Deepfakes, IA e a transformação dos conflitos
Pela primeira vez na história, a desinformação gerada por tecnologias sintéticas superou os métodos tradicionais, atingindo milhões de pessoas antes de qualquer verificação
Em 2023, estima-se que 500 mil deepfakes foram compartilhados online. Em 2025, esse número chegou a 8 milhões, um aumento de 1.500% em dois anos1. A guerra Irã–EUA–Israel de 2026, representa o momento em que essas trajetórias tecnológicas e geopolíticas convergiram com força máxima. Mas o que tornou esta guerra diferente de todas as anteriores não foi apenas a quantidade de conteúdo falso, e sim a forma estratégica como esse conteúdo foi projetado para fazer e o que ele conseguiu esconder, revelando uma nova camada informacional nas guerras contemporâneas.

Em junho de 2025, durante os 12 dias de conflito direto entre Israel e Irã, o Observatório Europeu de Mídia Digital (EDMO) registrou algo inédito na história dos conflitos modernos: pela primeira vez, mais desinformação foi criada por IA generativa do que por métodos tradicionais. Os três vídeos falsos mais vistos da Guerra dos 12 Dias acumularam, coletivamente, mais de 100 milhões de visualizações.
Em entrevista à Euronews Next, publicada em 30 de março de 2026, Marc Owen Jones, professor associado de análise de mídia da Northwestern University in Qatar, afirmou que os deepfakes gerados por IA haviam ultrapassado um “limiar crítico”: os sinais característicos que antes permitiam identificar esse tipo de conteúdo haviam desaparecido, enquanto a tecnologia já estava acessível a qualquer pessoa com um smartphone.
A cobertura midiática ocidental dominante cobriu a guerra de desinformação como um problema principalmente iraniano: Teerã fabrica conteúdo falso, enquanto as democracias verificam. Essa narrativa é uma forma de desinformação por omissão. A análise do ecossistema informacional do conflito revela operações coordenadas e documentadas em múltiplas direções e ao menos uma campanha diretamente ligada a Israel, que utilizou deepfakes durante ataques cinéticos reais, é demonstrada na tabela 1.
| ATOR | CONTEÚDO | PLATAFORMA | FONTE |
| Irã/contas pró-Irã | Vídeo falso de ataque ao USS Abraham Lincoln; soldados americanos capturados ajoelhados sob bandeiras iranianas; cidades israelenses em chamas; frota naval destruída | TikTok, X, Facebook, Instagram: 145 mi+ visualizações em 2 semanas | Cyabra (mar 2026); AFP |
| Irã/contas pró-Irã | Deepfakes de Netanyahu como robô defeituoso com múltiplos dedos; deepfakes de Bennett; imagens do corpo de Khamenei sob escombros (imediatamente após morte) | X, Telegram: espalhados globalmente antes de verificação | Foreign Policy (mar 2026) |
| EUA/Casa Branca | Contas oficiais postaram vídeos intercalando filmagens de bombardeios reais com cenas de Top Gun, Braveheart e referências ao videogame Wii Sports | X, Instagram: postagens de contas oficiais verificadas | Reuters Institute for the Study of Journalism (mai 2026) |
| Israel/operação “PRISONBREAK“ | Rede coordenada com dezenas de contas: imagens e vídeos gerados por IA, imitação de veículos jornalísticos legítimos, deepfakes durante ataques cinéticos reais – com objetivo explícito de incitar a derrubada do governo iraniano | Múltiplas plataformas, campanha documentada por pesquisa acadêmica independente | Citizen Lab, Universidade de Toronto (2026) |
| Atores difusos (múltiplos) | Vídeo de game (Call of Duty et al.) apresentado como batalha real; imagens de explosões na Ucrânia e na China reaproveitadas como ataques em Israel; imagem aérea de cemitério em Zanjan apresentada como vala comum em Minab | X, TikTok: viralização antes de remoção | AFP Global Fact-Checkers; BBC Verify |
| Irã/contas pró-Irã | Rede de bots no Reino Unido que havia espalhado conteúdo pró-independência escocesa e anti-Brexit silenciou por 16 dias após os ataques e retornou com mensagens explicitamente pró-Irã | X, UK: operação estatal documentada | Cyabra, relatório Cipher Brief (mar 2026) |
Tabela 1: Elaborada pela autora
O Citizen Lab, da Universidade de Toronto, documentou em detalhes a operação “PRISONBREAK”, uma campanha de influência que, segundo a organização, utilizou inteligência artificial generativa para imitar veículos jornalísticos e produzir conteúdos falsos, incluindo deepfakes, durante períodos de ataques físicos, ampliando seu potencial de impacto psicológico. A operação tinha como objetivo declarado fomentar a instabilidade interna no Irã. Apesar disso, a utilização de ferramentas semelhantes por diferentes atores estatais recebeu tratamentos distintos na cobertura da mídia ocidental: enquanto campanhas atribuídas a Teerã são frequentemente classificadas como “propaganda estatal”, a dimensão da operação atribuída a Israel recebeu comparativamente menos atenção.
