PROIBIÇÃO DO VOTO FEMININO

Do ‘Game of Thrones’ bolsonarista ao ‘Conto da Aia’

Quando uma mulher disputa poder, tenta-se desqualificar sua racionalidade; quando muitas votam contra a extrema-direita, tenta-se desqualificar o próprio voto feminino

A fala de Paulo Figueiredo, segundo a qual mulheres “votam mal”, sobretudo as solteiras, não deve ser tratada como mais uma grosseria de um influenciador em busca de engajamento. Seria confortável reduzi-la a uma bizarrice, uma provocação machista ou uma excrescência isolada do submundo digital. O problema é mais grave. Trata-se da expressão local de uma corrente internacional da ultradireita que voltou a mirar direitos civis das mulheres, e não só o sufrágio.

A obscenidade contemporânea raramente chega de uma vez. Ela se naturaliza por aproximações sucessivas. Primeiro aparece como piada. Depois, como provocação. Em seguida, como “debate”. Logo surge alguém dizendo que é apenas uma hipótese, um “dado estatístico”, uma reflexão incômoda, uma tese contraintuitiva ou o legítimo direito à liberdade de expressão.  Quando se percebe, o indizível já foi dito, o absurdo já entrou na agenda e a barbárie já encontrou seus porta-vozes.

Foi assim com a curvatura da Terra e com a higidez das urnas eletrônicas, atacadas sem provas durante anos. Foi assim com as vacinas em plena pandemia e, recentemente, com a tentativa de normalizar a ingerência norte-americana no Brasil. De tema em tema, a extrema-direita testa os limites do tolerável. O objetivo não é convencer todos de imediato, mas deslocar a fronteira do aceitável, normalizar a obscenidade civilizatória e permitir que seja desejada a céu aberto por uma legião medievalesca.

Agora, o alvo é o voto feminino.

O Boletim Especial do Instituto Democracia em Xeque, de 3 de julho, destacou que a controvérsia ganhou tração entre 30 de junho e 1º de julho, exatamente quando se aprofundava a crise entre Michelle Bolsonaro e Flávio Bolsonaro. Foram mais de 23 mil menções ao termo “voto feminino”, com pico no dia 30. Na base classificada pelo DX, o maior cluster do debate, com 38% dos posts, foi justamente o da frase “mulheres votam mal”. O segundo, com 30%, enquadrou o voto feminino como direito democrático histórico e inegociável.

O dado mais revelador, porém, não é apenas quantitativo. É político. O relatório aponta que Figueiredo uniu duas engrenagens que vinham operando em paralelo: de um lado, a manosfera red pill, com sua hostilidade organizada às mulheres; de outro, o gabinete do ódio bolsonarista, hoje em grande medida fora do país, alimentado pelos enquadramentos originados pelo ecossistema MAGA norte-americano. A misoginia deixou de ser apenas uma expressão difusa de ressentimento masculino e passou a funcionar, primeiro, como instrumento e, agora, como motor da disputa eleitoral.

A fala apareceu no meio do Game of Thrones bolsonarista: a disputa pelo espólio político de Jair Bolsonaro entre o primogênito e a ex-primeira-dama. O que começou como ataque a Michelle – acusada de não entender de política – rapidamente transbordou para as mulheres como sujeito político. A lógica é antiga: quando uma mulher disputa poder, tenta-se desqualificar sua racionalidade; quando muitas votam contra a extrema-direita, tenta-se desqualificar o próprio voto feminino.

Atrizes marcham contra ditadura militar em 1968 (Foto: Reprodução/O Globo)

Eis o ponto: quando diferentes correntes da direita radical começam a tratar o voto individual como problema, o alvo não é apenas a mulher. São os marcos democráticos e civilizatórios. A justificativa muda conforme a conveniência. Beneficiários de programas sociais votariam mal porque seriam “comprados”. Trabalhadores pobres votariam mal porque seriam dependentes. Mulheres solteiras votariam mal porque teriam sido capturadas pelo feminismo. Pessoas trans, imigrantes, jovens, pobres, negros, indígenas, moradores de periferia: sempre haverá um grupo considerado incapaz de votar corretamente quando não vota como a extrema-direita quer.

O voto só é legítimo quando confirma a hierarquia desejada. A ideia de “voto da família” reveste-se de pseudo-coerência e harmonia doméstica, mas não é mais que subordinação política. Parece defender valores, mas elimina autonomia. Finge celebrar a família, mas consagra o mando masculino. O voto deixa de ser expressão da cidadania individual e passa a ser extensão da autoridade patriarcal.

Não por acaso, a reação de Flávio foi tardia e ambígua. Como pré-candidato, ele sabe que não vence eleição hostilizando mulheres. Como herdeiro do bolsonarismo, sabe que parte relevante de seu ecossistema digital se alimenta justamente dessa hostilidade. Precisa repudiar Figueiredo, não sem elogiar “tudo que está fazendo por nós” nem romper com o mundo que o produziu. Precisa acenar ao eleitorado feminino sem desautorizar de fato a máquina que o sustenta. Precisa dizer que “a mulherada manda”, enquanto seus aliados difundem teses que gostariam de devolver as mulheres ao silêncio político da época das cavernas.

A crise expõe uma contradição estrutural. O bolsonarismo depende das mulheres para vencer, mas parte de sua vanguarda digital não tolera a autonomia feminina quando ela contraria seus interesses eleitorais. As mulheres são bem-vindas como eleitorado cativo, como escada moral, como símbolo de família. Não como sujeitos autônomos.

A comparação com o Conto da Aia é precisa. O mundo de Gilead não começa com mulheres de vermelho nas ruas e direitos extintos de um dia para o outro. Inicia antes, quando a sociedade aceita ouvir, em tom de brincadeira ou cálculo eleitoral, que talvez algumas pessoas não devam decidir por si mesmas.

O episódio Figueiredo é mais um desses testes. Não o primeiro. Certa e infelizmente, não será o último.

A defesa do voto feminino não pode ser tratada como pauta identitária lateral. Trata-se de defesa elementar da democracia. O sufrágio universal é conquista histórica contra todos os que sempre desejaram restringir a cidadania aos que consideram obedientes, racionais, proprietários ou “aptos”.

A cada nova barbaridade, alguém dirá que é exagero levar a sério. Que é só provocação. Que é só internet. Que é o preço da sacrossanta liberdade de expressão. A experiência histórica ensina o contrário: democracias começam a adoecer quando passam a tratar ataques a direitos fundamentais como mera excentricidade retórica.

Entre o Game of Thrones bolsonarista e o Conto da Aia, há um fio comum: a disputa por quem manda. Na família, no partido, no corpo das mulheres e, agora, no voto. A resposta democrática precisa ser simples, frontal e inegociável: nenhuma estatística “mandrake”, nenhum “influenciador” recalcado e nenhum projeto de “voto familiar” tem o direito de transformar metade da população em cidadania tutelada.

 

Beto Vasques é Diretor de Relações Institucionais do Instituto Democracia em Xeque. Professor de Estratégia e Comunicação Política e coordenador do projeto de implantação do Laboratório de Opinião Pública da FESP

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