De olho no petróleo - Le Monde Diplomatique

Dossiê Colômbia

De olho no petróleo

Edição - 9 | América Latina
por Federico Bernal
4 de abril de 2008
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A crise entre Colômbia, Equador e Venezuela já estava anunciada há tempos.É, provavelmente, a primeira escaramuça de um enfrentamento maior, que tem como pano de fundo as muito cobiçadas reservas petrolíferas do continente

Podemos assinalar pelo menos duas razões externas para a violação do território equatoriano pelo exército da Colômbia em março passado. A primeira é a existência de uma estratégia americana para manter seu status de potência hegemônica global. A segunda são os meios empregados para a sustentação e o reposicionamento de tal supremacia, apoiados tanto por políticos republicanos como democratas.

Entre os recursos utilizados pelos Estados Unidos estão a intervenção militar e a desestabilização de países com governos adversos – ou seja, em zonas estratégicas para a produção de hidrocarbonetos1–, além da oposição sistemática a todos os processos de unificação política, energética e econômica regional. A principal causa para tanta agressividade é o contexto provável de esgotamento das reservas energéticas do mundo.

Aliás, esse também é um dos motivos internos que fazem da América do Sul uma região de alta volatilidade geopolítica. Até agora, as reservas comprovadas de petróleo da Venezuela chegam a cerca de cem bilhões de barris, que equivalem a 82% do total sul-americano e a 62% do continental2. A Venezuela é a quinta potência petrolífera do mundo e a oitava exportadora de petróleo cru, com 1 bilhão e 735 milhões de barris diários. Provavelmente será a maior reserva de petróleo cru do planeta a partir de 2011, depois que forem comprovadas as possibilidades de extração na Faixa do Orenoco. No mínimo, seus novos volumes atingirão 78% das reservas da Arábia Saudita e do Irã juntas, atualmente primeira e segunda potências petrolíferas3.

Seu bloco político, a União de Nações Sul-Americanas (Unasul), agrega Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Equador, Guiana, Paraguai, Peru, Suriname, Uruguai e Venezuela e destaca-se como a quarta potência de gás e de petróleo cru do planeta, nona reserva comprovada e sétima produtora mundial de carvão mineral4. Dois de seus integrantes dominam o ciclo completo de manipulação do urânio para a geração nuclear. E, mais importante ainda, a Unasul é o único bloco regional auto-suficiente em matéria energética. Se superar os entraves e os problemas inerentes ao processo de integração, garantirá para os seus membros o fornecimento seguro, barato, duradouro e equilibrado dos recursos disponíveis.

Porém, outro estímulo ao conflito interno é a conformação de um foco desestabilizador da ordem petroleira anglo-saxônica. A principal publicação inglesa do setor, o Oil & Gas Journal, confirmou a passagem do velho para o novo arranjo geo-energético mundial em março do ano passado: “como conseqüência das nacionalizações (de 1950, 1970, 1980 e início do século XXI), as empresas internacionais diminuíram sua participação nas reservas de petróleo em 16%, enquanto as companhias nacionais (CN) cresceram 65%”5. Mesmo antes da “revolução bolivariana”, a Venezuela influiu em praticamente todas as nacionalizações e ajustes a favor das CN, reivindicando novos níveis de captação de renda, fixação de preços e manutenção dos cartéis dos países produtores. Dentro da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), Hugo Chávez levantou sua voz para estimular o emprego da renda petroleira como uma ferramenta de desenvolvimento socioeconômico e industrialização dos países do Terceiro Mundo.

Não podemos esquecer ainda que os países da América do Sul serão fornecedores vitais para os Estados Unidos. Segundo dados oficiais da Administração para a Informação Energética do governo americano6, a matriz energética dos Estados Unidos deve aumentar vertiginosamente sua dependência dos hidrocarbonetos. E de onde virão estes recursos? No ritmo atual de exportações, as reservas do Canadá só serão suficientes para os próximos seis anos7. A partir de então, o petróleo canadense se converterá em betume, de extração mais custosa e complexa que a forma convencional. Algo similar ocorre no México, que na melhor das hipóteses, prevê uma produção em 2016 equivalente à de 20068. Dessa forma, somente a Venezuela terá condições de fornecer petróleo para os americanos. Isso deriva da seguinte combinação de elementos: 1) perspectivas muito boas de crescimento de sua produção (de 3 bilhões e 107 milhões em 2006 para 5 bilhões e 847 milhões de barris diários em 2012)9; 2) enormes reservas com baixos níveis de extração; 3) proximidade geográfica.

Claro, além dos fatores expostos acima, existem muitos outros que podem provocar instabilidade política, tais como o fortalecimento da democracia, a existência de governos “fantoches”, ao estilo de Álvaro Uribe, e o desenvolvimento de um terreno fértil para a “guerra contra o terror”, devido à existência de conflitos internos de alta voltagem. É por isso que a tensão entre Equador e Venezuela, de um lado, e Colômbia de outro, supõe o ingresso da América do Sul no grande tabuleiro de xadrez onde se enfrentam a velha e a nova ordem energética mundial. Principal gestor do conflito, os Estados Unidos buscam a balcanização política e a desestabilização dos governos populares e democráticos – e, portanto, refratários aos seus interesses. Assim, um mecanismo de defesa que englobe todas as nações, alicerçado a partir do Mercosul, da Unasul e do Grupo do Rio, será a melhor resposta (defensiva) para evitar um Oriente Médio latino-americano.

Um ponto de partida para não ingressar nesse caos pode ser a vinculação da segurança global dos países da Unasul à segurança energética. Isto é, uma defesa militar conjunta das reservas da região. Simultaneamente, deve-se pressionar a Colômbia por um processo de paz interno efetivo, desarticulando assim a principal desculpa para o intervencionismo militar estrangeiro.

Torna-se imperioso que a América Latina coordene seus esforços para neutralizar as principais ameaças, sejam elas militar – com ou sem a participação de forças armadas estrangeiras e através de organismos como a CIA; separatista, via balcanização da região e desestabilização de governos democráticos e legítimos; e energética, através da obstrução ao desenvolvimento, transporte e fornecimento desses recursos.

No grave e complexo contexto internacional, a América do Sul co
nverteu-se em um dos elementos mais assustadores para a hegemonia mundial americana. E não é para menos: as principais reservas de petróleo cru do planeta, postas a serviço do desenvolvimento socioeconômico e da industrialização regional, aceleram inexoravelmente a passagem da unipolaridade para a multipolaridade. Não há elemento mais contundente para o fim do domínio anglo-saxônico que uma América do Sul energeticamente auto-suficiente, unida e emancipada.

 

*Federico Bernal é bioquímico, especialista em biotecnologia e microbiologia industrial.

 



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