Além disso, a análise forense da Cyabra sobre as campanhas iranianas revelou uma inovação tática central: a coordenação em escala. Dezenas de milhares de contas inautênticas distribuíram ativos de IA idênticos simultaneamente em todas as principais plataformas, com janelas de postagem sincronizadas e clusters de hashtags coordenados apontando para produção centralizada de conteúdo. Dos perfis envolvidos na amplificação da campanha, 19% foram identificados como inautênticos, mas bastaram para catapultar vídeos fabricados ao topo dos trending topics antes que qualquer mecanismo de verificação pudesse reagir.2
Em conflitos de alta velocidade, a informação verificada quase sempre chega atrasada – e é justamente nesse intervalo que a desinformação encontra espaço para se disseminar. Ela funciona assim por design. O neurocientista da comunicação Alexios Mantzarlis, diretor da Security, Trust, and Safety Initiative da Cornell Tech, descreve esse problema com precisão ao observar que conteúdos criados por IA se tornam mais eficazes e enganosos quando aparecem misturados a materiais reais, porque as pessoas têm mais dificuldade de analisá-los quando consomem informação online de maneira rápida, distraída e automática. Mesmo quando o espectador seria capaz de reconhecer que algo é falso se parasse para examiná-lo com atenção, na prática, ele continua rolando a página e retém apenas uma impressão rápida do conteúdo.
Existe um fenômeno que pesquisadores chamam de “liar’s dividend”, ou dividendo do mentiroso, no qual, em ambientes saturados por deepfakes, a simples existência da tecnologia de fabricação começa a contaminar a credibilidade de documentos autênticos. Qualquer imagem real pode ser descartada como falsa, assim como qualquer vídeo legítimo pode ser contestado como produto de IA generativa. Quando a desinformação se espalha de forma suficientemente difusa, ela já não precisa convencer ninguém de uma mentira específica. Basta destruir a confiança no que é verdadeiro.
Essa dinâmica apareceu de forma concreta durante o conflito entre Israel e Irã, em junho de 2025, por meio de um ator inesperado: Grok, o chatbot de IA integrado ao X. O DFRLab analisou 312 respostas do Grok a um mesmo vídeo falso, que mostrava um aeroporto supostamente atingido por um ataque, e constatou que as respostas se contradiziam até mesmo com poucos minutos de diferença. Em algumas delas, o sistema afirmava que o vídeo “provavelmente mostra danos reais”; em outras, que “provavelmente não é autêntico”. O diretor de estratégia do DFRLab, Emerson Brooking, resumiu o problema: “O que estamos vendo é a IA mediando a experiência da guerra.”
Um fenômeno semelhante voltou a aparecer durante o conflito de 2026, quando ferramentas de IA foram usadas para analisar imagens relacionadas ao ataque à Escola Primária Shajareh Tayyebeh, em Minab, no sul do Irã, atingida em 28 de fevereiro. Relatos sobre o episódio circularam em um ambiente marcado por informações conflitantes e pela dificuldade de verificar, em tempo real, a origem das imagens. O ataque matou mais de uma centena de pessoas, entre elas 120 crianças, segundo a Amnesty International. Apesar de análises da Human Rights Watch indicarem que a escola havia sido separada da base militar vizinha anos antes e de organizações como a Amnesty International apontarem possíveis violações do direito internacional humanitário pelos Estados Unidos, Donald Trump atribuiu o ataque ao Irã com alegações refutadas, enquanto a Casa Branca mantinha a investigação em andamento.
