues jamaicanas nasceram com os primeiros partidos políticos, protegendo os encontros de uns, atacando os do partido adversário, impedindo certas pessoas de chegar aos locais de voto. No início, foram empregados nessa função estivadores do sindicato dos anos 1940. Depois passaram a pagar grupos de jovens de certos bairros. As primeiras armas chegaram ao gueto com o apelido de vote getters(“conquistadores de votos”).

Foi nesse ambiente que Courtney cresceu; é o cenário de suas canções. É também o cenário do dancehall. Os dois artistas mais populares do país, Vybz Kartel e Buju Banton, estão atualmente na prisão, respectivamente por assassinato e tráfico de drogas. O terceiro, Jah Cure, conheceu o sucesso no centro penitenciário de Santa Catarina, onde cumpriu pena de oito anos por estupro.

O sistema de produção de uma canção se organiza em três etapas: a gravação de um título, a mixagem e a promoção. Muito raros entre os jovens são os que gravam um tune (uma canção) em menos de três horas, no valor de 1.500 dólares jamaicanos (R$ 34) a hora no Cell Block e quase o dobro em um estúdio renomado como Tuff Gong. Um corista para as harmonias? Some nada menos que 5 mil dólares jamaicanos. A mixagem, uma etapa indispensável, já que torna o título comercializável? Mais 5 mil dólares jamaicanos, no mínimo… Mas o mais duro, e o mais caro, ainda está por vir: conseguir que sua música seja notada no meio dos milhares de títulos produzidos todos os anos no país.

Então é indispensável tocar em uma das principais rádios, como a Irie FM, e idealmente em seus charts, assim como nos das redes de televisão dedicadas ao dancehall, como a RE TV ou a Hype. O que quer que digam os responsáveis, o acesso é pago. Uma simples difusão cotidiana durante três meses em um dos programas da primeira rádio da ilha custa cerca de 50 mil dólares jamaicanos (R$ 1.125) por baixo do pano. No entanto, nem todas as músicas são aceitas, e mais vale passar por uma pessoa que conhece bem o apresentador, um agente, por exemplo. O que aumenta ainda mais os custos… A transação é informal, por isso, não há nenhuma garantia de que a música vai realmente ser tocada. E ter acesso aos charts custa ainda mais caro. A mesma coisa para ter acesso aos programas de televisão: acesso pago, mais a realização do vídeo… Apenas essa etapa de promoção, caso se queira que seja benfeita, custará muito mais que um ano do salário de um jovem como Courtney. É apenas a esse preço que um artista pode esperar obter um reconhecimento local, depois internacional, e enfim começar a viver de sua música.

O dancehall alimenta de forma mesquinha uma grande parte da população jamaicana: vendedores de bebida e comida durante os shows, motoristas de ônibus e táxis, dançarinos, seguranças, técnicos, vendedores de CDs piratas, responsáveis de manutenção, funcionários dos pequenos salões de beleza aos quais vão as mulheres antes desses eventos, e todos os reis do jeitinho que gravitam em torno dos shows e dos sound systems. Mas o dinheiro se concentra em outro lugar, lá onde o capital é investido: agentes de artistas, produtores, promotores, investidores, grandes marcas internacionais patrocinando os eventos, gravadoras estrangeiras… e traficantes de drogas. Pois as conexões tecidas pela música através do mundo servem ao tráfico. Assim, a economia do dancehall,com sua organização piramidal, reflete a do país: lucros concentrados nas mãos de uma pequena burguesia de pele clara, para a qual a independência não abalou a dominação, e de uma nova classe rica negra, surgida no fim dos anos 1970, principalmente no setor financeiro.

Se a economia jamaicana se diversificou desde a independência (indústria da mineração, zonas francas, turismo, “indústria da música”), sua estrutura não evoluiu. Alguns economistas caribenhos falam de uma “economia da plantationmodificada”:6 uma economia de plantationcujos lucros se concentram nas mãos da burguesia local e dos investidores estrangeiros, mas que não depende mais unicamente do setor agrícola. Como anunciado desde 1961 por Frantz Fanon em Os condenados da Terra, as novas classes ricas locais se concentraram quase em todos os lugares em diversificar o sistema colonial… para mantê-lo igual.

BOX:

Do “grito do porão” aos gemidos do gueto

Na Jamaica, a cultura musical do dancehall surgiu na época das plantations. Como a própria linguagem crioula, ela carrega muita coisa da África, mas se transformou pelo sincretismo do contato com os europeus. Essa cultura “muda com a troca, sem se perder”, segundo a expressão cara ao poeta martiniquense Édouard Glissant.1 Desde então o dancehall evoluiu, como a economia jamaicana, mas sua estrutura permanece a mesma. As pessoas se reuniam na época em volta de tambores e instrumentos improvisados para dançar nos confins da fazenda. Ali se zombava dos senhores, fazia-se comentário social, agradecia-se, cantavam-se cantos de encorajamento e canções de amor por vezes atrevidas: todos os ingredientes do dancehall contemporâneo, por trás de suas rítmicas agora criadas por computador.

Nesse meio-tempo, o mento, o ska e o reggae foram algumas das manifestações da evolução dessa música. Encontramos esses temas tocados por rumba box,2 sardin tin guitars3 e também por instrumentos mais modernos. Poderíamos aqui retomar a análise de outro escritor martiniquense, Patrick Chamoiseau, sobre os contadores e outras formas de pré-literatura caribenha, e ver nascer o dancehall no “grito do porão” dos navios negreiros, durante a passagem do meio (a travessia do Atlântico).4 Na ilha, a música teve, ao longo de sua história, a função de válvula de escape psicológica, oferecendo uma saída artística ao sofrimento dos sem raízes com condições de vida miseráveis. Quando Bob Marley encontrou um de seus primeiros produtores jamaicanos, no início dos anos 1970, este lhe disse: “Você vem de um bairro onde as pessoas gemem o tempo todo. Vocês serão os ‘wailers’…”.5 (R. C.)

Romain Cruse é Professor da Universidade das Antilhas e da Guiana (UAG_Martinica) e do Centro de Estudo e Pesquisa em Economia, Gestão, Modelização e Informática Aplicada (Ceregmia).



Artigos Relacionados

ARGENTINA

Isso não pode acontecer aqui...

Séries Especiais | Argentina
por José Natanson
RESENHAS

Miscelânea

Edição 180 | Brasil
ENTREVISTA – EMBAIXADORA THEREZA QUINTELLA

Balança geopolítica mundial deve pender para o lado asiático

Edição 180 | EUA
por Roberto Amaral e Pedro Amaral
UMA NOVA LEI EUROPEIA SOBRE OS SERVIÇOS DIGITAIS

Para automatizar a censura, clique aqui

Edição 180 | Europa
por Clément Perarnaud

Para automatizar a censura, clique aqui

Online | Europa
EMPREENDIMENTOS DE DESPOLUIÇÃO

Música e greenwashing

Edição 180 | Mundo
por Éric Delhaye
NA FRANÇA, A NOVA UNIÃO POPULAR ECOLÓGICA E SOCIAL

Os bárbaros estão em nossas portas!

Online | França
por Pauline Perrenot e Mathias Reymond
“NO TOPO, O PODER CORROMPIDO; NA BASE, A LUTA INTRÉPIDA”

A revolta popular no Sri Lanka

Edição 180 | Sri Lanka
por Éric Paul Meyer