Da guerrilha na Alemanha às favelas brasileiras - Le Monde Diplomatique

RESENHA

Da guerrilha na Alemanha às favelas brasileiras

Acervo Online | Alemanha
por Marijane Vieira Lisboa
outubro 4, 2018
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Resenha do livro de Lutz Taufer, Atravessando fronteiras: da guerrilha urbana na Alemanha ao trabalho comunitário nas favelas brasileiras (São Paulo, Autonomia Literária, 2018). Aproveite oferta especial: assine o Diplo e receba um exemplar do livro

As memórias de Lutz Taufer, Atravessando fronteiras: da guerrilha urbana na Alemanha ao trabalho comunitário nas favelas brasileiras, constituem um livro para duas gerações e dois países. Ex-membro da guerrilha urbana Fração do Exército Vermelho (Rote Armee Fraktion, em alemão), mais conhecida pelo apelido dado pela imprensa sensacionalista de Banda Baader-Meinhof, Lutz Taufer passou vinte anos nas cadeias alemãs.

Pela ótica de uma criança e de um adolescente que nasce e cresce em uma Alemanha derrotada ao fim da Segunda Guerra Mundial, nós brasileiros, mas também a atual juventude alemã, podemos perceber, com espanto, como praticamente nada havia mudado na mentalidade militarista, antissemita e racista com que a maioria da população alemã apoiara entusiasticamente a aventura nazista. De fato, sabemos hoje que os planos dos Aliados de desnazificar a Alemanha, apurando a participação nos crimes nazistas e expurgando do aparato de Estado seus colaboradores, foram rapidamente engavetados na medida em que a Alemanha se tornava o epicentro da Guerra Fria. Muitos quadros de direção do Estado nazista, especialmente aqueles dos serviços de segurança, da Justiça e do Ministério Público, mas também do serviço médico e da rede de professores públicos que não só foram membros do Partido nazista, mas também das SA e das SS, foram mantidos em seus postos, como comprovam recentes pesquisas históricas. Após Nurenberg, um longo silêncio instalou-se naquele país a respeito do Holocausto e somente com os processos de Auschwitz, em 1965, vinte anos depois, e por iniciativa de um teimoso procurador, os piores entre os guardas das SS em Auschwitz foram condenados. O núcleo duro do Estado alemão mudou apenas os inimigos: antes os judeus e os aliados ocidentais, agora os comunistas e os russos.

Lutz pertenceu àquela juventude dos anos 1960, que lá, como cá e em boa parte do mundo se rebela e se torna importante sujeito político, naquilo que passamos a chamar de movimento estudantil. Isso se deveu à necessidade das modernas economias industriais de formar amplas camadas de especialistas, ampliando para isso significativamente o ensino universitário e o número de jovens que conviviam nesses ambientes. Contracultura, movimentos antiautoritários, exigência de democratização das instituições acadêmicas, oposição a regimes ditatoriais e à política imperialista dos Estados Unidos, solidariedade com as lutas de independência e contra agressões imperialistas, Vietnã, Che Guevara e Marcuse, tais causas surgiram em todas as partes, ainda que não com a mesma intensidade.

A Fração do Exército Vermelho, RAF, foi um dos grupos herdeiros do movimento estudantil alemão, que explode quando a polícia berlinesa mata um estudante que participava de uma manifestação de protesto contra a visita do ditador Reza Palevhi, Xá da Pérsia, em 1967. A violência com que são combatidos os estudantes e que leva à tentativa de assassinato de um de seus líderes, Rudi Dushke, faz com que parte desses jovens acreditem que a Alemanha, já vista como importante base de apoio do imperialismo norte-americano, estava regressando ao nazismo e que era a hora de partir para a ação direta, na forma da luta armada. O fato de que alguns anos antes o Partido Social-Democrata tivesse decidido compor uma coligação com os partidos de centro-direita contribuía para que amplos setores da jovem esquerda alemã perdessem a esperança na política parlamentar.

Influenciados pelas leituras de Marx, Mao e também Marighela e pelos exemplos da luta guerrilheira dos Tupamaros, do Vietcongue e dos movimentos de independência das colônias africanas, um grupo de jovens funda a RAF e realiza ataques contra instalações norte-americanas no país, inicialmente sem vítimas humanas. A reação do Estado é violenta. Descobertos e presos, são sujeitos a condições carcerárias as mais monstruosas, nas quais, à falta de choques elétricos e paus-de arara, há um paroxismo de torturas psicológicas obtidas por meio de isolamento rigoroso e duradouro, com supressão de ruídos e cores, impedimento de receber visitas e assistência adequada de advogados. Greves de fome dos prisioneiros são combatidas pelo aparato policial com a tortura da alimentação forçada e a subtração de água, o que resultou na morte de um dos seus primeiros presos. É nesse quadro que Lutz e outros companheiros imaginam tomar a embaixada alemã em Estocolmo e exigir a libertação dos membros da RAF presos na Alemanha. A ação fracassa, os ocupantes matam dois funcionários, dois companheiros morrem e os demais são presos, entre eles, Lutz. Submetido ao tal “tratamento mortal”, em celas especialmente construídas para os membros da luta armada, Lutz descreve como é fácil levar à loucura e à tentativa de suicídio seres humanos privados de todas as condições físicas e emocionais que são fundamentais para a nossa saúde mental. Isso torna de certa maneira supérflua a discussão sobre que Meinhof, Baader e Gudrun Esslin se suicidaram ou foram assassinados. O sistema foi criado para isso. Lutz é um dos que resiste, embora em muitos momentos tenha caído no mais profundo desespero.

Lá fora, não só na Alemanha, mas na França e depois em vários outros países, as condições prisionais dos membros da RAF acabam por provocar protestos e surgem ações de advogados, médicos e defensores de direitos humanos que exigem a supressão do isolamento. Também lá fora, o mundo muda e Lutz é um dos poucos prisioneiros políticos que começa a perceber que uma nova realidade política, a do surgimento dos movimentos da sociedade civil, antinuclear, pacifista, dos sem teto, feministas, entre outros, exige que a RAF revise não só suas estratégias, mas suas formas de luta. Mais impressionante ainda é a autocrítica que Lutz é capaz de fazer sobre as ações armadas que implicaram em vitimar pessoas que não estavam diretamente envolvidas nos crimes do imperialismo e do Estado alemão, como funcionários públicos, soldados que realizavam o serviço militar etc.

Finalmente solto, como consequência de um forte movimento público pela libertação após vinte anos dos condenados à prisão perpétua, Lutz, depois de algumas tentativas de se inserir numa sociedade alemã tão diversa daquela de quando foi preso, acaba por mero acaso, em uma viagem até o Uruguai, a aportar no Rio de Janeiro. Aí começa a outra parte de suas memórias, no seu trabalho comunitário nas favelas do Rio. Para nós, brasileiros, menos interessante, pois conhecemos nossas misérias e nossas poucas grandezas. Essa parte de suas memórias, contudo, nos mostra um Lutz feliz e realizado em poder utilizar suas energias e sua inteligência a favor de pessoas que necessitavam desesperadamente de ajuda. Lutz não só atravessou fronteiras geográficas, históricas, políticas e morais, mas também existenciais, sendo capaz de criar para si uma segunda vida, depois de viver quase um terço desta entre quatro paredes brancas e sem ruídos.

 

*Marijane Vieira Lisboa é professora de Sociologia da PUC-SP.

 



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