O mecanismo foi exatamente o mesmo descrito anteriormente: uma informação não verificada, enquadrada como declaração presidencial, ocupou o vácuo antes que qualquer conclusão fosse possível. E a resposta das plataformas ao dilúvio de desinformação foi tardia, insuficiente e, em pelo menos um caso, reveladora de um conflito de interesses. Um relatório do Tech Transparency Project (TTP), publicado em 12 de fevereiro de 2026, identificou mais de duas dezenas de contas do X Premium associadas a autoridades do governo iraniano e a veículos de mídia controlados pelo Estado, possivelmente em violação de sanções americanas. O X removeu posteriormente as marcas de verificação de algumas dessas contas.
Há um detalhe sobre a Escola de Minab que apareceu muito pouco nos textos sobre desinformação: a principal ferramenta usada para atribuir o massacre ao Irã não foi um deepfake. Foi uma declaração presidencial americana, feita sem evidências, e depois reproduzida por canais de notícias que, pouco antes, haviam denunciado a desinformação iraniana com toda a vigilância jornalística disponível.
Isso não significa igualar as ações de todos os lados. A desinformação estatal coordenada, como a que a Cyabra documentou nas redes iranianas, ou como a operação “PRISONBREAK”, analisada pelo Citizen Lab, é qualitativamente diferente de uma declaração presidencial equivocada. Ainda assim, a diferença de tratamento que cada tipo de desinformação recebe na cobertura midiática dominante é, por si só, um dado jornalisticamente relevante. O ecossistema que permitiu que 145 milhões de pessoas vissem conteúdo fabricado em apenas duas semanas não foi criado exclusivamente pelo Irã, pelos Estados Unidos ou por Israel. Ele foi produzido por arquiteturas de plataforma que remuneram o engajamento sem levar em conta a veracidade, por regulações que chegam tarde demais, por ferramentas de IA usadas ao mesmo tempo para criar e para autenticar falsidades, e também por um modelo de cobertura jornalística que costuma documentar as mentiras do inimigo com muito mais rigor do que examina as mentiras do aliado.
Isabella Werneck Zanon é mestranda de Relações Internacionais e graduanda em Políticas Públicas na UFABC, pesquisadora em cooperação internacional, direitos humanos e políticas sociais.
Fontes:
Erkan’s Field Diary. Disinformation in the Iran-Israel-US War: Major Cases and Patterns as of 6 March 2026. 2026. Disponível em: https://erkansaka.net/2026/03/06/iran-war-disinformation-ai-2026-6-march/
IPSOS. Public opinion poll on Iran conflict. 2026. Disponível em: https://www.ipsos.com/pt-br/ipsos-update-abril-2026.
THE CIPHER BRIEF. When deepfakes become doctrine. 23 mar. 2026. Disponível em: https://www.thecipherbrief.com/when-deepfakes-become-doctrine
EURONEWS. Did you spot these fake videos about the Iran war?. 30 mar. 2026. Disponível em: https://www.euronews.com/my-europe/2026/03/06/did-you-spot-these-fake-videos-about-the-iran-war
TIME MAGAZINE. How Americans Feel About the War With Iran, One Month In. (Compilação de pesquisas) 11 mar. 2026. Disponível em: https://time.com/article/2026/03/26/us-iran-war-poll-americans-public-opinion-approve-democrats-republicans/
CNBC NEWS. Iran’s war propaganda homes in on Trump with Lego memes. 2026. Disponível em: Iran’s war propaganda homes in on Trump with Lego memes
AMNESTY INTERNATIONAL. Iran: Deaths and injuries rise amid authorities’ renewed cycle of protest bloodshed. 16 mar. 2026. Disponível em: https://www.amnesty.org/en/latest/news/2026/01/iran-deaths-injuries-authorities-protest-bloodshed/
CEARTAS. Global deepfake statistics & impact: 2025 report. 5 dez. 2025. Disponível em: https://blog.ceartas.io/p/global-deepfake-statistics-impact.

