O ENCONTRO FEMINISTA DA ARGENTINA

Diário de uma autoconvocada

Relatos de uma brasileira sobre o 39º Encontro Plurinacional de Mulheres e Dissidências, em Córdoba, Argentina ou, para ser mais exata, no 39º Encuentro Plurinacional de Mujeres, Lesbianas, Trans, Travestis, Bisexuales, Intersexuales y No Binaries 

Faz dez anos que ouvi dizer que as feministas da Argentina realizavam encontros anuais que reuniam cerca de 100 mil mulheres. Duvidei. Essa informação me chegou por conta das discussões que ocorreram no Brasil e em diversos países do mundo, quando da convocação de uma greve feminista internacional para o 8 de março de 2017, impulsionada pelas argentinas. 

Continuei duvidando, mas cada vez mais inquieta com o grau de mobilização e politização que as argentinas demonstravam nas manchetes de diversos canais de informação, tanto pela efetivação da própria greve feminista quanto pelas multidões que arrastavam pelas ruas do país em defesa da descriminalização do aborto e da legalização da interrupção voluntária da gravidez. 

Hão de concordar que não era pouca coisa. Aquelas mulheres tinham algo a nos ensinar, pensei. Desde então, participar desse Encontro e ver de perto o que essas mulheres estavam fazendo virou uma obsessão para mim. 

Fiz uma tentativa de participação em 2024. Comprei as passagens pela 123 Milhas e “entrei pelo cano”, como diria a música do Paralamas do Sucesso. Não consegui reunir recursos para participar em 2025 e, assim que vi os primeiros chamados para 2026, resolvi arriscar um novo investimento. Deu certo! 

Fui acompanhada de minha amiga e companheira de lutas, Sônia. Mulher, mãe e esposa que não tem uma militância orgânica em movimentos sociais nem partidária, mas que não vacilou em também querer ver de perto o que uma grande quantidade de mulheres juntas é capaz de fazer em uma cidade como Córdoba. 

Córdoba, na Argentina, também é conhecida por ser a cidade com o maior número de eleitores do presidente Javier Milei, e nós pudemos comprovar isso. Ao chegarmos ao quarto que alugamos, bastante simples e localizado no Centro, fomos recepcionadas por um rapaz simpático, estudante e administrador do aluguel, que, sem o menor constrangimento, disse que havia votado em Milei e não estava arrependido. Pensamos: ele é uma exceção. Só que não era. 

Ao conversarmos com outras pessoas jovens que trabalhavam em bares, restaurantes e supermercados, fomos percebendo a desesperança dessa parcela da população, altamente escolarizada e politizada, em relação às promessas do campo progressista do país. Também percebemos as contradições de votar na extrema direita por razões econômicas, mesmo quando seus representantes seguem flertando com o fascismo, tanto interno quanto externo, a exemplo do governo Trump e do bolsonarismo. 

Vale abrir um parêntese aqui: em 28 de outubro, foi publicada a notícia de que o “suicídio bate recorde na Argentina e vira maior causa de morte entre jovens”. 

Foi nesse cenário que ouvi de mulheres que começavam a chegar à cidade que a escolha de realizar o Encontro ali se deu justamente por isso: para enfrentar o principal foco de apoio ao governo de ultradireita de Milei. 

Crédito: arquivo pessoal

O primeiro dia do Encontro foi marcado por um ato de rua, com um palco gigante montado em uma das principais avenidas do Centro. Foram chegando as diversas caravanas vindas de todas as partes do país. Uma pluralidade incrível de movimentos, partidos, sindicatos e organizações comunitárias, que faziam questão de marcar presença com seus estandartes gigantescos, pesados e de difícil manuseio. Alguns precisavam ser sustentados por cordas nas laterais e eram carregados por mulheres de todas as idades, etnias e condições socioeconômicas. 

Porém, Sônia chamou a atenção para um fato: “Não vejo mulheres negras aqui. Por que será?” 

Confesso que aquela indagação de Sônia me causou certo constrangimento, como quem diz: “Esse Encontro que você tanto idealizou, Deise, não tem a representação daquelas que mais precisam disso, ou seja, as mulheres negras”. 

Sabemos que são realidades diferentes e que, para nossa felicidade, no caso brasileiro, a presença de mulheres negras é uma questão central. Assumir o antirracismo é uma prioridade para nós e, talvez, as características demográficas e socioculturais dos dois países ajudem a explicar essa diferença de abordagem. De qualquer forma, foi difícil encontrar uma justificativa para aquela ausência, pois era realmente raro encontrar uma pessoa negra, cis ou trans. 

Eis que, ao final do Encontro, para nosso alívio, assistimos a um protesto contundente no palco de encerramento. Mulheres que foram apresentar as resoluções dos debates no eixo temático “Nações e povos preexistentes, afro-indígenas, espiritualidade e territórios” denunciaram o racismo presente no próprio Encontro e reivindicaram que ele passasse a se autodenominar também antirracista. 

Crédito: arquivo pessoal

Voltando às primeiras atividades, recebemos a programação impressa: um verdadeiro mapa detalhado, com todas as atividades espalhadas por vários pontos da cidade. A vontade era de participar de tudo, ao mesmo tempo e em todo lugar. Impossível. Tivemos que escolher. 

O Encontro de Córdoba mobilizou mais de 150 mil pessoas, realizou 99 oficinas de debate, distribuídas em 13 eixos temáticos, e promoveu mais de 300 atividades culturais e formativas. Uma expressiva experiência de articulação feminista, transfeminista, sindical, popular e territorial. Conforme balanço publicado nas páginas do Encontro e nas redes sociais. 

Priorizei participar do taller (oficina ou grupo de trabalho) sobre “Organização Sindical”. A caminho do local do debate, pensei: esse assunto não deve mobilizar muitas pessoas. O sindicalismo vem perdendo prestígio, está em crise… Ledo engano! A sala estava lotada, com aproximadamente cem mulheres. Depois de muito custo, consegui entrar e me sentar no chão. 

As primeiras falas partiam de um diagnóstico sobre o enfrentamento ao machismo dentro das estruturas sindicais, a necessidade de reafirmar um feminismo sindical e de mobilizar mais mulheres. Uma parte das presentes levantou a proposta de convocar uma greve geral contra o governo Milei. Outra parte ponderou sobre os desgastes e as dificuldades de construção dessa greve, considerando que trabalhadores e trabalhadoras da base desses sindicatos haviam votado e apoiavam o governo. 

A certa altura do debate, houve um tensionamento entre dirigentes de um sindicato de professores e militantes da oposição desse mesmo sindicato. O clima esquentou e, como havia previsto uma amiga brasileira que vive em Buenos Aires, o tom das falas foi ficando cada vez mais exaltado, a ponto de os trabalhos serem encerrados.

Crédito: arquivo pessoal

No dia seguinte, me dirigi ao taller sobre “Feminismos Comunitários, Territoriais, Indígenas e Campesinos”. Diferentemente da oficina sobre organização sindical, essa tinha um formato mais horizontalizado e espontâneo. A tensão se dava entre as mulheres da academia, ou seja, entre aquelas que estudavam o feminismo comunitário e aquelas que o praticavam. 

Foi na apresentação inicial que me chamou a atenção a seguinte expressão: “Sou uma autoconvocada”. Achei interessante essa forma de se colocar diante dos diversos grupos organizados. Ao meu ver, é como quem diz: não vim por nenhum dos movimentos; vim por vontade própria, porque acredito na luta coletiva, porque quero somar com todas e não preciso estar vinculada a nenhuma organização, partido ou sindicato. 

Não que estar vinculada à algum movimento, partido ou sindicato, seja algo ruim, mas, ser uma autoconvocada ganha uma força política ainda maior. Pensei: eu também sou uma autoconvocada e uma autofinanciada. E isso bastava para estar ali, naquele momento. 

No terceiro dia, eis que chegou o grande momento: a Grande Marcha do 39º Encontro, que reuniu mais de 150 mil pessoas. Ali foi possível ter a dimensão da grandiosidade do Encontro. Todas as pessoas envolvidas, assim como os moradores da cidade, puderam acompanhar uma verdadeira ocupação das ruas de Córdoba, em um desfile de manifestações políticas de todos os tipos: grupos de percussão, dança, palavras de ordem, coreografias, performances, cartazes, banners gigantes, sinalizadores, grafites… Enfim, usaram e abusaram da criatividade durante toda a passeata, que era quase impossível de acompanhar com os olhos: não se conseguia enxergar onde começava nem onde terminava. 

Um detalhe importante: não havia carro de som. No máximo, algumas participantes carregavam megafones para conduzir as músicas e palavras de ordem, cantadas com entusiasmo ao longo dos aproximadamente 4 quilômetros de percurso. 

Entre as diversas palavras de ordem, a mais cantada durante a Marcha foi: “¡Qué momento, qué momento, a pesar de todo, les hicimos el Encuentro!” Em português, o sentido seria: “Que momento, que momento! Apesar de tudo, fizemos o Encontro!”

Crédito: arquivo pessoal

Sônia e eu saímos encantadas com tudo o que vimos e ouvimos. Ao final do Encontro, no palco de encerramento, procurei a organização para pedir que manifestasse apoio à reeleição de Lula, diante da ameaça bolsonarista. Foi então que uma participante me questionou: “Vocês não têm um Encontro assim no Brasil?” 

Falei da Marcha das Margaridas, para “não ficar por baixo”, como diria meu pai, lembrando que ela acontece a cada quatro anos. Depois, me lembrei do debate sobre a construção do Encontro Nacional Feminista que tentamos organizar no Brasil, ainda no primeiro ano do governo Bolsonaro. 

Temos muito a aprender, mas também muito a ensinar. O movimento feminista no Brasil pode até estar vivendo um momento de refluxo, mas segue vivo, pulsante e em movimento. Assim como também permanecem ativos os movimentos antifeministas. Não nos faltam, portanto, motivos para continuar apostando e vislumbrando a realização do nosso Encontro Feminista no Brasil. 

As mulheres tiveram um papel fundamental na derrota do projeto bolsonarista nas urnas. Espero que sigamos com o mesmo entusiasmo e que essa energia nos inspire a renovar nossas forças, fortalecer nossas alianças e ampliar nossa capacidade de articulação e mobilização. 

E que venham muitas novas primeiras feministas por aí! 

 

Deise Recoaro é militante sindical e feminista. 

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